Como vai seu mundo? autoconstrução pessoal e construção de políticas periféricas

por José Douglas dos Santos Silva

Tenho mais de 20 anos como morador de Jandira, cidade de nome feminino, origem Tupi. Localizada a Oeste da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) conta com uma população oficial de 116.045 mil, distribuído em 17 km² (SEADE, 2015). Constituída à beira de uma estrada de ferro, que oficialmente comemora anualmente a chegada do pioneiro – fundador que com sua família adentrou em lugar que nada tinha. Um imigrante, branco, europeu, que como registra o mito de origem, à custa de muito trabalho, comprou terras, e depois de anos conquistou nome de rua, praça, escola, bem como outros europeus que por lá chegaram no início do século XX. Algo distinto, de muitos mineiros, paraibanos, piauienses, baianos, alagoanos, cearenses, pernambucanos e outros tantos de fora que chegaram no final do século XX, mas nunca ganharam o mesmo prestígio, nome de rua, busto na praça. Esses foram corriqueiramente associados com as mazelas, ao atraso da cidade e inseridos em um processo de subalternização cotidiana.

Desse cenário social proponho intercalar a minha própria experiência como filho de migrante nordestino, oriundo de uma geração periférica do final dos anos de 1980 que vivenciou diversas expressões de violência, sobretudo a violência homicida. Proponho um exercício nada ortodoxo que, em parte, demanda uma auto-etnografia, ou seja, a trajetória de vida do pesquisador como recurso para possíveis objetivações de processos sociais amplos (Reda, 2007 e Fiori, 2014). Interesso-me em compor um entrecruzamento com uma nova etnografia, recurso que se afasta do exotismo e do empirismo puro e se ancora em processos teóricos e metodológicos. Uma possibilidade de “constante confronto com dados novos, com novas experiências de campo, resultando em uma invariável bricolagem intelectual” (Peirano, 2014).

O eixo analítico é estudar a cidade e sua população, a partir das narrativas em torno de dor e sofrimento, noções compreendidas ora na chave da tristeza e da privação, ora na do sacrifício que eleva uma espécie de sujeito “guerreiro”, “um sobrevivente”, alguém que atravessa e lida constantemente com adversidades e se produz politicamente. (Das, 1999) Concebo a violência, não simplesmente como algo excepcional, esporádico, mas como movimento que percorre o cotidiano, processo que produz reverberação, elemento que produz efetividade e capilaridade no dia a dia. Portanto, a estratégia analítica é recompor “histórias minúsculas” (Foucault, 2005) de infância, adolescência e fase adulta do próprio pesquisador, de interlocutores, e material artístico periférico. Histórias protagonizadas por vozes difusas no cotidiano, mas relembradas, como uma possível afirmação de existência periférica, algo como testemunho e perplexidade, diante de uma dúvida como Buther (2004) aborda – quem é esse “eu” que segue “sem você”, recorrente em contextos de conflitos. Portanto, a expectativa é de uma incursão sociológica (antropológica, política) a partir de fragmentos, de narrativas de situações individuais e coletivas que ganham profundidade analítica nos cotidianos, quando se fala de dor e sofrimento que, via de regra, compõe esses testemunhos.

Para tanto são questões iniciais de pesquisa: Como essa violência homicida é assimilada no cotidiano periférico de uma cidade e de seus moradores ao longo de anos e décadas? Quais expressões de luto são válidas e que tipo de luto cai no esquecimento? Quais implicações ou desdobramentos repercutem no cotidiano periférico da cidade, a partir do que (Das, 1999) cunhou como “eventos críticos”? Que sujeito político se constrói atravessado por um longo período de violência homicida e de um cenário contemporâneo de “encarceramento em massa” (Wacquant, 2001, Garland,2008) Qual espécie de aprendizado se produz a partir da dor e do sofrimento em suas múltiplas expressões? Como o tempo trabalha nessas relações?

Bibliografia

BUTHER, Judith. Precarious life: the power of mourning and violence. London. Verso. 2004.

DAS, Veena. 1999. Fronteiras, Violência e o trabalho do tempo: alguns temas wittgensteinianos. RBCS. Vol. 14. N.40. junho de 1999. F

ERREZ. Literatura Marginal: talentos da escrita periférica. Editora Ediouro. 2005.

FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade. São Paulo. Martins Fontes. 2005.

_________________ Segurança, território e população. São Paulo. Martins Fontes. 2008.

FIORE, Mauricio. Uso de drogas: substâncias, sujeitos e eventos. Tese de Doutorado em Ciências Sociais. Unicamp. 2013.

GARLAND, David. A cultura do controle: crime e ordem social na sociedade contemporânea. São Paulo. Editora Revan.2008.

MAUSS, Marcel. Manual de etnografia. Fundo de Cultura econômica Buenos Aires. 2006.

PEIRANO, M. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 20, n. 42, p. 377-391, jul./dez. 2014

REDA, M.M. “Autoethografy as research methodology” Academic Exchange Quartely, 2007.

VAZ, Sérgio. Literatura, pão e poesia. São Paulo. Editora Global. 2010.

WACQUANT, Loic. As prisões da miséria. Rio de Janeiro. Editora Jorge Zahar. 2001.

_______________. Corpo e alma: notas etnográficas de um aprendiz de boxe. Rio de Janeiro. Editora Relume Dumará. 2002.

WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência 2010: Anatomia dos homicídios no Brasil. São Paulo. Instituto SANGARI. 2010.

_______________________. Mapa da Violência 2012. Os novos padrões da violência homicida no Brasil. São Paulo. Instituto SANGARI. 2012.

ZALUAR, Alba. Oito temas para o debate: violência e segurança pública. Sociologia, problemas e práticas. Nº 38. p. 19-24.Rio de Janeiro. 2002. Disponível em: http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/spp/n38/n38a02.pdf. Acesso dia 05/09/2011.

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