Formando suspeitos: Como os policiais de São Paulo e Chicago são ensinados a identificar potenciais criminosos

 

por Thomas Machado Monteiro

O presente projeto possui como foco a observação e análise de dois cursos de formação policial nas cidades de São Paulo e Chicago, a fim de compreender como os profissionais em formação são ensinados – cada qual em seu contexto – a discernir, identificar e tratar potenciais suspeitos. Para tanto, a pesquisa pretende analisar – sob um viés etnográfico e, secundariamente, historiográfico – a didática aplicada pelos professores em sala de aula, os materiais utilizados nestes cursos, as práticas de treinamento corporal, a técnica relacionada ao preenchimento de formulários e às práticas forenses, além de avaliar atitudes verbalizadas pelos policiais através de entrevistas.

Os cursos escolhidos para análise serão cursos de formação básica policial, em São Paulo chamado de CFSD (Curso de Formação de Soldados), e em Chicago no curso básico de da Divisão de Educação e Treinamento da Polícia de Chicago, pois são nestes cursos que os policiais em formação recebem, pela primeira vez, aulas a respeito de sua futura atuação nas ruas das cidades.

A partir deste escopo, busca-se inicialmente discutir três questões centrais ao presente trabalho: 1- O atual processo de formação policial nas cidades em questão contribui para uma visão étnica e territorialmente segmentada dos policiais em relação ao perfil imaginado do criminoso? 2- Existem práticas policiais e forenses ensinadas nestes cursos que seriam ainda tributárias das teorias racializadas que foram proeminentes na própria gênese destas corporações policiais? 3- No contexto das desigualdades étnicas e raciais, a polícia age de maneira mimética às dinâmicas de exclusão e segregação presentes na sociedade, ou ela pode ser vista também como agente criadora de novas dinâmicas de exclusão a partir de sua atuação como grupo representativo do poder do estado na sociedade?

Outra questão de grande importância é o estudo das técnicas forenses utilizadas por estas polícias nos dias atuais. Como nota Joseph Pugliese[1] – em trabalho sobre o Reino Unido, Austrália e Estados Unidos -, o regime visual que informa os desenhos do corpo padrão na patologia forense é baseado em uma concepção de corpo caucasiano, seguindo a tradição representativa do corpo grego/renascentista. Neste sentido, segundo ele, a genealogia de uma iconografia racializada continua a formar as bases da representação visual do corpo nos desenhos forenses. Como tanto a medicina forense e a identificação de potenciais suspeitos são regimes baseados em economias visuais, a análise de como estes saberes e técnicas são ensinados nas academias de polícia em foco na presente pesquisa tornam-se complementares.

Racial profiling – filtragem racial

Embora o tema da formação policial ainda não tenha sido objeto de estudos mais aprofundados, sua importância já foi reconhecida por importantes estudiosos como Didier Fassin, que notou a importância adquirida pelos cursos policiais nas relações desiguais da polícia com diferentes setores locais da população. Ele afirma que o primeiro local em que estes policiais recém-formados irão trabalhar será nos bairros mais pobres, onde residem as comunidades negras e imigrantes”[2].

Nos últimos anos, entretanto, estudos acerca do chamado “Racial profiling” (que procuram quantificar e analisar as desigualdades em relação à atuação policial tendo como chave diferenças raciais) têm se tornado cada vez mais frequentes nas ciências sociais e na economia[3]. Inicialmente podemos apontar duas causas para o crescimento recente desta temática nos EUA: 1- um movimento de institucionalização deste debate promovido pelo governo Obama que, por sua vez, surge como reação a técnicas modernizadoras de compilação de perfis de potenciais suspeitos a partir do banco de dados de crimes solucionados (técnicas que ganharam centralidade nas práticas policiais norte-americanas ao final da década de 1990 em diante); 2- os icônicos episódios de violência policial contra os jovens negros Michael Brown e Travyon Martin – ambos mortos pela polícia estando desarmados e não oferecendo resistência. Nesse contexto, a administração do Presidente Barack Obama em 2014 passou uma série de leis tornando o “racial profiling” ilegal no exercício das polícias daquele país. O parágrafo 1- a. da lei – dirigida unicamente a profissionais da lei, dentro de todo o território norte-americano afirma: suspect description. This prohibition applies even where the use of a listed characteristic might otherwise be lawful”[4].

No Brasil, ainda que mais recente, a temática vem ganhando espaço nas ciências sociais sob o termo “filtragem racial”[5] e também apresenta relevância (ainda que menor) na formação de políticas públicas. Em 2014, um estudo organizado pelo Ministério da Justiça do Brasil, assinado pela Presidenta Dilma Rousseff e pelo Ministro da Justiça José Eduardo Cardoso, intitulado “Pensando a Segurança Pública”[6] traz dois capítulos discutindo a questão da “filtragem racial” e a importância da implementação de políticas públicas que repensem a atuação das polícias ao redor do Brasil sobre esse tema.

A presente pesquisa, no entanto, acredita que o modelo de estudos do “racial profiling” não pode ser utilizado para entender de maneira aprofundada o caso brasileiro – mais especificamente o de São Paulo. Se tratando da questão de identificação de suspeitos e vítimas – o que por sua vez pressupõe uma utilização ativa da noção do policial em relação às múltiplas identidades constantemente negociadas nos corpos e ambiente das cidades em questão – diversos temas perpassam essa discussão, tais como: territorialidade da violência policial; segmentação da violência por classe social, origem étnica, idade e sexo; grau de escolaridade dos suspeitos; identificação por vestimentas; comportamento; etc…

Em outras palavras, como afirmam os autores de “Quem é o suspeito do crime de tráfico de drogas”, não existe uma visão monolítica do suspeito, ao contrário, encontram-se diferentes modos de construir as noções que se agrupam em torno dessa palavra. “As tipificações construídas acerca do suspeito estão articuladas em torno da dicotomia suspeito e não-suspeito em relação dialética, ou seja, a não suspeição pressupõe um sentido e conteúdo para a suspeição”[7]. Nesse sentido, abre-se todo um campo de discussão acerca da não-suspeição como tema central para o entendimento dessa questão.

Alguns dados interessantes para a discussão

Nota-se que todos os dados apresentados nesse projeto de pesquisa deverão passar por uma discussão aprofundada para sua plena utilização na pesquisa. Pelo fato de constituírem dados de potencial utilidade política, suas metodologias podem se mostrar enviesadas para beneficiar os detentores destes dados.

Os índices de letalidade na comparação das duas polícias (São Paulo e Chicago) são bastante distintos, porém eles representam alguns dos maiores em seus respectivos contextos nacionais. Entre os anos de 2010 e 2014, a Polícia Municipal de Chicago registrou o maior número absoluto de mortes causadas por ação policial nos EUA – nota-se que a cidade de Nova York não forneceu dados nestes anos – totalizando 70 ações fatais[8]. Apenas no primeiro semestre de 2015, as Polícias do estado de São Paulo (Civil e Militar) mataram em serviço 80 pessoas na capital e outras 358 no estado[9].

Ainda que estas duas polícias possuam constituições históricas e ideológicas bastante distintas entre si – além de estarem em sociedades nas quais a questão racial possui lógicas igualmente distintas. No entanto, pode-se traçar paralelos acerca destes perfis. Por exemplo, entre 2009 e 2011, os mortos pela PM de São Paulo eram 97% homens e 61% negros ou pardos[10]. Em Chicago, no ano de 2010, por exemplo, 93% dos mortos pela Polícia eram homens e 73,9% eram negros[11]. Segundo dados dos respectivos censos em 2010, 34,6% dos habitantes do Estado de São Paulo eram negros ou pardos e 63% brancos[12]; em Chicago, 32% eram negros, 45,3% brancos e 28% hispânicos (lembrando que uma pessoa pode ser ao mesmo tempo hispânica e pertencente a algumas das outras raças)[13].

Enquanto a demografia racial dos mortos pela polícia em ambas as cidades se mostra desproporcionais à população, sendo mais incidente sobre os negros, o perfil racial dos departamentos de Polícia se mostra igualmente desproporcional em relação aos brancos; em Chicago, 55% dos policiais são brancos e 26% negros, sendo 18% hispânicos. Entre os policiais que participaram de ações resultadas em mortes em São Paulo, 79% se dizem brancos, enquanto apenas 20% se dizem negros ou pardos[14].

Outro dado relativo a letalidade policial nestas duas cidades, indicando uma semelhança na lógica da atuação destas polícias é a disposição territorial das mortes causadas por policias. Dos mortos pela polícia de Chicago entre 2010 e 2014, 59% estavam nos distritos de Calumet, Deering, Englewood, Grand Crossing, Gresham ou Morgan Park, bairros historicamente habitados por comunidades afro-americanas e situados na periferia da cidade[15]. Em São Paulo, um terço das mortes causadas por policiais ocorreram em 10 dos 93 distritos da cidade – todos estes situados na periferia da capital. Paralelamente, 21 dos distritos policiais situados próximos ao centro não reportaram nenhuma morte por policiais.[16]

Em pesquisa realizada com alunos e graduados nos cursos de formação de Soldados (CFSD) e Oficiais (CFO) da Polícia de Pernambuco, Geová da Silva Barros, mostra que 76,4% dos alunos de CFO e 74% dos de CFSD percebem que os pardos ou negros são priorizados nas abordagens; entre os policiais formados esse número é um pouco menor, totalizando 65,1%[17]. Em Chicago, segundo dados da American Civil Liberties Union (ACLU), 72% das abordagens policiais a carros (vehicle stops) foram a motoristas negros – sendo estes apenas 32% da população.

 

Referencias para refletir sobre a conjuntura de Ruptura

(Fechamento dos Ministérios, especialmente o da Igualdade Racial e o dos Direitos Humanos)
(Secretário de Segurança Pública de São Paulo é o novo Ministro da Justiça e Cidadania)
(Secretaria de Segurança Pública de São Paulo já firma novos convênios com o Ministério da Justiça e Cidadania)
(Temer já foi Secretário de Segurança Pública em São Paulo, em 1984 – como foi sua gestão?)
(Algumas questões voltam a discussão no âmbito da segurança pública no governo Temer, tais como: Estatuto do desarmamento, redução da maioridade penal, PEC 215 e estatuto do nascituro)
(Temer extingue a Controladoria Geral da União)

Notas do texto

[1] PUGLIESE, Joseph: “Demonstrative evidence”: A genealogy of the racial iconography art and illustration”, Conferência apresentada na Association for the Study of Law, Culture, and the Humanities Conference, Cardozo Law School, New York University, New York, USA, Março de 2003.

[2] Op. Cit. FASSIN, Didier: “Enforcing Order: An ethnography…”, p. VI

[3] Entre eles: ALEXANDER, Michelle: The New Jim Crow: Mass Incarceration in the Age of Colorblindness”, 2012, The New Press, New York, NY; GLASER, Jack “Suspect race: Causes and consequences of racial profiling”, 2014, Oxford University Press, Oxford, UK; WITHROW, Brian L.: “Racial Profiling: From Rhetoric to Reason”, 2005, Prentice Hall, New Jersey, NJ; RUSSEL-BROWN, Katheryn: “The color of Crime”, 2a edição, 2009, New York University Press, New York, NY; GLOVER, Karen S.: “Racial Profiling: Research, Racism, and Resistance”, 2008, Rowman and Littlefield Publishers, New York, NY; entre diversos outros – tanto na áreas das Ciencias Sociais como na área do Direito

[4] U.S.A Department of Justice: GUIDANCE FOR FEDERAL LAW ENFORCEMENT AGENCIES REGARDING THE USE OF RACE, ETHNICITY, GENDER, NATIONAL ORIGIN, RELIGION, SEXUAL ORIENTATION, OR GENDER IDENTITY – documento oficial assinado pelo Presidente Barack Obama, dezembro de 2014, disponível online em: http://www.justice.gov/sites/default/files/ag/pages/attachments/2014/12/08/use-of-race-policy.pdf, acessado pela última vez dia 05/10/2015

[5] Entre eles: RAMOS, Silvia e MUSUMECI, Leonarda: “Elemento suspeito: Abordagem policial e discriminação na cidade do Rio de Janeiro, 2005, Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro; SILVA, Nelson do Valle. Educação e diferenças raciais na mobilidade ocupacional no Brasil. In: HASENBALG, Carlos Alfredo; SILVA, Nelson do Valle; LIMA, Márcia (Orgs). Cor e estratificação social. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 1999; MONJARDET, Dominique. O que faz a polícia: sociologia da força pública. Tradução de: Mary Amazonas Leite de Barros. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2003; PAIXÃO, Marcelo. Antropofagia e racismo: uma crítica ao modelo brasileiro de relações raciais. In: RAMOS, Sílvia; MUSUMECI, Leonarda. Elemento suspeito: abordagem policial e discriminação na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005; SCHWARCZ, Lilia Moritz. Racismo no Brasil. São Paulo: Publifolha, 2001

[6] LIMA, Cristiane do Socorro Loureiro, BAPTISTA, Gustava Camilo e FIGUEIREDO, Isabel Seixas (Org.): “Pensando a segurança pública: Segurança pública e direitos humanos”, 2014, Ministério da Justiça do Brasil, Brasília, DF

[7] DUARTE, Evandro C. Pìza; MURARO, Mariel; LACERDA, Marina e GARCIA, Rafael de Deus: “Quem é suspeito do crime de tráfico de drogas? Anotações sobre a dinâmica dos preconceitos raciais e sociais na definição das condutas de usuário e traficante pelos policiais nas cidades de Brasília, Curitiba e Salvador” em op cit. LIMA, Cristiane do Socorro Loureiro, BAPTISTA, Gustavo Camilo e FIGUEIREDO, Isabel Seixas (Org.): “Pensando a segurança pública …” p. 84

[8] Ver: dados oficiais da Polícia Metropolitana de Chicago, disponíveis em: http://www.iprachicago.org/officer%20involved%20shootings_2010.pdf, http://www.iprachicago.org/officer%20involved%20shootings_2011.pdf, http://www.iprachicago.org/officer%20involved%20shootings_2012.pdf,

http://www.iprachicago.org/officer%20involved%20shootings_2013.pdf,

http://www.iprachicago.org/officer%20involved%20shootings_2014.pdf,

Acessados pela última vez 30/09/2015

Compilação em relação aos dados de outras capitais:

http://www.bettergov.org/fatal_shootings_by_chicago_police_tops_among_biggest_us_cities/, acessado pela última vez 30/09/2015

[9] Fonte: Folha de São Paulo – disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/08/1669572-numero-de-mortos-em-confronto-com-policiais-e-o-maior-em-dez-anos-em-sp.shtml, acessado pela última vez 30/09/2015

[10] SINHORELO, Jacqueline; SILVESTRE, Giano e SCHILITER, Maria Carolina: “Sumário Executivo: Desigualdade Racial e Segurança pública em São Paulo” pp. 10 – 14, 2014, publicado Online em: http://www.ufscar.br/gevac/wp-content/uploads/Sum%C3%A1rio-Executivo_FINAL_01.04.2014.pdf, acessado pela última vez dia 05/10/2015

[11] Dados oficiais da Polícia Metropolitana de Chicago, disponíveis em: http://www.iprachicago.org/officer%20involved%20shootings_2010.pdf, acessado pela última vez em 30/09/2015

[12] Portal das estatísticas do Estado de São Paulo: http://produtos.seade.gov.br/produtos/retratosdesp/view/index.php?indId=5&temaId=1&locId=1000, acessado pela última vez em 30/09/2015

[13] Departamento de Senso dos EUA, disponível em: http://2010.census.gov/2010census/about/timeline-text.php, acessado pela última vez em 30/09/2015

[14] Op. Cit, SINHORELO, Jacqueline; SILVESTRE, Giano e SCHILITER, Maria Carolina: “Sumário Executivo: …”

[15] Dados compilados pela ONG Better Government Association: disponível em: http://www.bettergov.org/fatal_shootings_by_chicago_police_tops_among_biggest_us_cities/, acessado pela última vez em 30/09/2015

[16] RIBEIRO, Bruno e RESK, Felipe: “Dez bairros concentram 1/3 ds mortes por policiais em São Paulo”, 23/03/2015, publicado na Revista Exame; disponível em: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/dez-bairros-concentram-1-3-das-mortes-por-policiais-em-sp, acessado pela última vez dia 03/10/2015

[17] BARROS, Geová da Silva. Racismo institucional: a cor da pele como principal fator de suspeição..Dissertação (Mestrado em Ciência Política). Recife, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco, 2006, pp. 95-100

Anúncios

Dez anos do Decreto 4887: dos efeitos de uma política de reconhecimento sobre o campo acadêmico (I)

José Maurício Arruti

Na elaboração de um balanço dos dez anos do artigo 4887 não poderia ficar de fora uma reflexão, mesmo que sucinta, sobre os efeitos desta política de reconhecimento sobre o próprio campo acadêmico. Tema que nos remete ao terreno crítico da relação entre produção científica e produção política, entre formação dos campos e problemas científicos e a formação da Nação, que coloca a em cheque a confortável crença na distância suposta entre classificações sociais, conceitos científicos e categoriais jurídico-administrativas. Todos problemas para os quais o tema do reconhecimento das comunidades quilombolas no Brasil (mas também no resto da América Latina sob outras designações) nos servem de matéria prima excepcional; e nos quais vale a pena inserir o nosso balanço sobre os 25 anos do artigo 68 e os dez anos do decreto 4887.

Para ampliar um pouco o contexto temporal a que nos referimos, vale lembrar rapidamente que os primeiros estudos antropológicos nomeadamente sobre comunidades negras rurais tiveram início na década de 1980: alguns surgidos isoladamente e referidos a questões muito variadas, mas outros com origem em um mesmo grupo de pesquisa, da USP, unificado em torno do uso do conceito de “etnicidade”.

Parte desta primeira produção estava já motivada pelos debates levantados pela categoria quilombos, mas não no mesmo sentido adotado hoje. Pelo contrário, ela polemizava com a tendência em projetar sobre as chamadas comunidades negras rurais aquilo que, neste momento, era apenas uma representação metafórica do quilombo histórico, largamente inspirada no programa político esboçado por Abdias do Nascimento por meio da expressão “quilombismo”. A produção antropológica polemizava, portanto, com a tendência, predominante no movimento negro, mas que também remetia a certa tradição culturalista, presente nos trabalhos sobre população negra no Brasil, de se buscar pela “africanidade” destes grupos, tomadas como única fonte de valor e sentido das suas manifestações culturais e formas de organização social.

Esta polêmica sofreu uma drástica revisão depois do ano de 1988 e, mais especificamente, depois do ano de 1995. Tendo deixado de ser pura metáfora política para tornar-se categoria de reconhecimento político e ferramenta de atribuição de direitos, o uso da categoria quilombo seria revisitada e revisada pelos antropólogos. A partir de então, um número crescente de estudos vêm sendo realizados em todo o país, na sua maior parte por encomenda governamental, tendo em vista os processos de regularização fundiária de tais comunidades.

Uma parte destes “trabalhos por encomenda” está sendo convertida em trabalhos plenamente acadêmicos, que nos permitem extrapolar as abordagens operacionais, para propormos questões mais amplas, em diálogo com os problemas típicos do campo antropológico, historiográfico ou sociológico. Ainda assim, em geral, tais trabalhos guardam a marca distintiva de referirem-se a comunidades negras rurais e, até mesmo, ao problema da configuração e da constituição de comunidades quilombolas.

Disso resulta a formação do que poderíamos sugerir constituir um novo ‘campo’ de estudos, que ainda busca tanto o justo enquadramento do seu objeto conforme as problemáticas do campo teórico ao qual escolhe afiliar-se, quanto a produção de temas, recortes e objetos teóricos próprios, resultado da distintividade de seus objetos empíricos. Apesar da forma cambiante e relativamente fragmentária por meio da qual este campo de estudos vem se organizando, já é possível – e desejável – propor algumas avaliações preliminares. Assumindo uma perspectiva francamente impressionista, oferecida aqui com o objetivo de promover o debate, é possível apontar três características ou particularidades desse campo novo.

Ele tem mobilizado, em sua maior parte, pesquisadores periféricos ou em início de carreira: isso ocorre em função desta espécie de lei geral do fluxo de capitais acadêmicos, que torna menos provável que um investidor consolidado em seu campo de investimentos reverta seus capitais para uma área nova, pouco consolidada, como pouca legitimidade no campo acadêmico em geral e de retorno incerto, isto é, um investimento de risco.

Este campo de estudos ainda está profundamente marcado pelos constrangimentos impostos pelas demandas oficiais que lhe deram origem: ainda que sejam revertidos em trabalhos plenamente acadêmicos, a sua proximidade temporal e interpretativa com as ações (políticas, administrativas e jurídicas, quase sempre ainda em aberto e em torno das quais se mantém a luta por classificações e interpretações) vividas pelas comunidades a que se referem implica uma condicionante do arco interpretativo a princípio disponível. Esse efeito imediatamente prático do trabalho acadêmico impede, por exemplo, que uma revisão rigorosa dos laudos produzidos sobre um determinado estado ou região possa ser encarado com a mesma abertura crítica que se espera de outras revisões bibliográficas.

Finalmente, uma terceira característica deste novo campo é o modo e a velocidade pelos quais ele vem se institucionalizando. Para compreender esta terceira característica, porém, é preciso fazer um breve parêntesis sobre o vai-e-vem do processo de institucionalização da “questão” quilombola enquanto matéria de política de reconhecimento e de políticas públicas no interior do Estado brasileiro. Esta vai-e-vem normativo, produto de uma ambiguidade ideológica fundamental da sociedade brasileira diante do tema da diversidade, e produtor de uma insegurança jurídica dramática para as comunidades quilombolas pode ser resumido em três ou quatro etapas.

Entre 1995 e 2001, o artigo 68 (ADCT-CF88) estaria, de um lado, submetido a uma série de debates sobre sua auto-aplicabilidade e sobre os termos a partir dos quais ele deveria ser regulamentado, enquanto, de outro lado, alguns institutos de terras estaduais (em especial os do Pará, Maranhão e São Paulo) produziriam as primeiras ações sistemáticas de identificação e titulação de comunidades quilombolas situadas em áreas devolutas – portanto, dos seus respectivos estados.

Em 2001, porém, tal dinâmica seria interrompida com a publicação do Decreto 3912/01, que estabelecia regras nacionais para o reconhecimento dessas comunidades, tornando-o matéria exclusiva da Fundação Cultural Palmares e criando novos critérios para o reconhecimento dessas comunidades, que de fato inviabilizaram novos reconhecimentos. Além disso, a Casa Civil da Presidência da República publicou, simultaneamente ao decreto, uma interpretação sobre ele que ameaçava com ações de improbidade administrativa os institutos de terras que dessem continuidade aos seus trabalhos neste campo.

As ações de reconhecimento seriam retomadas logo depois da sucessão presidencial de 2003, com a publicação do Decreto 4887/03, que anulava o de 2001 e estabelecia novas regras para o reconhecimento das comunidades quilombolas, incorporando em grande medida os debates que vinham sendo travados pela sociedade civil sobre o tema. Para que este decreto começasse a produzir efeitos, porém, era necessário traduzi-lo em um novo conjunto de normativas internas ao Incra, órgão que passava a ser o responsável pela identificação, delimitação e titulação dos territórios quilombolas. Isso deu lugar a uma longa disputa por definições, materializada na publicação de sucessivas Instruções Normativas, que só chegariam a um texto relativamente estável, ainda que desfavorável à ampliação e celeridade dos processos de reconhecimento, em 2006.

Feito tal parêntesis, é possível retomar a terceira característica do campo de estudos em formação sobre comunidades quilombolas, relativa ao modo e à velocidade pelos quais ele vem se institucionalizando.

No primeiro momento a que fizemos referência (1995-2001), essa nova etapa na produção de trabalhos sobre comunidades negras rurais ou quilombolas foi marcado por um ritmo variável e incerto. Com exceção dos Núcleos e Laboratórios que já trabalhavam sobre temas afins e, por isso, já tinham uma agenda que incluía pesquisas sobre essas comunidades (em especial o NUER/UFSC e o NAEA/UFPA), a produção tendeu a acompanhar o ritmo pelo qual a Fundação Cultural Palmares ou os Institutos de Terras estaduais responderam às demandas do movimento quilombola, cuja força de articulação sempre foi muito desigual entre as diferentes regiões do país. Enquanto a FCP contratava laudos para comunidades selecionadas de uma lista nacional mais evidente, os institutos de terra de São Paulo, Pará e Maranhão assumiam destaque na produção de repertórios localizados de estudos, em associação com universidade federais (UFPA), com organizações da sociedade civil (Projeto Vida de Negro/MA) ou por contratação ad hoc (SP).

Assim, o que observamos é a política de reconhecimento das comunidades quilombolas impactando tanto sobre a direção e o sentido dado aos trabalhos desenvolvidos em grupos de pesquisa sobre a temática do “negro” já existentes quando promovendo pesquisas novas, que engajarão pesquisadores de diferentes instituições universitárias, de organizações da sociedade civil e mesmo de grupos de pesquisa já constituídos, mas cujo foco não eram as comunidades negras. É esta relação que sofre uma interrupção no período 2001-2003. Ainda que curta do ponto de vista do tempo da produção acadêmica, penso que ela tenha operado como um freio aos processos de institucionalização das pesquisas novas promovidas pelas demandas oficiais.

O decreto de 2003 teria também, assim, o seu efeito sobre o próprio campo acadêmico, ao permitir a retomada da encomenda oficial de pesquisas destinadas ao reconhecimento desses grupos, dando origem, desta forma, a pesquisas e debates que seriam apropriados na elaboração de trabalhos propriamente acadêmicos, isto é, sob a forma de dissertações, teses e artigos científicos. Como foi dito logo acima, tal retomada só se efetivaria depois de 2006, em função das disputas em torno da edição das Instruções Normativas internas ao Incra. Mas, superada esta etapa, o órgão daria início à produção dos Relatórios Técnicos de Identificação e Delimitação (RTID) dos territórios das comunidades quilombolas, nos quais o chamado Relatório Antropológico tem um lugar central.

Assim, a produção de pesquisas antropológicas de caráter monográfico e pautadas por um rol estrito de questões empíricas a serem observadas ganha extensão efetivamente nacional, ainda que as listas de prioridades na produção desses estudos continuem sendo definidas, em geral, por critérios estabelecidos pelas Superintendências estaduais do Incra em resposta à capacidade de pressão dos movimentos quilombolas locais. Como o caminho que se apresentou, de forma aparentemente lógica, para dar conta dessas demandas por relatórios antropológicos foi firmar convênios com as universidades, o avanço na promoção da política de reconhecimento resultou no esboço de diversos grupos de pesquisa em universidades de quase todo o país.

No parágrafo acima eu enfatizei o caráter apenas aparentemente lógico da escolha feita pelo Incra em promover convênios com as universidades por ao menos três razões. Em primeiro lugar porque tal lógica não é abstrata, mas marcada pelo precedente dos estudos antropológicos realizados pela Funai, destinados à demarcação de Terras Indígenas, de onde porém, a experiência não é transposta de modo exato, estando assim submetida a questionamentos sobre os quais falaremos adiante. Em segundo lugar, porque parte dos estudos realizados anteriormente haviam sido realizados por organizações da sociedade civil, em geral aquelas ligadas à defesa ou promoção dos direitos humanos ou à assessoria dos movimentos sociais – algumas vezes, em função da falta de espaço nas universidades para os trabalhos de extensão, a escolha dos pesquisadores nas universidades foi determinada justamente pela participação destes em tais organizações. Finalmente, porque as novas exigências impostas ao órgão fazem com que – novamente repetindo a Funai – o Incra passe a contratar antropólogos especificamente para lidar com o tema dos quilombos, mas cuja função específica oscila entre a produção dos relatórios exigidos ou a coordenação dos RTID, o que inclui não a produção, mas a supervisão dos relatórios antropológicos. Tema delicado por estar repleto de detalhes e consequências para o tema que nos ocupa aqui – do impacto das políticas de reconhecimento sobre o campo acadêmico – e que justamente por isso ultrapassa os limites destas notas.

Independentemente dessas questões, a demanda oficial canalizada para as universidades acabou promovendo o surgimento de um número expressivo de trabalhos monográficos de pequeno porte e marcados por uma série de restrições (principalmente de tempo, objetivos e linguagem) sobre comunidades negras por todo o país. Rapidamente comparável ao volume disponível para outros campos de estudos mais antigos e estruturados, esta produção impulsionou a constituição de grupos de pesquisa em diversas dessas universidades, como um modo característico dos acadêmicos responderem ao desafio posto. De fato, para realizar um grande volume de relatórios sobre um tema novo, ao qual faltava apoio bibliográfico extenso, tradição interpretativa ou metodológica estabelecida, assim como autores consagrados, exigia um esforço que tem mais chances de ser bem respondido por meio do trabalho coletivo e da promoção do diálogo horizontalizado. Em um efeito em cascata, surgem também os Grupos de Trabalho nas reuniões científicas especificamente vinculados ao tema, as primeiras publicações coletivas, e de teses e dissertações que ampliam o repertório de referências em torno do tema específico das comunidades quilombolas.

Mas é preciso cuidado para não exagerar. Apesar do circulo virtuoso assim formado, a velocidade pela qual se deu este processo ainda não permitiu a constituição de ‘campo’ de estudos quilombolas como pode ser identificado para o caso de áreas mais antigas, como da etnologia indígena ou do campesinato e mundo rural. Ainda falta o tempo necessário à maturação dos debates abertos, das leituras recíprocas proporcionadas pelos encontros disponíveis em nosso calendário acadêmico. Nem mesmo há consenso que seja pertinente centrar a formação de uma área de pesquisa centrada neste novo sujeito social, ainda tão questionado nos campos político e jurídico – questionamentos que, como se vê, também impactam o campo acadêmico.

Apesar dessas fragilidades, recentemente a luta política em torno dos direitos quilombolas – mais uma vez travestida de questão técnica – retomou o movimento de vai-e-vem a que nos referimos, agora novamente em um sentido negativo, de recuo nos ganhos alcançados. A relação estabelecida entre as demandas oficiais por relatórios antropológicos e a constituição de grupos de estudo e pesquisa no interior das universidades foi interrompida pela adoção, a partir de 2011, do chamado Pregão Eletrônico, como ferramenta de contratação dos relatórios antropológicos e produção dos RTID. Perto do fim do período dos dez anos do decreto 4887/03, uma nova reviravolta na normatização do reconhecimento das comunidades quilombolas não apenas tem efeito sobre a organização desse campo de estudos em formação, como está dirigida especificamente para a ele.

[segue parte II]

Dez anos do Decreto 4887: Bahia

ImagemPor Tiago Rodrigues – Coletivo Quilombola / CERES (PPGCS/UNICAMP)

Passados dez anos do Decreto 4887/2003 se faz necessário um balanço, mesmo que tímido, da trajetória e metamorfose da questão quilombola no estado da Bahia. A ideia de trajetória tem o sentido de traçar uma “linha do tempo” para que possamos avaliar o desenrolar da emergência étnica e das políticas de reconhecimento e de algumas questões que perpassam a existência e reprodução desses grupos. Ao nos referirmos a “metamorfose”, já indicamos que a questão quilombola que surge nos anos de 1980 na Bahia, tendo a comunidade de Rio das Rãs como epicentro, se amplia para além da questão da terra e dos conflitos fundiários, agregando as dimensões ambientais, de relações de trabalho, de acesso a políticas públicas, dentre outras questões. Assim, este post tem o objetivo de apresentar alguns dados dos (des)caminhos destes processos em dez anos de Decreto 4887/2003.

A presença de comunidades quilombolas na Bahia é um traço marcante na configuração da questão agrária e territorial do estado na contemporaneidade. O número de comunidades certificadas pela Fundação Cultural Palmares no Estado da Bahia é bastante expressivo. A Bahia situa-se como o primeiro estado da federação em número de comunidades negras rurais e quilombolas, 494, e mais 325 identificadas, perfazendo um total de 801, seguida do Maranhão que possui com 369[1] com certificação. Esse expressivo número indica, ainda, para uma diversidade regional e local dessas comunidades, tendo como que o denominador comum a questão agrária, podendo ser entendida como os processos sociais pela posse e uso da terra, bem como pelo acesso e manutenção do aos recursos naturais – principalmente porquê muitas das comunidades quilombolas têm no extrativismo uma fonte inestimável de reprodução social –, continuam sendo a “marca” que as unifica na luta na terra, buscando a continuidade da sua reprodução.

Se o número de certidões expedidas chega a 496,  em 17 delas há mais de uma comunidade,  o que explica a existência de 576 comunidades certificadas[2]. O gráfico 1 aponta o ritmo de certificações expedidas pela Palmares. Podemos verificar um pico de certificações no ano de 2006, com 113 comunidades, seguido pelo ano de 2011, com 91 certificações. A queda do ritmo entre 2007 e 2010 pode ser explicada pelo impacto das notícias vinculadas sobre a Comunidade de São Francisco do Paraguaçu, localizada em Cachoeira. Em 2007 a comunidade foi alvo de reportagens que  acusavam ou simplesmente sugeriam a existência de fraudes no processo de certificação e da identificação enquanto quilombolas. Após este episódio, mesmo a sindicância apontando que não houve irregularidades[3], num claro recuo a FCP aumentou as exigências para a expedição da Certidão de autoreconhecimento e o Governo Federal, com um todo, retraiu as políticas públicas para quilombos no País. Ainda assim, nos 10 anos de existência do Decreto, o ano de 2012 aparece como o de menor número de certificações expedidas para o estado, apenas oito.

As 496 certidões  representam 61% das comunidades existentes do estado e,  considerando as situações de certificações múltiplas as comunidades certificadas na Bahia correspondem a 71%  das comunidades quilombolas certificadas. Das 1.901 comunidades certificadas no Brasil, mais da metade, 1.042, possuem processos abertos no Instituto Nacional de Colonização (INCRA). Na Bahia, o número chega a 139, o que representa 28% das certificadas no estado ou 17%  do total identificado no território baiano. Desses 139 processos, 37 estão com Relatórios Técnicos de Identificação e Delimitação (RTID) publicados, representando 26% do total de procedimento administrativos em curso ou 7% das comunidades certificadas no estado. Se considerarmos o total de  801 comunidades negras e quilombolas levantadas pelo GeografAR  o percentual cai para menos de 5% do total.

No gráfico 02 podemos perceber que os anos de 2008, com 42 processos abertos e 2012, com outros 34, são os anos com maior proporção de procedimentos administrativos iniciados. Esses dois anos são resultado de uma conjuntura interna do INCRA da Bahia (INCRA SR-05): em 2008 a Superintendência  assinou um convênio, intermediado pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), para realização de RTIDs. Foram contratados, em contratos precários e temporários, antropólogos, agrônomos, cartógrafos e analistas que iniciaram os relatórios de 13 comunidades. Já em 2012, a autarquia, através de Licitação Pública, modelo pregão eletrônico, iniciou os trabalhos antropológicos em 21 territórios quilombolas, envolvendo 21 comunidades e aproximadamente 2.600 famílias (INCRA, 2012[4]). No caso da Bahia é importante frisar que diferente dos convênios com as Universidades, que envolveu a contratação dos serviços de todos os profissionais necessários para a elaboração do RTID, o modelo licitação por pregão eletrônico (menor preço por lote) deu destaque para os profissionais da antropologia enquanto os outros profissionais foram considerados “assistentes de pesquisa”, com relatórios agronômicos, cadastros das famílias quilombolas e relatórios fundiários a serem complementados por funcionários do próprio órgão. Assim, na maioria dos trabalhos iniciados o resultado foi apenas o laudo antropológico e não o RTID por completo. O quadro de RTIDs com equipes em campo pode melhorar com a incorporação de mais antropólogos/as no quadro do Serviço de Regularização de Territórios Quilombolas do INCRA SR-05, que hoje somam cinco profissionais da área. Mas ainda assim é um número pequeno frente a demanda e não sabemos se suficiente para superar a resistência interna que o Serviço de Regularização enfrenta no próprio órgão.

10 anos na BA imagem 1

Os 37 RTIDs realizados cobrem uma área de 92.437 hectares, atendendo 1.217 famílias do estado da Bahia, uma média de 75 hectares por família atendida. Desses RTIDs, dez áreas estão decretadas para desapropriação e desintrusão, que somam uma área de 89 mil hectares, que beneficiarão 1.090 famílias.

10 anos na BA imagem 2

A atuação do INCRA SR-05 em alguns quilombos do Território da Chapada Diamantina, mais precisamente no município de Seabra, identificou que os territórios quilombolas estavam localizados em terras devolutas. Assim, no âmbito do governo estadual, o órgão de terra, a Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA), iniciou os procedimentos para a identificação e arrecadação de terras públicas com vistas a titulação dos territórios ocupados e construídos pelas comunidades. Dessa ação resultou a Ação Discriminatória de sete territórios comunitários, em Seabra e Boninal, com uma área de pouco mais de 17 mil hectares,  beneficiando 780 famílias. Mas, em função da contestação da Procuradoria Geral do Estado, os processos de titulação foram suspensos, fruto do “efeito ADIN”. O argumento da PGE era que em função da contestação do Decreto no Supremo Tribunal Federal, seria necessária uma lei estadual para que as comunidades em terras públicas fossem tituladas. Somente em outubro de 2013  o governador do Estado assinou a Lei 12.910/2013, que dispõe de instrumentos para regularizar terras públicas ocupadas por comunidades quilombolas e “comunidades de fundos e fechos de pasto” no estado da Bahia[5]. Há várias  limitações no texto da Lei aprovada, a principal delas residindo no uso do conceito de “terras ocupadas”[6]. Indicamos que a diferença entre “terras ocupadas” e “território” não é semântica, é política: o primeiro muitas vezes restringe o espaço pleiteado pelo grupo apenas ao espaço de moradia, enquanto o segundo busca abarcar o direito do grupo ao os espaços de reprodução social, econômica, cultural e político. Assim, o texto da Lei 12.910/2013 restringe os direitos territoriais dos grupos e é uma clara afronta à Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

De todo esse complexo quadro, apenas três comunidades tiveram seus territórios integralmente titulados até o fim de 2013: 1) Barra, Bananal e Riacho, titulada pelo Iterba[7] em 1999; 2) Rio das Rãs, titulada pela FCP em 1997; 3) Mangal/Barro Vermelho, titulada em 1997. Os outros casos que aparecem como “titulados” pelos órgãos oficiais, na verdade foram apenas parcialmente titulados.   Na comunidade de Pau D’Arco e Parateca, município de Malhada, dos mais de 41 mil hectares identificados pelo RTID, pouco mais de 7 mil foram titulados, porquê se situavam em áreas da União.  No município de Muquém do São Francisco, dos 12 mil hectares que compõe o território da comunidade de Jatobá, apenas 1.700 hectares foram titulados em 2007 pela SPU, porque também estavam em terras da União; e a comunidade de Mangal/Barro Vermelho, em Sítio do Mato, que já tinha parte do seu território titulado desde os anos 2000, ao qual foi acrescentado, em 2008, uma  área de 2 mil hectares que faziam parte de  projetos de assentamentos. Em resumo, do Decreto 4887/2003 não temos nenhum território totalmente titulado no estado da Bahia.

Se no quadro das titulações temos um contexto de inércia, há, porem, por outro lado, o “efeito Decreto”, que, por ser uma afirmação formal de direitos, potencializou ações no plano político-organizativo das comunidades, enquanto  no plano político institucional houve a criação de órgãos e núcleos ligados a questão quilombola, além de demandas dos quilombos “ganharem” espaços em órgãos já existentes. Até a edição do Decreto havia apenas duas organizações significativas que lutavam pelos direitos sócios territoriais dos quilombos na Bahia: o Movimento dos Trabalhadores Acampados, Assentados e Quilombolas (Movimento CETA), que organiza as comunidades na região do Velho Chico; e a regional da Conaq na Bahia, que também restringia sua atuação junto às comunidades do Velho Chico, sobretudo Mangal/Barro Vermelho, em Sítio do Mato, e Rio das Rãs, em Bom Jesus da Lapa.

Nesse contexto de Decreto e luta pela garantia de direitos, vários outros movimentos e entidades passam a “levantar bandeira” da causa dos quilombos. Destacamos o papel do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP), que organiza a luta e demanda por terra e água, território, de quilombolas, pescadores/as e marisqueiras/os no Recôncavo Baiano[8]. Em 2010 foi criado o Conselho Estadual Quilombola, composto por representantes das comunidades e que conta com o apoio de diversos órgãos estaduais. Se por um lado o Conselho Quilombola tem em sua composição representantes de todas as regiões do estado e tem proporcionado uma maior capilaridade e organização das comunidades do estado, por outro lado ao estar atrelado ao Governo do Estado apresenta limites no enfrentamento e reivindicações de suas demandas.

Na perspectiva institucional foram criados alguns setores e órgão na esfera estadual buscando atender e incorporar as demandas dos quilombos. O destaque foi a criação da Secretaria de Promoção da Igualdade, SEPROMI; do Núcleo de Apoio a Quilombos, da CDA; do Programa de Povos e Comunidades Tradicionais no interior da Secretaria de Desenvolvimento Social e Combate a Pobreza; e da Coordenação de Apoio aos Povos e Comunidades Tradicionais, da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR)[9]. Apesar de não termos dados sistemáticos que possam apresentar o “impacto” das ações desse conjunto de órgãos no estado e nas comunidades, pode-se perceber que muitas ações se dão no sentido de fortalecimento institucional das comunidades – com o apoio a formalização de associações; em programas de transferência de renda, a exemplo da inclusão do Bolsa Família nas comunidades; e a realização de diagnósticos nos quilombos.  Essas ações tem tido mais concretude do que a política de regularização fundiária, principal objeto do Decreto 4887/2003. E assim se justifica nossa avaliação  sobre a “metamorfose” da questão quilombola no estado: a política de regularização dá lugar a prioridade de políticas compensatórias. E mais: a desarticulação das ações desses vários novos órgãos dá lugar a uma disputa no interior do Governo para saber “quem”, de pessoas a órgãos, é “pai” da questão quilombola.

O contexto atual aponta para o aprofundamento de temas e enfrentamentos que atingem diretamente os quilombos no estado: a morosidade do estado frente as demandas fundiárias; os conflitos com fazendeiros; a judicialização dos conflitos; os conflitos do modo de vida quilombola com os grandes projetos de desenvolvimento; as situações de sobreposições com parques estaduais; relação de quilombos com o poder público municipal; a relação das organizações com o Estado, em seus diversos níveis. Esperamos que o futuro seja mais favorável para as comunidades quilombolas do que foi até agora.


[1] Segundo a Fundação Cultural Palmares, órgão responsável pela emissão de certidão de auto-identificação de comunidades quilombolas no País, foram emitidas, até 2013, cerca de 1.318 certificados em todo o Brasil. Na Bahia foram 496 comunidades certificadas, num universo de 801 identificadas pelo Projeto GeografAR. Dados do movimento negro organizado indicam a existência de mais de 5.000 comunidades quilombolas em todo o Brasil.

[2] Exemplo pode ser o caso do município de Araçás, que em duas certidões há o nome de 42 comunidades.

[4] No total a Licitação Pública contratou laudos antropológicos para 158 territórios quilombolas, atendendo aproximadamente 15.900 famílias em 15 estados da Federação. Ver: http://www.incra.gov.br/index.php/noticias-sala-de-imprensa/noticias/549-incra-abre-licitacao-para-produzir-relatorios-antropologicos-de-158-territorios-quilombolas

[5] As comunidades de fundos e fechos de pasto são formações sócio-espaciais das regiões semiáridas da Bahia que tem constituído seus territórios em terras devolutas. Ver: http://www.geografar.ufba.br/site/arquivos/biblioteca/publicacoes/87eca994bc42643c639e407f8ccf8776.pdf

[7] O Instituto de Terras da Bahia foi extinto 1998 e em 1999 foi criada a Coordenação de Desenvolvimento Agrário, CDA.

[8] Dentre as várias ações do MPP destacamos as ocupações do INCRA SR-05 em 2009 e 2011, bem como a ousada ação de impedir a entrada da urna eletrônica na comunidade quilombola de Bananeira, Ilha de Maré – Salvador. Ver: http://atarde.uol.com.br/politica/eleicoes/materias/1458395-ilha-de-mare:-pescadores-impedem-entrada-de-urna-eletronica

[9] Na maioria dos órgãos há pouca infraestrutura para a efetivação da política e identifica-se uma grande rotatividade nas pessoas responsáveis por cada setor o que tem ocasionado problemas na condtução das já esparsas políticas.

O que o alargamento da categoria índios tem que ver com o processo de nominação de “populações tradicionais”

A expansão ou alargamento da noção de “indígena” de que fala Jan no texto de ontem parece de fato uma tendência, ainda que no Brasil, isso possa ganhar contornos particulares. Não sei como Jan pensa trabalhar o tema, mas aproveito a sua dica, motivada pelo texto inicial do André, para retomar algumas considerações antigas (*).

O longo histórico de reconhecimento da “questão indígena” por parte do Estado colonial português, seguido dos Estados imperial e republicano brasileiros, de fato, produziu um acúmulo de referências acadêmicas e jurídicas que têm servido de base (as vezes como simples alusão imagética, as vezes como habitus de Estado) ao trato de outros grupos social e culturalmente diferenciados, mas que só muito recentemente começaram a ser reconhecidos desta forma.

Entre nós, porém, esta tendência não tem assumido a forma de um alargamento da noção de “indígena”, mas tem buscado amparo em uma nova categoria, capaz de incorporar em uma mesma gramática da diferença e em um mesmo eixo de reconhecimento oficial (jurídico, político, administrativo…) uma grande variedade de grupos sociais. Trata-se da categoria de “populações tradicionais”. Fenômeno curioso e complexo que pode ter efeitos ou significados diferentes para indígenas e demais grupos, entre eles os quilombolas. Duas breves considerações sobre isso:

Primeiro. Tal movimento de nominação das populações tradicionais parece estar, de fato, intimamente ligado ao alargamento da noção de “indígena” no plano internacional. O vínculo entre uma coisa e outra passa justamente pela nova inserção internacional do Estado Brasileiro e a busca sistemática por um bom posicionamento diante da opinião pública internacional, por meio da adoção da maioria, senão de todos os protocolos internacionais relacionados aos direitos humanos e ao meio ambiente. (“Nunca antes neste país…”) Isso ajuda a explicar porque enquanto o executivo avança no processo de institucionalização dos direitos indígenas – por meio de uma série de novas políticas públicas que não estão mais restritas ao estreito limite da FUNAI – o parlamento vive um refluxo conservador preocupante. Basta lembrar que pouco depois da ratificação da Convenção 169 da OIT pelo estado brasileiro, houve a proposição do Projeto de lei do Senado (PL 188) e do Projeto de Emenda Constitucional (PEC 03) que tinham por objetivo alterar o processo de demarcação das terras indígenas (TI’s). Curiosamente, as duas propostas não se opunham frontalmente às normas internacionais, mas buscavam subverter os ganhos propostos por ela. O PL 188, proposto pela bancada ruralista, transformava o processo tão complexo e demorado que, na prática, tendia a inviabilizá-lo, enquanto a PEC 03 propunha exigir que os imóveis existentes nas TI’s fossem desapropriados – e não apenas indenizados com relação às suas bem-feitorias de boa-fé, como acontece hoje -, o que significava também inviabilizá-lo. Não mais do ponto de vista processual e político, mas orçamentário. Mesmo a decisão favorável do STF à demarcação contínua da área indígena Raposa Serra do Sol, no início deste ano, sofre da mesma ambigüidade: afirma-se o direito ao mesmo tempo em que o relativiza, por meio de várias condicionantes, que voltam a definir a “questão indígena” em termos de “problema de Segurança Nacional”.

Segundo. A nominação das populações tradicionais parece constituir-se como processo associado a uma mudança estrutural na forma pela qual o Estado brasileiro lida com a questão indígena, pelo menos desde 1910. A institucionalização dos direitos indígenas, na forma de secretarias, programas oficiais, itens orçamentários (que figuram como ações afirmativas no interior de políticas historicamente tomadas por universais ou focadas na pobreza, em especial educação e a saúde, de crédito produtivo e de redistribuição de renda, como o “Bolsa Família”) ajuda a explicar como a redução no orçamento da Funai correspondeu, durante o Governo Lula, a um aumento no montante geral de recursos destinados às populações indígenas. Houve uma dispersão das ações que antes estavam concentradas em um único órgão. São seis os ministérios que compõem o núcleo central da política indigenista: Justiça, Educação, Meio Ambiente, Esportes, Desenvolvimento Agrário, com franco destaque orçamentário para o Ministério da Saúde. Além destes outros dez ou mais ministérios contam os indígenas entre o seu público.

Trata-se do processo de ajustamento por meio do qual o Estado Brasileiro deixa de pensar a Política Indigenista como um conjunto especial e autônomo, enquanto, por outro lado, também deixa de pensar os dispositivos estatais de diferenciação (territorial, legal, político) como exclusivos da população indígena. Um processo que é filho tanto da redemocratização da sociedade brasileira, quanto da neoliberalização do estado brasileiro, tendo emergido com o movimento dos Povos da Floresta nos anos 80 e crescido com as populações quilombolas nos anos 90.

Neste sentido, o processo de nominação (proposição, conceituação, legalização e incorporação política…) das Populações Tradicionais, iniciado (?) em 2003 incrementado em 2007 (com o anúncio oficial da Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais – PNPCT) parece ser a realização desta mudança, que aponta tanto para uma expansão do “indigenismo”, quanto para sua transformação estrutural.

(*) retomando algumas das notas manuscritas da minha participação na mesa redonda “Política indígena en el Mercosul”, organizada por Juan Carlos Radovich (UBA) na RAM de 2007 (Porto Alegre).