Gênero e sexualidade nas práticas de sexo pago por webcam

por Lorena R P Caminhas

A presente pesquisa objetiva estudar mulheres que oferecem o serviço de sexo pago via webcam[1], buscando compreender como determinadas gramáticas morais acerca de gênero e sexualidade estão presentes nessa atividade e de que modo esses sujeitos dialogam com essas normatividades – como seria possível articular as possibilidades de incorporar tais gramáticas e, ao mesmo tempo, se desvincular de suas determinações. Para tanto, serão investigados os processos de atuação (o agir que se ancora em determinados discursos normativos) e as justificações elencadas para conferir coerência à ação.

A questão que subjaz esse estudo dialoga diretamente com as discussões teóricas acerca de gênero e sexualidade: contemporaneamente, considera-se que gênero e sexualidade são construtos socioculturais, que se edificam e se mantêm através da reiteração de determinadas práticas ancoradas em enunciados normativos (BUTLER, 2002, 2007). A relação entre discurso e ação é dialética, na medida em que as ações corroboram os enunciados e os enunciados são a base para o agir. Essa configuração do gênero e da sexualidade é fruto de uma gramática moral que cria um interior e um exterior: dentro está o conjunto de normas que vão sancionar os corpos e os sujeitos que compõem o espectro de inteligibilidade e fora estão situados os abjetos, aqueles que vão constituir o oposto das possibilidades de ser/estar em gênero e sexualidade. O exterior é a possibilidade de criação da própria lei: para a consolidação de uma norma existe a edificação daquilo que é prescrito como seu oposto.

As exemplificações dessa discussão são feitas, em sua maioria, a partir da abordagem das vidas de homossexuais, transexuais e travestis[2], uma vez que eles subvertem a própria normatividade e estão posicionados no exterior constitutivo (são casos limites). Essa pesquisa possui como um objetivo adjacente questionar em que medida sujeitos que estão inseridos nas gramáticas de gênero e sexualidade (por exemplo, mulheres heterossexuais) também dialogam com as construções externas à moralidade, buscando constituir-se como sujeitos coerentes. Tal discussão amplia o espectro de abordagem da temática, revelando que o dentro e o foras das gramáticas de gênero e sexualidade também são instâncias acessadas na construção de indivíduos considerados a priori coerentes[3].

Outra importante questão que colabora na compreensão dos sujeitos em estudo e de sua problemática central são as políticas de sexualidade. Elas configuram um campo de disputas, instituindo modos específicos de desigualdades e de prescrições. A título de exemplificação das questões em jogo neste projeto, destaca-se as escalas de avaliação das práticas sexuais (RUBIN, 1985), as quais irão fundamentar um enquadramento punitivo e controles formais e informais. Tal escala estabiliza e naturaliza as práticas permitidas e valorizadas, compensando os sujeitos que se enquadram em suas diretrizes, e as imorais e estigmatizadas, providenciando penalidades para os indivíduos transgressores. A produção de um regime da sexualidade procura controlar as experiências eróticas, fazendo com que matrizes de poder as intersectem e as sedimentem. Em seu diálogo com gênero, a sexualidade é perpassada por padrões institucionais/culturais que direcionam ambas as esferas, criando uma gramática de atuação.

As moralidades de gênero e as políticas da sexualidade vão compor o espectro de atuação das camgirls, oferecendo a elas um conjunto de normatividades com as quais será preciso estabelecer um diálogo. A pergunta de pesquisa pretende se inserir exatamente nessa tensão, discutindo de que modo as mulheres no interior dessa atividade desempenham o gênero e mobilizam sua sexualidade em um ambiente pleno de moralidades, que possibilita, ao mesmo tempo, passividade e agência. Através de suas atuações elas estão aderindo e transformando as próprias normas.

No presente estudo ainda se destacam dois âmbitos constitutivos: os mercados do sexo e os mundos midiatizados. Os mercados são conceituados por Laura Augustín (2000, 2007) como campos onde se estabelecem a venda e compra de sexo, prática situada em contextos econômicos, sociais, culturais e históricos específicos e, por isso, caracterizados por ambiguidades e tensões. Eles englobam uma miríade de estabelecimentos/produtos – como bordeis, linhas telefônicas eróticas, casas de massagem, saunas, revistas e filmes de sexo, cinemas eróticos, sexo na internet – e de atividades – algumas promovem o contato físico e outras a estimulação sexual indireta; podem possuir maior ou menor flexibilidade de horários/locais de trabalho; podem oferecer maior ou menor espaço para negociação com os clientes. Os sujeitos envolvidos nessas indústrias devem estar em condições de barganhar as práticas sexuais com os clientes, encenar uma apresentação de si e seus atributos, e transitar entre diferentes papeis (o que pode borrar ou reforçar as fronteiras de gênero e de desejo sexual).

Os mercados do sexo possuem uma vertente midiática, que contribuiu para a expansão e diversificação do entretenimento adulto (BERNSTEIN, 2007), proporcionando a oferta de novos serviços (AUGUSTÍN, 2000), tais como: fotos e vídeos pornográficos que podem ser vistos em mídias analógicas como a televisão e digitais como na internet, serviços de tele sexo, sexo via internet (que abriga desde sexo pago/gratuito por webcam a chats eróticos), anúncios de acompanhantes ou de massagistas em jornais e sites da internet.Por meio dessa vertente essas indústrias vão passar a se integrar em um ambiente ético e moral conformado no contexto de midiatização.

A partir deste ponto entra em destaque a atuação dos mundos mediatizados, que colaboram na construção da problemática de pesquisa. Em primeira instância, é preciso definir o processo de midiatização: “reformulações sócio-tecnológicas de passagem dos processos mediáticos à condição de processualidades interacional de referência” (BRAGA, 2007, p.142).Destarte, duas questões se destacam: as transformações sociais em relação com tecnologias de comunicação (as mídias) e a transformação dos processos de interação simbólica (comunicação). A midiatização consiste na ascensão de processos interacionais que se valem de recursos tecnológicos/midiáticos, estabelecendo os media como espaços de interlocução singulares. Os dispositivos midiáticos passam a ser uma instância fundamental na organização das trocas, redirecionando-as e redesenhando-as, colaborando com a construção da realidade social.

A midiatização é um conceito que busca ampliar a compreensão da atuação dos media nos espaços sociais, tentando discutir as implicações desse fenômeno para a democracia e para a sociedade civil, para as relações sociais, dentro dos processos de reconhecimento, em relação às práticas políticas (institucionais e hodiernas). Desse modo, ele aponta para as dimensões morais e éticas desses dispositivos, tanto no que se refere às representações da alteridade, quanto no que diz respeito de estar em face do outro.

Essa retomada do processo de midiatização enfatiza a necessidade de compreender os media para além de seus aspectos tecnológicos, colocando em relevo as configurações dos “episódios comunicacionais”[4] (BRAGA, 2012) que vão estar imbricados em gramáticas morais que informam areflexão e a ação. Nesse sentido, o conceito normativo de “distância apropriada” (SILVERSTONE, 2002) passa a ser a baliza a partir da qual se analisa as relações estabelecidas entre sujeitos e processos comunicativos. Em geral, o que se destaca nessanoção é a atuação do par distância e proximidade, que revelam uma dupla função dos media: eles separam ao mesmo tempo que conectam. Assim, eles criam uma proximidade ou um distanciamento que pode ser espacial (diferença de localização geográfica) e moral (defasagem que se apresenta no modo de consideração do outro como sujeito digno de respeito e reconhecimento).

Essas questões são particularmente importantes para a presente pesquisa, uma vez que se trata de práticas eróticas acontecendo por meio de uma interação mediada por computador. Elas alertam para a necessidade de ter atenção para a composição moral dos espaços midiáticos nos quais determinados atores e ações estão inseridos, o que colabora para formatar os papéis/posições que eles irão assumir. Ao invés de tratar a internet como uma tecnologia que possui determinadas características técnicas que, por pressuposto, contribui para a interação entre sujeitos, coloca-se como questão em que medida esse lócus, enquanto espaço social, está imbricado e ajuda a formatar/fomentar determinadas diretrizes morais em um contexto de midiatização.

Links para discussão sobre a Ruptura:

Abaixo seguem alguns links que ajudam a fundamentar a importância de pensar processo de midiatização, e suas consequência éticas e morais para a representação (em sentido simbólico e político) dos sujeitos (principalmente os que estão posicionados em minorias) e para a situação de estar em face do outro por meio da mídia (como esses discursos e essas imagens passam a figurar no meio social a partir da apreensão de uma audiência). Essa discussão ajuda a contextualizar, sobretudo, a importância dos media em estabelecer e manter determinadas moralidades, construindo um espaço social que pode reforçar prejuízos e desrespeitos (ou como ampliar a discussão pública e promover o reconhecimento). Em um momento no qual assume um governo de cunho conservador, que possui respaldo de algumas das maiores empresas de mídia do Brasil, essas questões são ainda mais salientes e significativas.

  1. Marcela Temer como modelo de mulher possível na política institucional brasileira:

http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/bela-recatada-e-do-lar

(Marcela Temer: bela, recatada e do lar)

http://diariogaucho.clicrbs.com.br/rs/dia-a-dia/noticia/2016/05/alem-da-primeira-dama-mulheres-de-tres-ministros-chamam-a-atencao-pela-beleza-5800930.html

(Além da primeira-dama, mulheres de três ministros chamam a atenção pela beleza)

http://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/pela-primeira-vez-em-37-anos-ministerio-nao-tera-mulheres-c9b59phya7wbbfyf3jpqs5jk6

(Pela primeira vez em 37 anos, ministério não terá mulheres)

http://www.cartacapital.com.br/politica/bela-recatada-e-do-lar-materia-da-veja-e-tao-1792

(Bela, recatada e do lar: matéria da “Veja” é tão 1792)

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/04/160418_marydelpriore_entrevista_marcella_temer_np

(Crítica a “bela, recatada e do lar” é intolerante com o Brasil “invisível”, diz historiadora)

http://extra.globo.com/noticias/brasil/mulher-de-ministro-do-turismo-posa-em-frente-ao-congresso-sou-primeira-dama-mais-bonita-do-governo-19163977.html

(Mulher de ministro do turismo posa em frente ao congresso: “Sou a primeira-dama mais bonita do governo)

2. Mudanças de enquadramento nas notícias de economia no atual governo Temer:

Para ampliar um pouco mais o espectro de compreensão sobre a importância de discussão das moralidades e do papel dos meios de comunicação, seleciono abaixo as mudanças de enquadramento nas notícias de economia no atual governo Temer:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/05/dolar-alto-deixa-brasil-barato-para-estrangeiros-e-atrai-turistas.html

(Dólar alto deixa Brasil “barato” para estrangeiros e atrai turistas – 15/05/2016)

http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/09/entenda-os-efeitos-do-dolar-r-4-e-razoes-da-alta-da-moeda.html

(Entenda os efeitos do dólar a R$ 4 e as razões da alta da moeda – 22/09/2015)

http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/09/23/dolar-mais-alto-deixa-o-brasileiro-mais-pobre-veja-quem-ganha-e-quem-perde.htm

(Dólar mais alto deixa o brasileiro mais pobre; veja quem ganha e quem perde – 23/09/2015).

 

Referências Bibliográficas:

AUGUSTÍN, L. Trabajar em la indústria del sexo,2000. Acessado em: http://www.nodo50.org/mujeresred/laura_agustin-1.html.

_____________. Introduction to the cultural study of commercial sex. In: Sexualities, London, v. 10, nº 4, 2007, p. 403-407.

BERNSTEIN, E. Temporarily yours: intimacy, authenticity and the commerce of sex. London: Universityof Chicago Press, 2007.

BRAGA, J. Midiatização como processo interacional de referência. In: MÉDOLA, A; ARAÚJO, D; BRUNO, F. (orgs). Imagem, visibilidade e cultura midiática. Porto Alegre: Sulinas, 2007, p. 141-167.

__________. Interação como contexto da comunicação. In: Matrizes, ano 6, n° 1, 2012, p. 25-41.

BUTLER, J. Performative acts and gender constitution: an essay in phenomenology and feminist theory. In: TheatreJournal, v. 40, nº 4, 1988, p. 519-531.

__________. Cuerpos que importan: sobre los límites materiales y discursivos del “sexo”. Buenos Aires: Paidós, 2002.

__________. Undoinggender. New York-London: Routledge, 2004.

__________. El género en disputa: el feminismo y la subversión de la identidad. Barcelona: EdicionesPaidós Ibérica S.A., 2007.

RUBIN, G. Thinking sex: notes for a radical theory of the politics of sex. In: VANACE, C. (ed). Plesure and danger: exploring female sexuality.Boston: Routledg, 1985, p. 143-179.

SILVERSTONE, R. Regulation and the ethics of distance: distance and the ethics of regulation. In: MANSELL, R. et all. Networking knowledge for information societies: institutions and interventions. Netherlands: Delft University Press, 2002, pp. 279-285.

 

Notas do texto

 

[1]Inicialmente serão acessados os principais sites brasileiros que reúnem os perfis das camgirls (cameraprive.com, camerahot.com e sweetcam.com). As mulheres que comporão o corpus da investigação serão selecionadas por região: preferencialmente serão as alocadas em São Paulo; se necessário serão abarcadas as de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

[2]Essa asserção baseia-se nas obras de Judith Butler (2002, 2004).

[3]É preciso deixar claro que as camgirls são sujeitos submetidos também às apreciações sociais que são feitas aos indivíduos situados nos mercados do sexo, e que elas vão dialogar com as normatividades de gênero e sexualidade a partir desse lugar. Essa especificidade será abordada no trabalho de modo a edificar o contexto no qual as ações e os discursos são produzidos.

[4]É preciso destacar que a comunicação não é um processo pleno de garantias de efetivação; ao contrário, é contingente e tentativo, exigindo um esforço dos parceiros na interação social.

Prostituição de Luxo: Sexualidade, Trabalho e Sociabilidade na cidade de Belém-PA

por Tiago Luís Coelho Vaz Silva

 

 

Na atualidade, o advento da globalização e os avanços tecnológicos, sobretudo os relacionados à comunicação, acarretaram em profundas mudanças no modelo convencional em que a prostituição[1] costumava ocorrer. Originou-se uma crescente indústria do sexo que ultrapassa as fronteiras geográficas e na era digital oferece produtos e serviços pela rede mundial de computadores (internet), contribuindo profundamente para transformações e ressignificações nas noções de sexo e sexualidade, por exemplo.

A indústria do sexo movimenta milhões em dinheiro e cada vez mais atrai um número maior de pessoas dispostas a pagar bem por produtos e serviços, o que tem gerado um expressivo crescimento de profissionais envolvidos com o “trabalho sexual”[2](WEITZER, 2010). Dentro do cenário mais amplo da indústria do sexo, destaco aquilo que tem se chamado de “prostituição de luxo”: uma modalidade de prostituição praticada por pessoas de “fino trato”, que tem uma atenção especial com a beleza e boa aparência e, sobretudo, são seduzidas pelo luxo e glamour dos produtos que consomem, dos espaços que frequentam e dos ganhos econômicos e simbólicos que podem fazer inseridas neste meio (GUIMARÃES & BRUNS, 2008). Essas pessoas possuem entre 18 e 25 anos de idade, tem origem em classes média e alta, são escolarizadas (muitas frequentando, inclusive, cursos superiores) e costumam dizer para os familiares (quando ainda conseguem manter seu segredo) que atuam profissionalmente como modelos, manequins, no ramo de marketing e eventos, para justificar o estilo de vida que possuem (ABDALLAH& MENZ, 2013).

Este projeto tem a finalidade de desenvolver um estudo sobre a indústria do sexo em Belém, mais especificamente, uma das diferentes formas que a prostituição pode assumir: a prostituição de luxo.

Diante do exposto surgem algumas curiosidades epistemológicas que orientarão a investigação do estudo em pauta:

Sob quais eixos se constroem as feminilidades e as masculinidades, as noções de sexo e sexualidade entre as pessoas que vendem sexo na prostituição de luxo?Esta modalidade de prostituição surge como uma alternativa de autonomia ao modelo de subordinação imposto pela heteronormatividade à prostituição convencional (?),possibilitando uma experiência diferenciada com o sexo e com a sexualidadeao redefinir a prostituição como um encontro com o prazer, construído através de uma noção particular de autonomia e de liberdade.

Como se estabelece a negociação da intimidade nas relações afetivo-sexuais entre garotas/os de programa e seus companheiros/as? Afinal, a prostituição de luxo enquanto uma modalidade de trabalho sexual se insere no domínio da atividade econômica, mas que manifesta relações interpessoais intimistas através da prestação de serviços sexuais, o que pode gerar tensão na relação afetivo-sexual entre companheiros/as (até mesmo com clientes) diante a interseção entre as esferas do trabalho e da intimidade, e vice-versa.

Como lida com o estigma a pessoa que resolve se prostituir atraída pelo luxo e glamour da indústria do sexo? O fato de se prostituir por prazer acarreta em maior estigma para os envolvidos na prostituição de luxo, de quem a sociedade (principalmente, a família) poderia questionar com mais moralidade a escolha em se prostituir, já que não o fazem contra a sua vontade ou por circunstâncias do destino.

Deste modo, pretende-se apreender em que consiste esta modalidade de prostituição que tem se chamado de prostituição de luxo, compreendendo a trajetória individual e as práticas sociais daqueles que estão inseridos neste universo, a fim de problematizar o papel da sexualidade e do gênero nos processos de construção das subjetividades.

A perspectiva de abordagem sobre o fenômeno prostituição que apresentamos busca distanciar-se da apreensão da prostituição associada à pobreza, a infância traumática e a falta de oportunidade, que tendem a reproduzir a imagem das pessoas envolvidas no trabalho sexual com o estereotipo da prostituta sofrida(MARTIN, 2003)que só exerce esta atividade devido à coerção ou a miséria[3]. A perspectiva de que lançamos mão para compreender a prostituição de luxo em Belém se coaduna a estudos que tomam por base a teoria interacionista, ao enfatizarem os possíveis ganhos simbólicos de oferecer serviços sexuais em troca de pagamento, tais como: prazer sexual, festas, artigos de luxo, reconhecimento no mercado de desejos (FONSECA, 1996; GUIMARÃES & BRUNS, 2008; BARRETO, 2012; MENDONÇA, 2012).

As observações preliminares indicam a proeminência de três categorias analíticas para compreensãodo universo em que a prostituição de luxo se inscreve como possibilidade de encontro com o prazer: sexualidade, sociabilidade e consumo.

A possibilidade de exercer sua sexualidade com relativa segurança[4] e de forma mais livre ao relacionar-se com o número de parceiros que quiser, inclusive os selecionando, surge como uma alternativa de autonomia ao modelo de subordinação imposto pela heterossexualidade normativa à prostituição convencional (McCRACKEN, 2013). Isto permite que o eixo pelo qual garotas/os de programa desempenham sua sexualidade seja construído com base no prazer e não no estereótipo da necessidade, ao mesmo tempo em que se beneficiam de bens materiais e simbólicos em decorrência do que fazem.

A sociabilidade e o estilo de vida manifesto pelas pessoas inseridas na prostituição de luxo revelam nas/os garotas/os de programa uma atração particular por esta modalidade de prostituição, sendo envolvidas/os pelo luxo e glamour que a indústria do sexo pode oferecer através da suposta facilidade com que se tem acesso aos ambientes requintados, a sofisticação dos bens e artigos consumidos, e o dinheiro que se pode ganhar com este negócio.

As preocupações estéticas com o corpo, com o que vestir e usar (adereços relacionados ao mundo da moda), bem como o desejo em adquirir carros e imóveis constituem-se em mais um referencial no encontro com o prazer oportunizado pela prostituição de luxo. Este mercado da prostituição possibilita a garotas/os de programa uma maneira de ascender à sociedade de consumo, com todas as suas implicações ideológicas expressas em sonhos e ilusões.

Os contornos específicos que a prostituição de luxo assume na experiência de garotas/os de programa aumenta a probabilidade de gostarem do que fazem, o que é recorrente nos discursos das pessoas inseridas neste universo, redefinindo a noção de prostituição ao se constituir em possibilidade de alcançar o prazer através da tríade:  sexualidade, sociabilidade e consumo.

Pretende-se desenvolver um estudo com base na experiência etnográfica, através da observação participante, no intuito de fazer a imersão no domínio das relações face a face dos comportamentos e representações dos indivíduos inseridos na prostituição de luxo em Belém. Ao mesmo tempo, consideramos a necessidade de compreender as relações entre as estruturas mais gerais de como o mercado do sexo afeta a vidas das pessoas.

No que se refere ao público-alvo (interlocutores da pesquisa), não se pretende limitar a uma categoria de gênero e sexualidade, mas exploraras diferentes possibilidades que surgirem no contexto de pesquisa: mulheres, homens e transgêneros, heterossexuais, homossexuais, bissexuais e outras sexualidades que se apresentarem,sendo brancos/as, negros/as, mestiços/as, dentre outros; considerando as interseccionlidades entre gênero e raça, gênero e classe (BRAH, 2006).

Há cerca de dois anos, por intermédio de um amigo fui apresentado a uma garota de programa, acompanhante de luxo, com quem, em outros momentos, tive a oportunidade de conhecer previamente o fenômeno da prostituição de luxo em Belém. A partir de então, comecei a me interessas sobre o tema e passei a ter contatos eventuais com esta garota de programa (uma informante-chave), com finalidade estritamente acadêmica. Em outras oportunidades, fui apresentado por ela a mais três acompanhantes de luxo do seu circulo de relações[5], todas do sexo feminino, com quem conversei algumas vezes, mas que podem se estabelecer em informantes em potencial.

Outras possibilidades de aproximação e contato em busca de demais informantes serão feitos virtualmente através da internet com visitas a sites de agências ou blogs particulares de garotas/os de programas destinados à oferta de sexo, que se enquadrem no perfil estabelecido para o estudo[6]. Após estabelecer os contatos individuais com acompanhantes de luxo, buscarei identificar a existência de alguma rede de relações na qual possa expandir a quantidade de interlocutores, bem como participar e ter acesso de forma sistemática e permanente, ao longo do tempo de estudo, aos espaços onde ocorra a prostituição de luxo em Belém.

 

Para o debate

1) Para situar o debate sobre o Projeto de Lei n. 4211/2012, conhecido como projeto de Lei “Grabriela Leite”, que tem como objetivo regulamentar a atividade de profissionais do sexo. Explora, ainda, a relação entre o estigma da prostituição existente em nossa legislação.

– O Deputado Federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) Explica: – Lei Gabriela Leite (regulamentação da atividade das profissionais do sexo)

https://www.youtube.com/watch?v=yQcUFX3KI2Y

– Regulamentação das casas de prostituição: entenda o debate

http://revistaforum.com.br/digital/144/regulamentacao-das-casas-de-prostituicao-entenda-o-debate/

– Nem toda prostituta é Gabriela Leite: prostituição, feminismo e leis

http://blogueirasfeministas.com/2013/12/nem-toda-prostituta-e-gabriela-leite-prostituicao-feminismo-e-leis/

2) Para situar a reação conservadora de grupos religiososno debate sobre sexualidade e educação para as relações de gênero no contexto escolar.

– Discussão sobre ideologia de gênero nas escolas vira palco para espetáculo de preconceito na Câmara de Campinas (SP) (VÍDEOS)

http://www.brasilpost.com.br/2015/06/02/ideologia-de-genero-escolas_n_7492546.html

– Polêmica sobre questões de gênero pode deixar alunos do Recife sem livros

http://www.brasilpost.com.br/2016/03/27/polemica-genero-recife_n_9553134.html

Não é ‘ideologia de gênero’, é educação e deve ser discutido nas escolas, diz pesquisadorahttp://www.brasilpost.com.br/2016/03/25/preconceito-lgbt-escola_n_9546374.html

3) Para situar sobre a atual conjuntura de mudança de governo Dilma-Temer e a ameaça a direitos de minorias de gênero. Na segunda matéria, percebe-se a tentativa de mascarar a política de ausência de mulheres a frente dos Ministérios, que mesmo nos anos de ditadura militar teve mulheres ocupando cargos no primeiro escalão do governo.

– Há muito a Temer: o novo governo e os direitos LGBT

http://www.revistaforum.com.br/osentendidos/2016/05/12/ha-muito-temer-o-novo-governo-e-os-direitos-lgbt/

– Cultura vai para secretaria ligada à Presidência sem status de ministério e titular será mulher.

http://oglobo.globo.com/brasil/cultura-vai-para-secretaria-ligada-presidencia-sem-status-de-ministerio-titular-sera-mulher-19308355

 

Notas ao texto

[1]São muitas as definições que foram dando forma ao longo dos séculos a noção de prostituição, mas basicamente ela pode ser definida como a concessão de favores sexuais em troca de remuneração financeira. Em quase todas as definições sobre prostituição há a presença de dois elementos marcantes: sexo e dinheiro. No entanto, se faz necessário indicar outros dois elementos, bastante recorrentes nas definições, que ajudam a caracterizar a troca desses favores como prostituição: a frequência dos atos sexuais e; um número de pessoas com as quais se manifesta a troca de tais serviços.

[2]Designamos aqui de trabalho sexual todas as profissões que prestam serviços sexuais especializados.

[3] Ao contrário de estudos que focam sua análise na venda de sexo como necessidade econômica, a presente pesquisa pretende adentrar em um universo da prostituição onde a venda de sexo assume outras dimensões: em que pessoas alegam ter escolhido por vontade própria se prostituir e o fazem por prazer; e não por serem vítimas de situações que as tenham forçado a essa escolha, mas por terem sido atraídas pelo luxo e glamour da indústria do sexo, sem haver diretamente qualquer relação com a satisfação de necessidades materiais básicas a sobrevivência.

[4] Diferente da prostituição de rua, considerada uma das formas mais perigosas de trabalho sexual, as pessoas que vendem seu corpo na prostituição de luxo trabalham com relativa segurança (em clubes ou não), podendo selecionar os seus clientes e estabelecer as fronteiras na qual será desenvolvida a relação, o que pressupõe maior controle sobre o seu corpo e sobre a situação de modo geral (McCRACKEN, 2013; WEITZER, 2010).

[5]As pessoas envolvidas na prostituição de luxo não se constituem como grupo, o que dificulta o acesso aos interlocutores e a própria inserção em redes de relações quando elas se estabelecem. A possibilidade de rede de relações ocorrer quando garotas/os de programa são contratadas/os para prestarem serviços sexuais em dupla; ou contratadas/os para uma private social em um clube, casa noturna ou mesmo na residência de algum cliente. Porém, sem garantia alguma que estabelecerão qualquer tipo de interação social para além daquele momento e do serviço para qual foram contratadas/os, a não ser que já possuam relações sociais prévias – o que é mais comum para as/os que prestam serviços sexuais em dupla, pois utilizam isto como estratégia para conquistar clientes.

[6]Em pesquisa prévia na internet identificou-se dez sites relacionados ao tema para o contexto de Belém. Os termos usados para a busca foram: “prostituição de luxo”, “acompanhantes de luxo”, “acompanhantes Vips”. Observamos que houve a recorrênciada maioria entre os dez sites para os termos de busca empregados. Contudo, até o presente momento em que o estudo se encontra, não foram estabelecidos critérios para o que considerar como dentro do perfil do objeto, tampouco a triagem destes mesmos sites.

 

Referências

 ABDALLAH, Ariane & MENZ, Juliana. Garotas de programa de luxo. In: revistatpm.com.br. Publicado em 03 de junho de 2010. Disponível em http://revistatpm.uol.com.br/revista/99/reportagens/garotas-de-programa-de-luxo.html. Capturado em 30 de outubro de 2013.

BARRETO, Victor Hugo de Souza. Vamos fazer uma sacanagem gostosa? Uma etnografia do desejo e das práticas da prostituição masculina carioca. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense. Niterói, RJ, 2012.

BRAH, Avtar. Diferença, diversidade, diferenciação. Cadernos Pagu (26), pp. 329-376, 2006.

FONSECA, Cláudia. A dupla carreira da mulher prostituta. Estudos Feministas, Ano 4, n. 1, 1º semestre, 1996, p. 7-33.

GUIMARÃES, Roberto Mendes & BRUNS, Maria Alves de Toledo. Prostituição de Luxo: a vivência sexual das profissionais do sexo. In: Fazendo Gênero 8 – Corpo Violência e Poder. Florianópolis, SC, 2008.

MARTIN, D. Riscos na prostituição: um olhar antropológico. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP: Fapesp, 2003.

McCRACKEN, Jill. Street Sex Worker’sDiscourse:Realizing Material ChangeThroughAgentialChoice. New York: Routledge, 2013.

MENDONÇA, Silvia Beatriz. Prostituição, prazer e a construção do feminino. Trabalho Apresentado na 28º Reunião Brasileira de Antropologia. São Paulo: SP, 2012.

WEITZER, Ronald. Sex For Sale:Prostitution, Pornography, andthe Sex Industry. New York: Routledge. 2nd Edition, 2010.

ZELIZER, Viviana A. A negociação da intimidade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011. (Coleção Sociologia).