Sobre José Maurício Arruti

Historiador (UFF) e doutor em Antropologia (Museu Nacional- UFRJ), foi pesquisador do CEBRAP (2003-2006) e professor da PUC-Rio (2007-2011), enquanto também coordenava projetos de pesquisa, comunicação e advocacy da sociedade civil junto a quilombos (Koinonia 1999-2009). Atualmente é prof. do Departamento de Antropologia da UNICAMP, onde faz parte do Coletivo Quilombola e coordena o Centro de Pesquisa em Etnologia Indígena (CPEI). Meus textos: http://unicamp.academia.edu/JoséMaurícioArruti

Entre “geração”, “academia” e “movimento”: Uma etnografia sobre os processos de formação e atuação dos grupos de juventude LGBT nas universidades

por Stephanie Pereira de Lima

 

O Encontro Nacional Universitário da Diversidade Sexual (ENUDS), que foi meu objeto de pesquisa no mestrado, surge em 2003, no 49º CONUNE1, em Goiânia (GO). Nesse Congresso, ocorreu um caso considerado como homofobia, envolvendo alguns participantes do evento (ENUDS, 2013). Ao ser exigido um posicionamento formal da UNE, a organização foi paralelamente acusada de negligenciar as demandas e necessidades dos alunos GLBTs2. Este é considerado o mito de origem das movimentações para a construção do ENUDS.

Entre a primeira edição do Encontro até a IV edição, em 2006, segundo as fontes recolhidas3, o ENUDS contou com a organização e participação exclusiva de poucos grupos universitários (de universidades públicas), e, em sua maioria, de homens gays – dentre os quais alguns eram afiliados a partidos políticos de esquerda4. Já em 2007, além de contar com o maior número de participantes de todas as edições até aquele momento (aproximadamente 150 pessoas), há, pela primeira vez, a presença de nomes acadêmicos e pessoas que refletiam sobre o movimento GLBT e outros movimentos sociais.

A partir das últimas oito edições, houve um crescimento contínuo no número de grupos e de participantes (variando entre 450 a 700). Além disso, a busca por maior diálogo entre a academia e a militância se tornou o principal foco dos Encontros. Essas transformações ocorreram a fim de proporcionar a comunicação entre diferentes militantes e acadêmicos, e também promover reflexões sobre as práticas, projetos e atuações da “militância da diversidade sexual” nas universidades.

Tendo em vista este breve histórico da construção do ENUDS, vê-se que o entrelaçamento dos campos político e acadêmico é uma de suas características. Esta reflexão se instiga ao se resgatar a noção de campo de Bourdieu (2003), que se define como o conjunto de ações, arranjos e relações entre os atores sociais sob uma normatização, onde a mesma se cria e se transforma, dialeticamente, por seus atores e por outros campos. Esta dinâmica que o conceito de campo oferece para a análise é relevante para compreender tanto as relações estabelecidas dentro do ENUDS, bem como a relação do ENUDS com os demais atores políticos – como o movimento estudantil, o movimento LGBT, grupos de pesquisa, grupos de diversidade universitários.

Destarte, as contribuições de Ruth Cardoso (1987) oferecem uma continuidade no caminho teórico de eixo do trabalho cuja diretriz está em olhar o movimento social e o Estado como entes não unitários ou homogêneos. Por conseguinte, o projeto se apoia na compilação de estudos realizados por Carrara (2013) e Facchini et al. (2013) para aprofundar a compreensão sobre o campo científico no qual o ENUDS se situa. Ainda, em complementaridade, o projeto traz a abordagem de Aguião (2014) como referência para a desconstrução da imagem do Estado e de movimento social como entes unitários. Conforme Facchini (2009) nos mostra, o movimento social não pode ser pensado dissociado dos espaços e sujeitos que o constituem, e, sobretudo, do contexto histórico onde estão inseridos.

Com um cenário da crescente Participação Social (HEREDIA; LEITE LOPES, 2014), a partir de 2003, os movimentos que se apresentam à esfera pública constroem uma pauta de diálogo mais especializada com o Estado. A transformação na forma de organização e atuação do movimento homossexual, por exemplo, para o modelo institucionalizado e profissionalizado do movimento LGBT, reorganiza a compreensão de “políticas sexuais” e desses sujeitos como sujeitos de direitos (AGUIÃO, 2014). Ao mesmo tempo, também criou múltiplas formas de atuação e expressão das identidades sexuais e de gênero, como, por exemplo, as Paradas do Orgulho LGBT (CARRARA, 2013; FRANÇA, 2006).

Posteriormente, ao longo desse processo histórico, muitos movimentos, em sua maioria formado por jovens, vêm produzindo diferentes modelos de participação5, reivindicando lugar em outros espaços que não apenas aqueles legitimados pelo Estado e pelos movimentos mais tradicionais. Nesse sentido, a categoria juventude aparece como mais um marcador social dos sujeitos políticos desses espaços, e, como analisam Facchini e França (2011), a diferenciação política está colocada no âmbito da formação – o que estaria em processo – e da geração.

Olhar os espaços e a trajetória dos ENUDS suscitou questionamentos sobre o sujeito político que dá vida ao Encontro. Assim, para este projeto, a expansão do campo empírico para os coletivos e grupos que estão nas universidades, como KIU! (UFBA), Diversitas (UFF), Pontes (UFRRJ) e Frente LGBT (USP) permite uma ampliação analítica em conformidade ao objetivo geral de pesquisa, que pretende analisar os processos de formação e atuação dos grupos de juventude LGBT ali inseridos como sujeitos políticos.

Deste modo, pretende-se pensar certos pontos como: i) Analisar como são acionadas, nos debates entre “gerações”, as compreensões das estratégias políticas no fazer e fazer-se política; ii) Analisar táticas e estratégias de organização e performances do fazer político, envolvendo replicação de formatos deste mesmo “fazer” entre movimentos sociais, bem como as disputas internas dos próprios movimentos; iii) Seguir o trânsito de categorias entre o meio acadêmico e o movimento social na atuação dos militantes do ENUDS e alguns grupos e coletivos que permitem observar melhor a relação entre os atores políticos, sendo eles o movimento estudantil, o movimento LGBT, e grupos e núcleos de pesquisa de professores.

Assim, o projeto de pesquisa busca analisar quais formas de fazer ou fazer-se política e estratégias emergem de jovens sujeitos políticos, os quais se constituem em oposição geracional ao movimento LGBT, em diálogo com o movimento estudantil, grupos de pesquisa e grupos universitários no contexto da universidade. Não obstante a isto, a contribuição do trabalho para o campo se dá ao pretender gerar reflexões complementares aos estudos de “políticas sexuais”6 no Brasil, focalizando a relação entre movimento LGBT, juventude e espaços universitários.

Notas

1 O CONUNE é um encontro estudantil bienal, organizado pela UNE

2 Utilizo GLBT como referência aos acontecimentos anteriores ao ano de 2008, visto que a partir da Conferência Nacional GLBT, foi acordada a mudança de ordem das letras “G” e “L” na sigla, estabelecendo a referência LGBT (BRASIL, 2008).

3 Fontes: (ENUDS, 2005); (ENUDS, 2007); (ENUDS, 2008); (ENUDS, 2013).

4 Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU).

5 Dentro do debate acerca das novas formas de atuação política, vêm surgindo novos estudos sócio antropológicos envolvendo o tema. Como exemplo, observação e pesquisa sobre a Marcha das Vadias (GOMES; SORJ, 2014); feminismo vegano (CARMO, 2012) e grupos universitários (FALCÃO, 2014).

6 Utilizo esse conceito em consonância à uma gama de trabalhos desenvolvidos no âmbito do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, vide Vianna e Lacerda (2004), Carrara (2010), entre outros.

 

Bibliografia:

AGUIÃO, Silvia. Fazer-se no Estado: uma etnografia sobre o processo de constituição dos “LGBT” como sujeitos de direitos no Brasil contemporâneo. Tese de Doutorado em Ciências Sociais. Campinas, IFCH-Unicamp, 2014.

BOURDIEU, Pierre. O Poder simbólico. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil. 2003. CARDOSO, Ruth C. L. Movimentos Sociais Na América Latina. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v.3, (1). São Paulo. 1987.

CARMO, Íris. “Viva o feminismo vegano!”: gastropolíticas e convenções de gênero, sexualidade e espécie entre feministas jovens. Dissertação de mestrado. Salvador – UFBA, 2012.

CARRARA, Sérgio. Políticas e direitos sexuais no Brasil contemporâneo. Bagoas: Revista de Estudos Gays, Natal, n. 5, 2010.

           . Négocier les frontières, négocier aux frontières: l’anthropologie et le processus de “citoyennisation” de l’homosexualité au Brésil. Brésil(s). Sciences humaines et sociales, v. 4, pp.103-123, 2013.

FACCHINI, Regina; DANILIAUSKAS, Marcelo; PILON, Ana Cláudia. “Políticas sexuais e produção de conhecimento no Brasil: situando estudos sobre sexualidade e suas conexões”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 44, n. 1, pp. 161-193, 2013.

             .    Entre compassos e descompassos: um olhar para o “campo” e para a “arena” do movimento LGBT brasileiro. Bagoas: Revista de Estudos, 2009.

FALCÃO, T. H. O. Disputando sentidos em rede: convenções e práticas sobre política numa comunidade universitária no Facebook. (Em andamento). 2014.

FRANÇA, Isadora Lins. Cercas e pontes. O movimento GLBT e o mercado GLS na cidade de São Paulo. Dissertação de mestrado, Antropologia Social, USP, 2006.

HEREDIA, Beatriz; LOPES LEITE, José Sergio (org.). Movimentos sociais e esfera pública: o mundo da participação: burocracias, confrontos, aprendizados inesperados. Rio de Janeiro: CBAE, 2014.

VIANNA, Adriana; LACERDA, Paula. Direitos e políticas sexuais no Brasil: O panorama atual. Rio de Janeiro: CLAM/IMS/CEPESQ, 2004.

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Domila do Prado Pazzini – Estudo de famílias transnacionas no Brasil

por Domila Pazzini

Em 2013 minha mãe pegou o dinheiro das férias dela (como enfermeira do SAMU) e foi conhecer os Estados Unidos. Foi a primeira vez que ela saiu do país. No início, quando planejava o que fazer com o dinheiro, ela cogitou alugar uma casa na praia e levar seus dois irmãos e quatro filhos – nunca fizemos isso, seria a primeira vez que muitos de nós conheceríamos o mar (eu mesma conheci depois que entrei na universidade financiada por grupo de pesquisa). No entanto, isso seria férias para qualquer um, menos para ela que ia ficar de empregada de todos. Sugeri que ela fosse fazer uma viagem sozinha. Como ela tem um ex-namorado que mora em Orlando, resolveu tirar passaporte e visto e viajar sem saber nada de inglês. Esse interesse está diretamente associado a possibilidade que as pessoas mais pobres do país estão tendo de viajar[1].

Ela ficou encantada com a cidade e colocou na cabeça que ia morar lá, e ia levar todos os seus filhos porque “o Brasil não tem jeito”. Voltou para o Brasil, vendeu carro, casa e, no final do ano, estava em Orlando novamente. Se matriculou em uma escola de idiomas, que além de aprender o inglês teria o vínculo como estudante no país. Arrumou vários trabalhos informais, uma vez que a documentação não permitia exercer legalmente nenhuma atividade remunerada. Com o tempo ficou pesado pagar a escola de idiomas e ela saiu. Nesse tempo conheceu Vance, um americano que trabalhava como cozinheiro em um restaurante de comida mexicana, começaram a namorar e foram morar juntos. O tempo foi passando e foi chegando próximo ao vencimento do visto, então eles resolveram se casar. Em abril de 2014 casaram-se e seus amigos fizeram uma festa para eles. Foi o primeiro casamento da minha mãe. Aí começou o processo para solicitar a documentação. Quem tem dinheiro contrata um advogado que resolve em pouco tempo. Quem não tem, no caso de minha mãe, faz o processo sozinha, correndo o risco de enviar documentos errados e ter que refazer tudo. Uma hora é problema com o sponsor[2], ou a renda do sponsor, outra é que está faltando documento, e por aí vai. É isso que ela tem feito desde quando se casou até hoje, continuando a trabalhar informalmente. Em maio de 2016, seu marido morreu devido à uma complicação de um AVC. Agora ela está esperando sair uma resposta da sua última solicitação, e, provavelmente, o encaminhamento será diferente.

***

Retomei essa história porque foi a partir dos dramas da minha mãe, como imigrante nos EUA, que veio o interesse em estudar o tema. Para além da documentação e do trabalho informal, tem a questão cultural, por exemplo, o idioma que ela teve que aprender no dia-a-dia com certa dificuldade por “já estar velha”, além de como amor e ajuda aparece no casamento. Sendo que a ajuda é a possibilidade de oferecer o próprio documento que permite a pessoa permanecer no país legalmente.

A transnacionalização se apresenta como um dos efeitos da globalização e acaba interferindo em todos os Estados do mundo. A noção de família transnacional é baseada na fluidez entre os países, uma interação contínua de influência dos dois países em questão. Ela aparece como uma nova forma de compreender a noção de família.

A família transnacional aparece como uma reprodução cultural híbrida. Ela se constitui com o fluxo de intercâmbio e interdependência material e afetiva por seus membros. Para ser considerada família transnacional não tem a ruptura dos laços familiares, as pessoas se mantém em contato pelos meios de comunicação, sobretudo as mídias sociais. Estratégias são criadas para que o convívio, a proximidade, o vínculo se mantenha, apesar da distância física. O espaço dessa família também é transnacional e constituído da hibridez de elementos de, pelo menos, dois países. Nesse novo espaço social há uma reformulação de modelos de famílias, formas de maternidade e paternidade, novas formas de viver os afetos, papéis e construção de vínculos devido à distância, etc. Há uma busca pela manutenção dos vínculos familiares tanto econômico quanto afetivo e de gestão do cuidado na nova estrutura transnacional. Sendo que conversas pela internet, telefonemas, presentes e dinheiro aparecem como meios de expressar o afeto. (CERDA, 2014)

É a partir de questões como essas (documentos, trabalho, diferenças culturais, amor e ajuda) que penso no desenvolvimento deste projeto partindo de conceitos de família transnacional e casamentos transnacionais. No entanto, meu interesse é desenvolver essa pesquisa com imigrantes que vem para o Brasil. Por isso, quero pensar e desenvolver um pouco sobre os fluxos atual de imigrantes no Brasil, bem como as próprias leis de migração.

Como parte exploratória de pesquisa, estou tentando estabelecer contato com pessoas que estão mais próximas de mim. Por enquanto consegui conversar com Julio, que conheci na rádio, mas o intuito é ir para outros lugares e conversar com mais pessoas para conseguir delimitar um objeto de pesquisa:

Julio Aponto Te é de Guiné Bissau e está envolvido com projetos culturais que fazem intercâmbio de Guiné-Bissau e Brasil (como o Projeto Guine-Bissau Além Fronteiras). Ele tem um programa na Rádio UFSCar chamado Africanidades. Devido a esses projetos ele tem conversado com muitas pessoas que, de alguma forma, imigraram dos países africanos para o Brasil. Além daqueles que vem com a documentação normal de imigrante, Julio apontou mais quatro formas de ficar no Brasil: refugiado, convênios para estudantes e religiosos, e casamentos pré-arranjados.

Referência Bibliográfica

CERDA, J. Las familias transnacionales. In. Revista Espacios Transnacionales No.2 Enero-Junio 2014, Reletran.

Reportagens para discussão

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/08/150819_racismo_imigrantes_jp_rm

http://g1.globo.com/ac/acre/noticia/2015/05/imigrantes-dizem-sofrer-ameacas-e-extorsao-para-poder-chegar-ao-brasil.html

Notas ao texto

[1] http://www.turismo.gov.br/ultimas-noticias/244-sobe-intencao-de-viagens-da-classe-c.html ; http://www.diariodocomercio.com.br/noticia.php?tit=classe_c_viaja_cada_vez_mais_para_o_exterior&id=139021

[2] Sponsor é a pessoa responsável pelo imigrante. http://www.immihelp.com/affidavit-of-support/sponsor-responsibilities-obligations.html

Vida estudantil e mundo do trabalho – jovens de cursinhos comunitários da periferia

 

por Josuel Stenio da Paixão Ribeiro

Em busca de superar a condição desfavorável imposta a jovens que cresceram na “periferia da periferia” da cidade de Guarulhos(SP), um cursinho comunitário foi idealizado por dois professores de uma escola pública da região. A proposta ganhou corpo quando se agregou a sonhos de diversos jovens. No dia 14 de janeiro de 2002 foi lavrada a ata de fundação do Cursinho Comunitário Pimentas.

Desde o seu surgimento, o Cursinho já tornou possível a centenas de estudantes carentes o ingresso em algumas das melhores universidades do país, como a USP, UNICAMP, UNESP, UFSCar, UNIFESP, entre outras. Em seus treze anos de existência, o Cursinho Comunitário Pimentas já assistiu aproximadamente 600 jovens a ingressar em universidades, metade deles em universidades públicas. Ainda é relevante ressaltar que daqueles que ingressaram em universidades privadas – de alto renome como PUC, Mackenzie e FGV – quase em sua totalidade possuem bolsas integrais.

O Cursinho Comunitário Pimentas surgiu em decorrência da luta pela inclusão de jovens de baixa renda nas Universidades. Contudo, surgiram novas demandas que foram abarcadas ao longo da formação desse cursinho que logo se transformou em um “movimento social complexo”, mobilizando o protagonismo da “Marcha pela Consciência Negra”, que ocorre na região central da cidade de Guarulhos(SP) todos os anos, no dia 21 de Novembro. Na mesma direção, criou o Sarau Cultural que é realizado anualmente e conta com a participação de vários artistas da região. Em janeiro de 2008, ocorreu a “Primeira Conferência Municipal de Políticas Públicas para Juventude”, durante a qual o cursinho demonstrou sua participação massiva nas questões referentes à juventude na Cidade de Guarulhos(SP), elegeu três Conselheiros (dentre dez vagas possíveis) para compor o recém criado Conselho da Juventude, no Município de Guarulhos(SP). Por fim, o mesmo grupo teve um papel significativo ao mobilizar a opinião pública para a criação do campus da UNIFESP – Guarulhos(SP) .

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Pierre Bourdieu nasceu em agosto de 1930, em Denguin, interior da França, Faleceu em janeiro de 2002 aos setenta e um anos, em Paris, capital francesa. Filho de camponeses, trilhou os caminhos mais improváveis para atingir o sucesso acadêmico e graduar-se em Filosofia no ano de 1954 na Escola Normal Superior. Passou por todos os níveis da docência até alcançar o magistério superior no mais renomado instituto de ensino superior da França, o Collège de Frace. Escreveu trinta e sete livros e mais de quatrocentos artigos.

Sua teoria busca compreender as estruturas sociais e como elas sustentam a hierarquia de um ou mais grupos sociais em relação a outros. Procurando evidenciar e sustentar suas descobertas teóricas, de modo rigoroso, ele desenvolve diversos conceitos que serão apropriados por sociólogos e antropólogos de todo o mundo.

Conceitos como o de Capital Cultural, Capital Econômico e Capital Social que compõem o Capital Simbólico, além dos conceitos como de Campo, Espaço Social, Habitus e Violência Simbólica, entre outros, que, de alguma forma, podem aparecer de modo isolado, mesmo sendo interdependentes.

O capital simbólico pode ser compreendido como o conjunto de outras formas de capital, ou seja, a junção entre capital econômico, cultural e social. Assim, tudo aquilo que proporciona reconhecimento social, que proporciona vantagens nas relações sociais, de algum modo, contribui para a composição do capital simbólico.

Nesse sentido, o capital econômico engloba as propriedades (recursos financeiros) que o indivíduo possui, tais como, terras e cartas de crédito (recursos patrimoniais), que possam proporcionar rendas.

Já o capital cultural, engendra-se, ao longo do tempo, por meio do ensino-aprendizagem, de um modo sutil ou não, podendo ainda ser informal, transmitido pela família e pelo círculo social do indivíduo ou formalmente transmitido pelo sistema escolar que, ao longo do tempo, passa a ser um habitus[1].

Esse modelo de capital apresenta-se de três formas distintas e complementares, embora não exista uma obrigatoriedade de coexistência. A primeira, em estado objetivo, é caracterizada pelos bens culturais materiais como livros, máquinas, obras de arte e instrumentos diversos que, de algum modo, tenham potencialidade de proporcionar um conhecimento específico; o segundo está ligado ao estado incorporado, que corresponde ao modo de conduta e domínio das ações e regras sociais, concedendo-lhe uma vantagem sobre os demais ou uma condição de destaque como, por exemplo, o uso tido como adequado da linguagem ou do corpo; por fim, o estado institucionalizado, que nada mais é do que os títulos institucionais adquiridos ao longo da vida (Bourdieu, 1998).

Embora não seja uma regra, o capital cultural geralmente está associado ao capital econômico.

Ainda para compor o capital simbólico, temos o capital social que nada mais são além das conexões sociais estabelecidas como amizades, contatos de trabalho, familiares entre outros. Quanto mais renomado e mais valorizado esse capital pode ser, mais vantagens são possíveis dele auferir. Desse modo, devemos observar que as vantagens adquiridas com as correlações sociais também dependem da quantidade e da influência das conexões existentes que podem ser constituídas de modo (consciente, como um investimento) ou não (formando-se inconscientemente, sem pretensões).

A teoria e o método de Pierre Bourdieu demonstram-se de fundamental importância para a compreensão das sociedades complexas, tanto em um plano macroestrutural quanto em um microestrutural.

Desse modo, entendemos que é possível repensar a teoria/método de Bourdieu a partir da história dos alunos do “Cursinho Comunitário Pimentas” do bairro dos Pimentas. Localizado na periferia de Guarulhos, seus alunos também tinham suas esperanças frustradas pela imposição de suas condições sociais. No entanto, contrariando todas as perspectivas, conseguiram ascender às melhores universidades do Brasil.

Cabe investigar como foi a trajetória intelectual durante a graduação para aqueles que foram alunos do cursinho Pimentas, assim como, dimensionar o grau de dificuldade para a inserção ao mundo do trabalho depois de egressos da graduação.

Uma das preocupações desta pesquisa consiste em observar e identificar os motivos dos sucessos ou insucessos posteriores aos cursos de graduação dos alunos que cursaram seu pré-vestibular no cursinho comunitário Pimentas, podendo assim reconstruir o método de Bourdieu a partir de suas teorias.

Nota

[1] Desse modo “Habitus é então concebido como um sistema de esquemas individuais, socialmente constituído de disposições estruturadas (no social) e estruturantes (nas mentes), adquirido nas e pelas experiências práticas (em condições sociais específicas de existência), constantemente orientado para funções e ações do agir cotidiano”. (SETTON, 2002, p. 63)

Bibliografia

BRASIL, Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012. Dispõe sobre o ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 30 ago. 2012.

BOURDIEU, Pierre. A Reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino, Lisboa: Editorial Vega, 1978.

___________. Raisons pratiques. Sur la théorie de l’action. Paris: Seuil. 1994.

___________. Escritos de Educação. Afrânio Catani e Maria Alice Nogueira (Orgs.) Petrópolis: Vozes, 1998.

___________. Lições da Aula: aula inaugural proferida no Collége de France em 23 de abril de 1982. São Paulo: Ática, 2001 a.

___________. Contrafogos 2. Por um movimento social europeu. Trad. André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2001 b.

 

___________; CHAMBOREDON, Jean-Claude; PASSERON, Jean-Claude. Ofício de Sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia. Petrópolis: Vozes, 2004.

 ___________. Os Usos Sociais da Ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: UNESP, 2004.

___________. A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre, RS: Zouk, 2007

___________. O senso prático. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

___________. O poder simbólico. Trad. Fernando Tomaz – 16ª ed. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

___________. A economia das trocas simbólicas. Introdução, Organização e Seleção Sergio Miceli, São Paulo: Perspectiva, 2013.

___________; PASSERON, Jean-Claude. Os herdeiros: os estudantes e a cultura, Florianópolis, SC: ufsc, 2014.

BURAWOY, Michael. O marxismo encontra Bourdieu. Campinas /SP: Unicamp, 2013.

DUARTE, R. Pesquisa qualitativa: reflexões sobre o trabalho de campo. In: Cadernos de Pesquisa, São Paulo, nº 115, 2002, p.139-154.

 

MICELI, Sergio . Imagens negociadas-Retratos da elite brasileira (1920-1940). São Paulo: Cia. das Letras, 1996.

___________. Bourdieu e a renovação da sociologia contemporânea da cultura. Tempo Social – Revista de Sociologia da Usp, São Paulo, v. 15, n.1, p. 63-79, 2003.

___________. Intelectuais à Brasileira (1ª reimpressão). São Paulo: Cia. das Letras, 2008. v. 1.

SANTOS, Boaventura de Sousa. (1997) Uma concepção multicultural de Direitos Humanos. Lua Nova Revista de Cultura e Política. Governo e Direitos – CEDEC, n° 39.

SETTON, Maria da Graça Jacintho. A teoria do habitus em Pierre Bourdieu: uma leitura contemporânea. Revista Brasileira de Educação, nº 20, pp. 60-70, Maio/Jun/Jul/Ago, 2002.

SCHUMACHER, Aluísio Almeida. Reconstrução Pragmático-Formal da Racionalidade Comunicativa: Origem e Dificuldades. In. Clélia Aparecida Martins e José Geraldo Poker (Org).  O pensamento de Habermas em questão. Marília: Oficina Universítaria Unesp, 2008.

WACQUANT, Loïq J. D. Olegado Sociológico de Pierre Bourdieu: duas dimensões e uma nota pessoa. Revista de Sociologia e Política, nº 19, pp. 95-110, nov. 2002.

 

Para o debate sobre o Contexto de Ruptura

http://educacao.uol.com.br/noticias/agencia-estado/2016/05/23/governo-suspende-novas-vagas-do-pronatec-e-do-fies.htm

“Uma das vitrines da área social da gestão petista, programas de incentivo à educação e à profissionalização – como Pronatec, Prouni e Fies – não devem abrir novas vagas neste ano. São efeitos imediatos das medidas de contingenciamento previstas para o Ministério da Educação na gestão do presidente em exercício Michel Temer. A revisão é parte do que no novo governo se chama de “herança maldita” da administração da presidente afastada Dilma Rousseff.”

https://www.brasil247.com/pt/247/brasil/234162/Ap%C3%B3s-fala-de-Mercadante-Governo-recua-sobre-fim-de-Pronatec-e-Fies.htm

“Menos de 24 horas depois dos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo noticiarem que o Ministério da Educação poderia suspender novas vagas do Pronatec e do Fies, o ministro da Educação, Mendonça Filho, voltou atrás e soltou nota assegurando a manutenção dos programas.  O recuo aconteceu após reação do ex-ministro da pasta, Aloizio Mercadante, que questionou o corte.”

http://www.esquerdadiario.com.br/E-o-maior-corte-de-verbas-na-USP-UNESP-e-UNICAMP-em-7-anos-mas-os-estudantes-e-trabalhadores

“Histórico de cortes: a precarização não é de agora, é deliberada pelo governo do Estado de São Paulo há décadas! […] Trabalhadores e estudantes entram em luta nas estaduais paulistas sinalizando que não vão aceitar os cortes, e não vão pagar pela crise!”

Arte terrorismo

Por Caue Nunes

O objetivo é estudar as formas de iconofilia e de iconoclastia contemporâneas e investigar como essas simbologias se manifestam na ordem social. O dualismo iconofilia-iconoclastia movimenta uma série de conceitos antropológicos e semióticos que possibilitam uma vasta investigação no campo da antropologia da imagem. Nesse sentido, a tese inicial é que existe uma verdadeira guerra de imagens no mundo contemporâneo, agenciando afetos e ódios, condição que coloca a imagem em um lugar central das construções simbólicas. As imagens são ao mesmo tempo origem e destino do poder. A delimitação do objeto se construiu a partir da escolha de algumas obras de arte que tratam desse tema. “Em nenhum outro lugar, a não ser na arte contemporânea, há melhor laboratório, montado para tentar e testar a resistência de cada item que compõe o culto da imagem, da figura, da beleza, da mídia, do gênio.” (LATOUR, 2008, p.121)

As obras escolhidas são “Viagem ao Afeganistão”, livro fotográfico de Artur Omar e a exposição “Iconoclash”, coordenada por Bruno Latour. A primeira é o registro da destruição das estátuas de Buda feita pelo Talibã, no Afeganistão, em 2001. A segunda obra é “uma arqueologia do ódio e do fanatismo”, a partir da exposição de vários artistas que tem a iconoclastia como fonte de inspiração. Outros dualismos dialogam com o binômio iconofilia-iconoclastia, como imagem-palavra e verdade-falsidade, além de alguns conceitos como: meio, corpo, afetos, sonhos, potências do falso, fabulação, simbolismo. Por último, faz parte desse projeto a realização de um falso-documentário sobre um hipotético grupo terrorista iconoclasta que destrói imagens. “Por que as imagens provocam tanta paixão?” Foi a partir desta pergunta que Bruno Latour coordenou a exposição Iconoclash, “uma arqueologia do ódio e do fanatismo”. Essa é também a pergunta que deu origem a esse projeto.

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O que é iconoclastia? Uma primeira definição aponta para o sentimento de ódio à determinadas imagens e a ação de destruí-las. Os movimentos iconoclastas da história remetem uma origem religiosa, baseada em interpretações bíblicas originárias da tradição judaico-cristã (MACHADO, 2001). O autor identifica quatro movimentos iconoclastas, todos de origem religiosa, mas ressalta que o último movimento, que se iniciou no começo do Século XX possui características específicas, típicas da Modernidade.

Diferente dos três momentos anteriores, a iconoclastia contemporânea está instaurada muito mais no pensamento filosófico do que em atos concretos do cotidiano. Apesar de atos de destruição de imagens acontecerem com certa frequência, não há um movimento organizado como ocorria no passado. Os sentidos da iconoclastia podem ser compreendidos quando comparados à iconofilia, formando um dualismo, um par de opostos que se retroalimentam, constituindo uma relação dialética, quase como um moto perpétuo. Durante o Século XX as imagens passaram a povoar o imaginário das sociedades ocidentais em progressão geométrica, chegando ao ponto de ocupar todos os lugares da ordem social. Esse excesso de imagens provoca reações das mais diversas formas, incluindo o dualismo iconoclastiaiconofilia.

Esse projeto de pesquisa tem por objetivo investigar como se constrói o dualismo iconoclastia-iconofilia na sociedade contemporânea. A análise consiste em levantar as áreas em que esse dualismo aparece, além compreender como ele se manifesta. Outro objetivo é investigar como alguns pensadores refletem sobre isso, como Debord, Baudrillard, Fulchignoni, Latour e Arlindo Machado. Essa premissa inicial pressupõe a relação com outros dualismos que interpelam a discussão, a saber, os binômios imagem-escrita e verdade-falsidade. “A constatação geral é que todas as sociedades viveram no e pelo imaginário” (AUGÉ, 1998, p.15), fato que faz de toda guerra – inclusive a guerra de imagens – uma “guerra dos sonhos” na medida em que a disputa é coletivamente representada antes de se configurar na realidade propriamente dita. A questão gira em torno da construção imagética e da batalha pela hegemonia de sua circulação. De acordo com Augé, a antropologia é o campo de estudo mais adequado para realizar esse tipo de investigação, já que sempre se interessou pela construção simbólica da realidade, compreendendo como cada sociedade elabora suas representações, visuais ou não. “A tradição etnográfica ocidental interessou-se pelas imagens, pelas dos outros: por seus sonhos, suas alucinações, seus corpos possuídos” (Ibid. p. 12).

Considerar a imagem como objeto de estudo sempre foi uma das premissas da antropologia. Já Belting (2007) emprega a antropologia na sua acepção europeia, que não coincide com a etnologia, para estudar as imagens. Ele está interessado na relação entre imagem, corpo e meio, no sentido de identificar como as imagens “internas” e “externas” são reproduzidas na ordem social, interagindo com nossos corpos (corpo humano), mas também como elas circulam através de meios (tanto os mass media como formas de arte, de origem religiosa ou ritual). Belting está mais interessado em uma história das imagens do que na história dos meios, por isso a acepção antropológica. Resultados

 

Links e imagens para discussão sobre o contexto de Ruptura

Com 5 estrelas a menos, bandeira da logo de Temer foi usada na ditadura
http://oglobo.globo.com/brasil/com-5-estrelas-menos-bandeira-da-logo-de-temer-foiusada-na-ditadura-19318094
A Cultura é (novamente) degolada em tempos de ajuste fiscal – http://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/11/politica/1462998470_097192.html

 

Bibliografia

AUGÉ, Marc. A guerra dos sonhos. Campinas: Papirus, 1998

AUMONT, Jacques. Moderno? Porque o cinema se tornou a mais singular das
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_____________. O olho do furacão. A cultura da imagem e a crise da visibilidade. Centro interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia, 2001. Disponível em: http://www.cisc.org.br/portal/index.php/pt/biblioteca/viewcategory/7-baitello-juniornorval.html. Acesso em setembro de 2015.

BELTING, Hans. A imagem autêntica. Centro interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia, 2005. Disponível em:

http://www.cisc.org.br/portal/index.php/pt/biblioteca/viewdownload/11-beltinghans/37-a-imagem-autentica.html. Acesso em setembro de 2015.

____________. Antropologia da imagem. Lisboa: KKYM+EAUM, 2014.
BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D´Agua, 1981.
CLIFFORD, James Writing culture. Londres: University of California Press, 1986.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Lisboa: Edições Afrodite, 1972.

DEBRAY, R. Vida e morte da imagem: uma história do olhar no ocidente. Petrópolis: Ed. Vozes, 1993.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante da imagem. São Paulo: Editora 34, 2013.

FULCHIGNONI, Enrico. La civilisation de l’image. Paris: Payot, 1972
KLEIN, Alberto. Destruindo imagens: configurações midiáticas do iconoclasmo.
E-compós, Brasília, v.12, n.2, maio/ago, 2009
LÉVI-STRAUSS. Claude. Antropologia estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

LATOUR, Bruno. O que é iconoclash? Ou, há um mundo além das imagens? Horizonte Antropológicos, ano 14, n.29, jan/junho 2008.

MACHADO, Arlindo. O quarto iconoclasmo e outros ensaios hereges. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2001

NOVAIS, Sylvia Caiuby. Imagem e ciências sociais: trajetória de uma relação
difícil. In: Vários autores. Imagem conhecimento. Campinas: Papirus, 2009.

PARENTE, André. Imagem máquina. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.

VIRILIO, Paul. Guerra e cinema. São Paulo: Página Aberta, 1993.

Como vai seu mundo? autoconstrução pessoal e construção de políticas periféricas

por José Douglas dos Santos Silva

Tenho mais de 20 anos como morador de Jandira, cidade de nome feminino, origem Tupi. Localizada a Oeste da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) conta com uma população oficial de 116.045 mil, distribuído em 17 km² (SEADE, 2015). Constituída à beira de uma estrada de ferro, que oficialmente comemora anualmente a chegada do pioneiro – fundador que com sua família adentrou em lugar que nada tinha. Um imigrante, branco, europeu, que como registra o mito de origem, à custa de muito trabalho, comprou terras, e depois de anos conquistou nome de rua, praça, escola, bem como outros europeus que por lá chegaram no início do século XX. Algo distinto, de muitos mineiros, paraibanos, piauienses, baianos, alagoanos, cearenses, pernambucanos e outros tantos de fora que chegaram no final do século XX, mas nunca ganharam o mesmo prestígio, nome de rua, busto na praça. Esses foram corriqueiramente associados com as mazelas, ao atraso da cidade e inseridos em um processo de subalternização cotidiana.

Desse cenário social proponho intercalar a minha própria experiência como filho de migrante nordestino, oriundo de uma geração periférica do final dos anos de 1980 que vivenciou diversas expressões de violência, sobretudo a violência homicida. Proponho um exercício nada ortodoxo que, em parte, demanda uma auto-etnografia, ou seja, a trajetória de vida do pesquisador como recurso para possíveis objetivações de processos sociais amplos (Reda, 2007 e Fiori, 2014). Interesso-me em compor um entrecruzamento com uma nova etnografia, recurso que se afasta do exotismo e do empirismo puro e se ancora em processos teóricos e metodológicos. Uma possibilidade de “constante confronto com dados novos, com novas experiências de campo, resultando em uma invariável bricolagem intelectual” (Peirano, 2014).

O eixo analítico é estudar a cidade e sua população, a partir das narrativas em torno de dor e sofrimento, noções compreendidas ora na chave da tristeza e da privação, ora na do sacrifício que eleva uma espécie de sujeito “guerreiro”, “um sobrevivente”, alguém que atravessa e lida constantemente com adversidades e se produz politicamente. (Das, 1999) Concebo a violência, não simplesmente como algo excepcional, esporádico, mas como movimento que percorre o cotidiano, processo que produz reverberação, elemento que produz efetividade e capilaridade no dia a dia. Portanto, a estratégia analítica é recompor “histórias minúsculas” (Foucault, 2005) de infância, adolescência e fase adulta do próprio pesquisador, de interlocutores, e material artístico periférico. Histórias protagonizadas por vozes difusas no cotidiano, mas relembradas, como uma possível afirmação de existência periférica, algo como testemunho e perplexidade, diante de uma dúvida como Buther (2004) aborda – quem é esse “eu” que segue “sem você”, recorrente em contextos de conflitos. Portanto, a expectativa é de uma incursão sociológica (antropológica, política) a partir de fragmentos, de narrativas de situações individuais e coletivas que ganham profundidade analítica nos cotidianos, quando se fala de dor e sofrimento que, via de regra, compõe esses testemunhos.

Para tanto são questões iniciais de pesquisa: Como essa violência homicida é assimilada no cotidiano periférico de uma cidade e de seus moradores ao longo de anos e décadas? Quais expressões de luto são válidas e que tipo de luto cai no esquecimento? Quais implicações ou desdobramentos repercutem no cotidiano periférico da cidade, a partir do que (Das, 1999) cunhou como “eventos críticos”? Que sujeito político se constrói atravessado por um longo período de violência homicida e de um cenário contemporâneo de “encarceramento em massa” (Wacquant, 2001, Garland,2008) Qual espécie de aprendizado se produz a partir da dor e do sofrimento em suas múltiplas expressões? Como o tempo trabalha nessas relações?

Bibliografia

BUTHER, Judith. Precarious life: the power of mourning and violence. London. Verso. 2004.

DAS, Veena. 1999. Fronteiras, Violência e o trabalho do tempo: alguns temas wittgensteinianos. RBCS. Vol. 14. N.40. junho de 1999. F

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FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade. São Paulo. Martins Fontes. 2005.

_________________ Segurança, território e população. São Paulo. Martins Fontes. 2008.

FIORE, Mauricio. Uso de drogas: substâncias, sujeitos e eventos. Tese de Doutorado em Ciências Sociais. Unicamp. 2013.

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MAUSS, Marcel. Manual de etnografia. Fundo de Cultura econômica Buenos Aires. 2006.

PEIRANO, M. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 20, n. 42, p. 377-391, jul./dez. 2014

REDA, M.M. “Autoethografy as research methodology” Academic Exchange Quartely, 2007.

VAZ, Sérgio. Literatura, pão e poesia. São Paulo. Editora Global. 2010.

WACQUANT, Loic. As prisões da miséria. Rio de Janeiro. Editora Jorge Zahar. 2001.

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WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência 2010: Anatomia dos homicídios no Brasil. São Paulo. Instituto SANGARI. 2010.

_______________________. Mapa da Violência 2012. Os novos padrões da violência homicida no Brasil. São Paulo. Instituto SANGARI. 2012.

ZALUAR, Alba. Oito temas para o debate: violência e segurança pública. Sociologia, problemas e práticas. Nº 38. p. 19-24.Rio de Janeiro. 2002. Disponível em: http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/spp/n38/n38a02.pdf. Acesso dia 05/09/2011.

 Monas e bandidas: conjugalidades, improvisos e narrativas de travestis privadas de liberdade

por Vanessa Sander Serra e Meira

 

“Quem anda no trilho é trem de ferro,  sou água que corre entre pedras:  liberdade caça jeito”.

(Manoel de Barros)

O presente projeto visa investigar as experiências de travestis privadas de liberdade, partindo de uma etnografia no Presídio de São Joaquim de Bicas – localizado na região metropolitana de Belo Horizonte – em sua recém-inaugurada “ala LGBT”, onde residem os egressos homossexuais, as travestis e seus companheiros. Pretende-se observar como as intersecções entre o encarceramento e o trânsito de gênero são aspectos relevantes em um contexto de hipervalorização da masculinidade e controle dos corpos e condutas.

As tramas etnográficas que me levaram ao presídio de São Joaquim de Bicas iniciaram-se durante minha pesquisa de mestrado (SANDER, 2015), realizada entre travestis que se prostituem em Belo Horizonte, focada em analisar as relações intergeracionais entre travestis veteranas e novatas – tias e novinhas –, que constroem redes complexas que envolvem, simultaneamente, cuidado, agenciamento, parentesco e exploração. Através de suas narrativas e conflitos, percebi que o encarceramento era parte frequente de suas trajetórias e dos contextos mais amplos de marginalização e vulnerabilidade em que estão inseridas. As distinções nas experiências de privação de liberdade apareciam, inclusive, como elementos importantes na diferenciação e no sentimento de pertencimento das gerações.

As tias referiam-se às atuais condições do sistema prisional mineiro, com alas separadas para travestis, como uma “colônia de férias”, se comparadas às suas experiências de encarceramento antes da inauguração desses espaços e, principalmente, durante a ditadura militar. Nesse período, o qual as veteranas chamam de “tempo do gilete na boca”, muitas travestis escondiam giletes na gengiva para se defenderem da violência nas ruas e da diária repressão da polícia. Quando eram detidas por um longo período, nas Delegacias de Vadiagem, elas se cortavam e prometiam passar o próprio sangue em outros presos e policiais, ameaçando contaminá-los com o vírus do HIV; como forma de barganhar por libertação. Essa perspectiva temporal entre o “tempo do gilete na boca” e o de agora, aparentemente mais afeito aos direitos, permite que se chame as instituições penitenciárias de “colônia de férias”. O que diz bastante não apenas sobre as mudanças nas prisões, mas sobre a própria “dureza” das ruas, que incorporam e recriam em sua dinâmica eixos de desigualdade e diferenciação e os riscos do mundo do crime[1].

A bibliografia antropológica sobre os contextos e vivências de travestis prostitutas no Brasil (BENEDETTI, 2005; KULICK, 1998; PELÚCIO, 2009) revela trajetórias frequentes de rompimento com a família de origem, evasão escolar, dificuldade de acesso ao mercado de trabalho formal e engajamento no trabalho sexual. Ainda que o exercício da prostituição no Brasil não configure enquanto crime, segundo a legislação penal vigente, a indução e o aliciamento do trabalho sexual, bem como a manutenção de estabelecimentos em que ele ocorra possuem tipificação penal.

Como afirma Nestor Perlongher (2008), há uma capacidade exacerbada nos circuitos marginais da prostituição de o mesmo indivíduo participar alternativa ou erraticamente de diversos mercados e redes, dentre elas algumas fortemente sujeitas à criminalização, como a cafetinagem, o comércio informal de drogas e a venda e aplicação de silicone industrial, substância usada nas práticas de bombação[2].

Ainda que a pista[3] seja atravessada por estas práticas ilícitas, que ajudam a configurar o seu ordenamento, isso não significa que ela as integre completamente e sem conflitos. A cafetinagem –   graças ao seu papel atuante e ramificado na organização das ruas, no cuidado no espaço doméstico e na construção dos corpos – envolve relações, de certa forma, mais legitimadas pelas travestis como redes de suporte social. No entanto, o processo de aproximação das atividades circunscritas ao tráfico de drogas nunca opera sem tensão ou crise, nem é generalizado nas pistas de Belo Horizonte. Certa vez, após conversar brevemente com uma travesti sobre sua experiência de encarceramento, fui interpelada por Amanda, outra interlocutora de minha pesquisa, que me alertou sobre a interação com as bandidas.

 “ – Cuidado eim, mapô[4]. Não se mete com bandida. Essa daí saiu da cadeia não tem nem um ano. Ela é danadinha pra roubar os clientes. Dá o beijo dentro do carro e a maricona não dá nem notícia que ela levou a carteira. Dissimulada! Confere se seu celular ainda está aí [risos]. Acho isso um absurdo, mas acho que ela apela pra isso porque foi pras drogas, né? Aí fica louca quando não tem dinheiro pra comprar. Graças a deus eu tenho família que me aceita, sabe? Então nunca tive que mexer com nada disso. Graças a eles que eu não virei esses marginal que vive mês aqui mês no presídio.”

A fala de Amanda apresenta uma lógica que mistura a pista, o crime e a cadeia em um mesmo fluxo. Por isso o problema da justificação é invertido: ela sente a necessidade de encontrar justificativas para o fato de não se envolver no crime, buscando elementos de diferenciação das bandidas, como a boa relação que mantêm com a família de origem (FELTRAN, 2007). O termo bandida era usado frequentemente como referência às travestis que roubavam os clientes. Essa categoria parece ser construída não apenas pelas práticas de roubos e furtos, mas também pela convivência próxima que muitas mantinham com traficantes e por causa de passagens pelo sistema prisional.

Durante o trabalho de campo, percebi que articulações contingentes de marcadores tidos como de gênero, raça, classe e geração, são bastante evidentes e atravessam as experiências das travestis, delineando quais serão as mais tops, as belíssimas e europeias, bem como as que serão travecões, penosas e bandidas, aquelas desprestigiadas seja por seu estilo de transformação corporal, idade, posses materiais ou conduta. As relações entre essas clivagens internas contextuais da pista demonstram a complexidade dos diagramas de hierarquias, conflitos e associações nesses territórios, invariavelmente nomeadas – subjetivadas – por esses marcadores.

A possibilidade de obter um maior poder aquisitivo imediato através da prostituição – e consequentemente a realização de modificações corporais mais ou menos valorizadas – parece estar relacionada principalmente a dois fatores: raça e geração. A dinâmica da pista coloca alguns corpos em evidência enquanto outros são relegados as esquinas mais escuras e aos pontos menos movimentados. Vemos que elementos estéticos relacionados a branquitude, como pele clara, cabelos lisos, longos e loiros, olhos claros e “traços finos”; bem como a juventude são muito valorizados tanto dentro do grupo quanto pelos clientes, numa relação clara com padrões de beleza mais gerais que também se materializam nesse “universo”. Dessa forma, as travestis negras e/ou mais velhas raramente ocupam a posição de tops, aquelas consideradas mais bonitas, que cobram mais caro por seus programas e conseguem maior retorno financeiro com o trabalho sexual. Por causa dos recursos muitas vezes insuficientes e imprevisíveis vindos da prostituição, muitas travestis passam a recorrer a estratégias ilícitas de ganhos financeiros: seja no agenciamento das mais jovens, no comércio de drogas ou na prática de roubos e furtos. E esses são aspectos que as tornam mais facilmente capturáveis pelo sistema penitenciário.

Uma vez que as travestis tornaram-se personagens comuns dos noticiários policiais brasileiros, por já estarem marginalizadas em decorrência de todas as situações cotidianas carregadas de discriminação e violência a que estão sujeitas, elas acabam sendo associadas a uma imagem pública de delinquência. Segundo Michel Foucault (2008), a construção da delinquência está associada à técnica disciplinar, que cria um modelo de conduta, medindo indivíduos singulares para colocá-los em uma linha estatística de periculosidade e culpabilidade. Trata-se de mostrar que o infrator existia antes do crime, criando justificativas morais para seu aprisionamento. Vemos que para além da raça e da pobreza como marcadores altamente capturados pelo sistema prisional, o trânsito de gênero também se mostra importante para delinear a seletividade penal (ZAFFARONI, 2003).

As prisões são configurações sociais nas quais se confrontam negação e demanda por direitos. Também são espaços de re(invenção) de formas de sobrevivência e socialização, de conflitos, negociações e resistências. Dentro das instituições prisionais masculinas, a constante construção do feminino nos corpos das travestis é negociada em um contexto bastante específico, que possui seus códigos próprios e limitações particulares em relação ao trânsito de gênero.

INTERSECCIONALIDADE

As tensões inerentes à busca por atributos tidos como femininos no cárcere, um contexto de extrema valorização da virilidade e disciplinamento dos corpos, mostra como as vivências das travestis são experienciadas na prática e submetidas às suas contingências, e por isso é frutífero pensá-las sob o prisma da performatividade, conforme proposto por Judith Butler (2001). Butler afirma que os sujeitos são reiteradamente generificados através da performatividade: a repetição de gestos, atos, discursos e expressões que reforçam e corroboram normas de gênero contextuais e construções localizadas de feminino e masculino.

No entanto, como sugere Butler (2004) a performatividade de gênero não pode ser teorizada separadamente da prática forçosa e reiterativa de outros regimes regulatórios e marcadores sociais da diferença, como raça, classe e sexualidade, que ficam bastante evidentes nas experiências de encarceramento das travestis. Assim, faz-se necessário adotar a perspectiva da interseccionalidade (BRAH e PHOENIX, 2004), ou seja, pensar que os eixos de diferenciação raciais, econômicos ou de gênero e sexualidade não são campos distintos de experiência, ilhados uns dos outros ou simplesmente justapostos, mas que existem concretamente eme através de relações com cada um dos outros. Segundo Anne Mc Clintock, esses eixos de diferenciação

(…) não são distintos reinos da experiência, que existem em esplêndido isolamento entre si; nem podem ser simplesmente encaixados retrospectivamente como peças de um Lego. Não, eles existem em relação entre si e através dessa relação – ainda que de modos contraditórios e em conflito. (McClintock, 2010, p.19)

A análise interseccional implica em tomar a noção de diferença como categoria analítica que se articula com experiências, relações sociais, subjetividades e identidades pensadas como enunciados contingentes. A ideia de diferença não é tomada em si mesma, de modo essencial, mas como categoria que remete a sujeitos sempre em processo. A partir dessa perspectiva, é possível analisar as vivências das travestis que experienciam o encarceramento, pensando na contingencialidade das experiências, na capilaridade do poder e na articulação dos eixos de diferenciação. Assim, as diferenças observadas e relatadas em campo podem ser entendidas como trajetórias históricas e circunstâncias materiais e políticas (BRAH, 2006) que produzem as condições de possibilidade para a vivência do trânsito de gênero nas instituições prisionais.

O esquema analítico de Avtar Brah não privilegia um nível macro ou micro de análise, mas, ao contrário, busca articular relações sociais, subjetividades e posições de sujeito com o intuito de compreender a dinâmica de poder da diferenciação social sem ofuscar a dimensão da agência e da reflexividade. Entendendo que o encarceramento de travestis escancara efeitos complexos e variados de uma população marcada por eixos de diferenciação (econômicos, raciais, políticos, culturais, subjetivos, psíquicos e experienciais), que se intersectam em contextos históricos específicos, a perspectiva interseccional se torna fundamental para a análise.

O constante aprisionamento de travestis é, em grande medida, consequência das abordagens cada vez mais punitivas diante das práticas socialmente circunscritas em torno do tráfico. As atividades relacionadas ao comércio de drogas tornaram-se crimes hediondos na década de 1990, e o judiciário apostou em práticas restritivas de liberdade em detrimento do investimento em outras alternativas penais, o que levou a um enorme crescimento da população carcerária brasileira. Dessa forma, a presença de travestis nos presídios masculinos tornou-se cada vez mais comum e trouxe diversas tensões para a administração prisional. Era – e em muitos lugares ainda é – comum que elas tivessem seus cabelos cortados, fossem coagidas a servir de mulas[5] para o tráfico de drogas e fossem vítimas frequentes de violência sexual.

Conforme proposto por Veena Das (2008), é importante pensar sobre os processos de criminalização e as experiências no cárcere considerando-os como pertencentes às margens do estado, ainda que esse seja um dos lugares onde ele se faz mais presente: na privação de liberdade. Para tanto, é necessário distanciar-se da consolidada imagem do estado como forma administrativa de organização política racionalizada que tende a debilitar-se ou desarticular-se ao longo de suas margens territoriais e sociais. Em câmbio, é preciso aproximar-se de uma estratégia analítica e descritiva que reflete sobre como as práticas políticas da vida em áreas marginais moldam as práticas políticas de regulação e disciplinamento que constituem aquilo que chamamos “o estado”. Essa antropologia das margens oferece uma perspectiva única para compreender o estado, não porque captura práticas exóticas, mas porque sugere que as ditas margens são supostos necessários do funcionamento estatal.

CONJUGALIDADES

As travestis parecem ter se tornado personagens icônicas do universo prisionalmasculino brasileiro. Nos relatos clássicos sobre essas instituições, como o livro de Drauzio Varela “Estação Carandiru” (1999), abundam referências sobre sua presença. Ainda que suas vivências sejam frequentemente negadas, invisibilizadas ou mesmo punidas pela administração carcerária – sendo consideradas marginais, contingentes ou mesmo expressões de uma moralidade degenerada – elas demonstram como o gênero parece sempre escapar os limites espaciais e linguísticos que usamos para capturá-lo.

“O negro Jeremias diz que nos velhos tempos a cadeia era diferente:
– Tinha ‘menas’ travesti e mais bicha. Diz que uma delas, de cabelos compridos, conhecida como índia, fazia as unhas do diretor, o temido coronel linha-dura. – Era linda. Quando a irmã dela vinha na visita, não díferenciava da outra. Quando os mais novos lhe pedem, e só nesta condição, seu Jeremias, sobrevivente de muitos conflitos, dá o seguinte conselho:

– Se você vem na galeria e vem uma bicha vindo, é melhor passar de cabeça baixa. Já vi muita morte porque foram contar que o cara olhou para a bicha do outro.
Tem razão, os maridos são possessivos. Mulher de cadeia casada jamais circula pela galeria, e para descer ao pátio, só acompanhada. Para casar, o marido deve estar em boa situação financeira, pois a ele cabe o sustento da casa; a ela, a submissão ao provedor. De forma velada, alguns condenam, mas a união é respeitada socialmente.  Nos estudos que conduzimos, não bastava perguntar se mantinham relações homossexuais. Era preciso acrescentar: e com mulher de cadeia? Antes das visitas íntimas, a homossexualidade era prolífica. Uma vez, dei o resultado positivo do teste de AIDS para um ladrão desdentado e perguntei-lhe se havia usado droga injetável no passado:

– Nunca. Peguei esse barato comendo bunda de cadeia. Muita bunda, doutor!
Travestis solteiros movimentam-se sem perigo no meio da malandragem, desde que saibam se colocar no devido lugar. Em caso de desavença com algum ladrão, podem se defender verbalmente, como fazem as mulheres, porém jamais chegar às vias de fato como os homens. Uma vez, dois traficantes do Oito foram ao Cinco cobrar uma dívida e se desentenderam com os devedores e os amigos destes. Foram esfaqueados. Entre os agressores, um travesti. Problema grave: o pessoal do Oito não deixava por menos, queria invadir o Cinco. Conflito de sérias proporções – são pavilhões apinhados – contornado pela esperteza e persistência do diretor do pavilhão. A revolta do Oito não era por causa da agressão, corriqueira em cobrança de dívida, mas pelo fato de um travesti haver participado. Zacarias, um asmático em crise, faxineiro do Oito, queixou-se ao seu Valdir, funcionário do Cinco:
– Olha a que ponto chegou a cadeia, hoje em dia até puto dá facada em ladrão!”

(Estação Carandiru: 1999)

A partir da narrativa de Drauzio Varella, realizada com base em dez anos de convivência com os ocupantes da Casa de Detenção de São Paulo, vemos como nesse contexto a lógica de separação entre identidade de gênero e orientação sexual não faz muito sentido: homossexual, travesti ou mulher de cadeia são categorias identitárias fluidas que podem não ser mutuamente excludentes. Os maridos das travestis aparecem como figuras limiares, e suas relações conjugais precisam seguir um código bastante generificado para conquistar alguma legitimidade e aceitação. Isso indica que esses casamentos, realizados no interior das instituições penais, buscam seguir certos papéis de gênero, no sentido de atribuir aos envolvidos funções consideradas tipicamente femininas ou masculinas, que circunscrevem seus lugares dentro da relação e das redes mais amplas do presídio. Por isso, é comum que aos maridos caiba o sustento e a proteção, enquanto as travestis são orientadas para o cuidado e para as tarefas domésticas. Pode-se dizer que, em certa medida, o caráter fortemente generificado da punição e dos códigos de conduta da instituição ao mesmo tempo reflete, recria e aprofunda a estrutura generificada da sociedade mais ampla.

Nesse sistema altamente marcado por designações de lugares e práticas tidas como masculinas ou femininas, as travestis são rotineiramente levadas a ocupar posições de prazer e perigo (VANCE, 1984). No mundo hierárquico e viril da prisão masculina elas podem ser, paradoxalmente, o alvo preferencial da violência ou do afeto e desejo. Essa configuração foi evidenciada nas falas de Rebeca, interlocutora de minha pesquisa de mestrado. Quando questionada sobre sua relação com os outros detentos durante a passagem pelo Presídio de Vespasiano, focou o relato em dois aspectos principais: na violência e nas marcas físicas deixadas por dois espancamentos que sofreu na instituição e nas relações conjugais que estabeleceu durante o período de reclusão.

“Conheci meu atual marido sabe onde? Lá dentro. Faz 6 anos que estamos juntos e nunca encontrei alguém que gostasse realmente de mim como ele. Ele não teve vergonha de me assumir e eu ainda consegui tirar ele do crime. É interessante lá dentro porque entre os detentos acho que existe menos preconceito e discriminação pra relacionar com a gente, sabe? Porque eles mesmos passam por isso na sociedade por serem presidiários. Acho que isso faz eles entenderem mais a gente. São mais sinceros, não iludem, se jogam realmente na relação e te veem como ser humano. Muitos dos homens que aqui fora poderiam ter preconceito, lá dentro mantêm caso com a gente, ficam apaixonados e tudo. Até as bichas mais feias e judiadas arrumam marido lá.”

A partir da narrativa de Rebeca, podemos pensar a prisão como um espaço produtivo de relações (PADOVANI, 2015), considerando como os vínculos tecidos a partir da experiência prisional modificam as trajetórias de vida das pessoas que tramam redes de conjugalidade e afeto durante a privação de liberdade. Nesse sentido, é importante observar os discursos e práticas que apontam a experiência prisional como redimensionadora tanto da gramática das relações do contexto da rua como das normas de gênero.

Presídio de São Joaquim de Bicas

Com a pressão dos movimentos sociais de travestis e transexuais[6], criou-se na região metropolitana de Belo Horizonte a primeira ala específica para travestis e homossexuais em uma instituição prisional masculina, no Presídio de São Joaquim de Bicas (PRSJB II), onde pretende-se realizar a incursão etnográfica dessa pesquisa. O PRSJB II possui 754 vagas, mas, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça ele abriga 1740 pessoas, dentre elas os 36 egressos que ocupam a “Ala LGBT” ou “Ala gay”, como é conhecida, onde residem os presos que se declararam homossexuais, as travestis e seus companheiros.

Tenho a intenção de realizar, pelo menos, doze meses de trabalho de campo durante o doutorado, fazendo visitas semanais a unidade penitenciária e também realizando interlocuções com travestis que já passaram pela experiência do aprisionamento. Assim, será possível observar os fluxos e circulações que atravessam a prisão e a rua. O encarceramento de travestis não implica em um hiato social ou um rompimento total de suas relações, mas uma reorganização das mesmas. Dessa forma, é possível pensar a cadeia fora do paradigma goffmaniano da “instituição total”, caracterizada pelo completo isolamento, e observar que existem eixos lógicos de continuidade intra e extra-muros (CUNHA, 2002). As prisões possibilitam certa circulação de informações e a constituição de redes de relações, fofocas e controles que as atravessam chegando, inclusive, as pistas. Diante disso, é possível adotar uma perspectiva mais sistêmica, que incorpora dinâmicas sociais externas ao espaço físico da prisão: considerando relações de poder e interpelando a funcionalidade estratégica do encarceramento e suas transformações (GODOI, 2011).

LINKS PARA O DEBATE SOBRE A RUPTURA

  1. Trajetórias de travestis prostitutas e sistema prisional

É necessário pontuar, de início, que discutir as trajetórias de travestis prostitutas, em especial aquelas com passagens pelo sistema prisional, não era tema simples, mesmo antes da atual conjuntura de ruptura governamental e de projeto político. Os últimos anos foram, inclusive, pautados por uma política de combate ao tráfico de drogas que gerou um aumento enorme da população carcerária (de acordo com dados da Infopen, entre 2004 e 2014, a população carcerária brasileira aumentou 80% em números absolutos, saindo de 336.400 presos para 607.700.)

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/06/23/prisoes-aumentam-e-brasil-tem-4-maior-populacao-carceraria-do-mundo.htm(“Prisões aumentam e Brasil tem 4ª maior população carcerária do mundo”)

http://dsantin.blogspot.com.br/2013/04/retrato-da-populacao-carceraria.html(“Retrato da população carcerária”)

As travestis e transexuais com quem convivi durante o trabalho de campo tampouco se sentiam contempladas pelas tímidas políticas LGBT empreendidas pelo governo do PT. Diria que, de uma forma geral, elas mantém uma postura muito crítica em relação ao Estado: constantemente evidenciam como as instituições estatais atravessam suas vidas apenas em situações de controle e violência. E aqui se referem, principalmente, às políticas de HIV-Aids, à abordagem policial e à seletividade do sistema penitenciário.

http://www.otempo.com.br/cidades/viol%C3%AAncia-e-exclus%C3%A3o-causam-morte-precoce-de-travestis-1.1009090(“Violência e exclusão causam morte precoce de travestis”)

http://www.super.abril.com.br/comportamento/o-recorde-que-nao-queremos-ter-somos-o-pais-que-mais-mata-transexuais (“O recorde que não queremos ter: somos o país que mais mata transexuais”)

2. Aprofundamento dessas violências e a radicalização de um discurso conservador

No entanto, ainda que estejamos tratando de contextos historicamente precários, tipicamente marcados pela violência e exclusão, os poucos dias de “governo” liderados pelo PMDB mostram a possibilidade de aprofundamento dessas violências e a radicalização de um discurso conservador que afeta as travestis de maneiras diversas e articuladas. As perspectivas geradas pela nomeação do novo ministro da Justiça (agora também responsável pela pasta de direitos humanos) são desfavoráveis. Alexandre de Moraes é conhecido por sua gestão como secretário de Justiça do governo de São Paulo, quando as mortes registradas como confronto com a PM subiram 61%. Além disso, a nomeação de políticos ligados a certos grupos religiosos conservadores, legitima e revela como novos atores buscam a política institucional justamente para erodir valores democráticos, como o tratamento igual aos indivíduos independentemente do que os singulariza e a promoção, no ambiente escolar, do respeito à pluralidade e diversidade.

http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/05/alexandre-de-moraes-ministro-da-justica-do-governo-temer.html(“Alexandre de Moraes, ministro da justiça do governo Temer”)

http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2015/11/apos-polemica-envolvendo-enem-camara-debate-ideologia-de-genero.html (“Após polêmica envolvendo Enem, câmara debate ideologia de gênero”)

 

BIBLIOGRAFIA

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ZAFFARONI, E.R. Em busca das penas perdidas: a perda de legitimidade do sistema penal. Ed. Revan, Rio de Janeiro, 1999.

 

 NOTAS AO TEXTO

 

[1]     Conforme proposto por Gabriel Feltran, a expressão “mundo do crime”, ou simplesmente “o crime”, é tomada aqui em sua acepção nativa. Essa noção, na perspectiva das travestis em Belo Horizonte, designa o conjunto de códigos e sociabilidades estabelecidas em torno dos negócios ilícitos do narcotráfico, e dos roubos e furtos de clientes.

[2]     ‘Bombação’ se refere às aplicações clandestinas de silicone industrial realizadas para melhoramentos estéticos, nos quadris, nádegas e seios, conforme a vontade de cada travesti. A profissional que realiza esse serviço é chamada de bombadeira.

[3]     Termo que designa área de prostituição.

[4]     Significa mulher. As travestis adotam uma série de termos vindos do ioruba-nagô, compondo um conjunto de expressões e gírias conhecidas como bajubá ou pajubá. O bajubá é definido por elas como sendo um dialeto oriundo dos espaços sagrados das religiões afro-brasileiras.

[5]     ‘Mulas’ são as pessoas designadas pelo tráfico para transportar drogas dentro do próprio corpo.

[6]     Ainda que a construção das ‘Alas LGBT’s’ nos presídios mineiros tenha sido pauta dos movimentos sociais, o discurso da administração prisional sobre sua criação vai muito menos num sentido de garantia de direitos humanos do que numa vontade de gerir, num sentindo foucaultiano, aquela população, que descrevem como causadora de desordem: com corpos sexualizados que causam desejos e conflitos incontroláveis.

Gênero e sexualidade nas práticas de sexo pago por webcam

por Lorena R P Caminhas

A presente pesquisa objetiva estudar mulheres que oferecem o serviço de sexo pago via webcam[1], buscando compreender como determinadas gramáticas morais acerca de gênero e sexualidade estão presentes nessa atividade e de que modo esses sujeitos dialogam com essas normatividades – como seria possível articular as possibilidades de incorporar tais gramáticas e, ao mesmo tempo, se desvincular de suas determinações. Para tanto, serão investigados os processos de atuação (o agir que se ancora em determinados discursos normativos) e as justificações elencadas para conferir coerência à ação.

A questão que subjaz esse estudo dialoga diretamente com as discussões teóricas acerca de gênero e sexualidade: contemporaneamente, considera-se que gênero e sexualidade são construtos socioculturais, que se edificam e se mantêm através da reiteração de determinadas práticas ancoradas em enunciados normativos (BUTLER, 2002, 2007). A relação entre discurso e ação é dialética, na medida em que as ações corroboram os enunciados e os enunciados são a base para o agir. Essa configuração do gênero e da sexualidade é fruto de uma gramática moral que cria um interior e um exterior: dentro está o conjunto de normas que vão sancionar os corpos e os sujeitos que compõem o espectro de inteligibilidade e fora estão situados os abjetos, aqueles que vão constituir o oposto das possibilidades de ser/estar em gênero e sexualidade. O exterior é a possibilidade de criação da própria lei: para a consolidação de uma norma existe a edificação daquilo que é prescrito como seu oposto.

As exemplificações dessa discussão são feitas, em sua maioria, a partir da abordagem das vidas de homossexuais, transexuais e travestis[2], uma vez que eles subvertem a própria normatividade e estão posicionados no exterior constitutivo (são casos limites). Essa pesquisa possui como um objetivo adjacente questionar em que medida sujeitos que estão inseridos nas gramáticas de gênero e sexualidade (por exemplo, mulheres heterossexuais) também dialogam com as construções externas à moralidade, buscando constituir-se como sujeitos coerentes. Tal discussão amplia o espectro de abordagem da temática, revelando que o dentro e o foras das gramáticas de gênero e sexualidade também são instâncias acessadas na construção de indivíduos considerados a priori coerentes[3].

Outra importante questão que colabora na compreensão dos sujeitos em estudo e de sua problemática central são as políticas de sexualidade. Elas configuram um campo de disputas, instituindo modos específicos de desigualdades e de prescrições. A título de exemplificação das questões em jogo neste projeto, destaca-se as escalas de avaliação das práticas sexuais (RUBIN, 1985), as quais irão fundamentar um enquadramento punitivo e controles formais e informais. Tal escala estabiliza e naturaliza as práticas permitidas e valorizadas, compensando os sujeitos que se enquadram em suas diretrizes, e as imorais e estigmatizadas, providenciando penalidades para os indivíduos transgressores. A produção de um regime da sexualidade procura controlar as experiências eróticas, fazendo com que matrizes de poder as intersectem e as sedimentem. Em seu diálogo com gênero, a sexualidade é perpassada por padrões institucionais/culturais que direcionam ambas as esferas, criando uma gramática de atuação.

As moralidades de gênero e as políticas da sexualidade vão compor o espectro de atuação das camgirls, oferecendo a elas um conjunto de normatividades com as quais será preciso estabelecer um diálogo. A pergunta de pesquisa pretende se inserir exatamente nessa tensão, discutindo de que modo as mulheres no interior dessa atividade desempenham o gênero e mobilizam sua sexualidade em um ambiente pleno de moralidades, que possibilita, ao mesmo tempo, passividade e agência. Através de suas atuações elas estão aderindo e transformando as próprias normas.

No presente estudo ainda se destacam dois âmbitos constitutivos: os mercados do sexo e os mundos midiatizados. Os mercados são conceituados por Laura Augustín (2000, 2007) como campos onde se estabelecem a venda e compra de sexo, prática situada em contextos econômicos, sociais, culturais e históricos específicos e, por isso, caracterizados por ambiguidades e tensões. Eles englobam uma miríade de estabelecimentos/produtos – como bordeis, linhas telefônicas eróticas, casas de massagem, saunas, revistas e filmes de sexo, cinemas eróticos, sexo na internet – e de atividades – algumas promovem o contato físico e outras a estimulação sexual indireta; podem possuir maior ou menor flexibilidade de horários/locais de trabalho; podem oferecer maior ou menor espaço para negociação com os clientes. Os sujeitos envolvidos nessas indústrias devem estar em condições de barganhar as práticas sexuais com os clientes, encenar uma apresentação de si e seus atributos, e transitar entre diferentes papeis (o que pode borrar ou reforçar as fronteiras de gênero e de desejo sexual).

Os mercados do sexo possuem uma vertente midiática, que contribuiu para a expansão e diversificação do entretenimento adulto (BERNSTEIN, 2007), proporcionando a oferta de novos serviços (AUGUSTÍN, 2000), tais como: fotos e vídeos pornográficos que podem ser vistos em mídias analógicas como a televisão e digitais como na internet, serviços de tele sexo, sexo via internet (que abriga desde sexo pago/gratuito por webcam a chats eróticos), anúncios de acompanhantes ou de massagistas em jornais e sites da internet.Por meio dessa vertente essas indústrias vão passar a se integrar em um ambiente ético e moral conformado no contexto de midiatização.

A partir deste ponto entra em destaque a atuação dos mundos mediatizados, que colaboram na construção da problemática de pesquisa. Em primeira instância, é preciso definir o processo de midiatização: “reformulações sócio-tecnológicas de passagem dos processos mediáticos à condição de processualidades interacional de referência” (BRAGA, 2007, p.142).Destarte, duas questões se destacam: as transformações sociais em relação com tecnologias de comunicação (as mídias) e a transformação dos processos de interação simbólica (comunicação). A midiatização consiste na ascensão de processos interacionais que se valem de recursos tecnológicos/midiáticos, estabelecendo os media como espaços de interlocução singulares. Os dispositivos midiáticos passam a ser uma instância fundamental na organização das trocas, redirecionando-as e redesenhando-as, colaborando com a construção da realidade social.

A midiatização é um conceito que busca ampliar a compreensão da atuação dos media nos espaços sociais, tentando discutir as implicações desse fenômeno para a democracia e para a sociedade civil, para as relações sociais, dentro dos processos de reconhecimento, em relação às práticas políticas (institucionais e hodiernas). Desse modo, ele aponta para as dimensões morais e éticas desses dispositivos, tanto no que se refere às representações da alteridade, quanto no que diz respeito de estar em face do outro.

Essa retomada do processo de midiatização enfatiza a necessidade de compreender os media para além de seus aspectos tecnológicos, colocando em relevo as configurações dos “episódios comunicacionais”[4] (BRAGA, 2012) que vão estar imbricados em gramáticas morais que informam areflexão e a ação. Nesse sentido, o conceito normativo de “distância apropriada” (SILVERSTONE, 2002) passa a ser a baliza a partir da qual se analisa as relações estabelecidas entre sujeitos e processos comunicativos. Em geral, o que se destaca nessanoção é a atuação do par distância e proximidade, que revelam uma dupla função dos media: eles separam ao mesmo tempo que conectam. Assim, eles criam uma proximidade ou um distanciamento que pode ser espacial (diferença de localização geográfica) e moral (defasagem que se apresenta no modo de consideração do outro como sujeito digno de respeito e reconhecimento).

Essas questões são particularmente importantes para a presente pesquisa, uma vez que se trata de práticas eróticas acontecendo por meio de uma interação mediada por computador. Elas alertam para a necessidade de ter atenção para a composição moral dos espaços midiáticos nos quais determinados atores e ações estão inseridos, o que colabora para formatar os papéis/posições que eles irão assumir. Ao invés de tratar a internet como uma tecnologia que possui determinadas características técnicas que, por pressuposto, contribui para a interação entre sujeitos, coloca-se como questão em que medida esse lócus, enquanto espaço social, está imbricado e ajuda a formatar/fomentar determinadas diretrizes morais em um contexto de midiatização.

Links para discussão sobre a Ruptura:

Abaixo seguem alguns links que ajudam a fundamentar a importância de pensar processo de midiatização, e suas consequência éticas e morais para a representação (em sentido simbólico e político) dos sujeitos (principalmente os que estão posicionados em minorias) e para a situação de estar em face do outro por meio da mídia (como esses discursos e essas imagens passam a figurar no meio social a partir da apreensão de uma audiência). Essa discussão ajuda a contextualizar, sobretudo, a importância dos media em estabelecer e manter determinadas moralidades, construindo um espaço social que pode reforçar prejuízos e desrespeitos (ou como ampliar a discussão pública e promover o reconhecimento). Em um momento no qual assume um governo de cunho conservador, que possui respaldo de algumas das maiores empresas de mídia do Brasil, essas questões são ainda mais salientes e significativas.

  1. Marcela Temer como modelo de mulher possível na política institucional brasileira:

http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/bela-recatada-e-do-lar

(Marcela Temer: bela, recatada e do lar)

http://diariogaucho.clicrbs.com.br/rs/dia-a-dia/noticia/2016/05/alem-da-primeira-dama-mulheres-de-tres-ministros-chamam-a-atencao-pela-beleza-5800930.html

(Além da primeira-dama, mulheres de três ministros chamam a atenção pela beleza)

http://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/pela-primeira-vez-em-37-anos-ministerio-nao-tera-mulheres-c9b59phya7wbbfyf3jpqs5jk6

(Pela primeira vez em 37 anos, ministério não terá mulheres)

http://www.cartacapital.com.br/politica/bela-recatada-e-do-lar-materia-da-veja-e-tao-1792

(Bela, recatada e do lar: matéria da “Veja” é tão 1792)

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/04/160418_marydelpriore_entrevista_marcella_temer_np

(Crítica a “bela, recatada e do lar” é intolerante com o Brasil “invisível”, diz historiadora)

http://extra.globo.com/noticias/brasil/mulher-de-ministro-do-turismo-posa-em-frente-ao-congresso-sou-primeira-dama-mais-bonita-do-governo-19163977.html

(Mulher de ministro do turismo posa em frente ao congresso: “Sou a primeira-dama mais bonita do governo)

2. Mudanças de enquadramento nas notícias de economia no atual governo Temer:

Para ampliar um pouco mais o espectro de compreensão sobre a importância de discussão das moralidades e do papel dos meios de comunicação, seleciono abaixo as mudanças de enquadramento nas notícias de economia no atual governo Temer:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/05/dolar-alto-deixa-brasil-barato-para-estrangeiros-e-atrai-turistas.html

(Dólar alto deixa Brasil “barato” para estrangeiros e atrai turistas – 15/05/2016)

http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/09/entenda-os-efeitos-do-dolar-r-4-e-razoes-da-alta-da-moeda.html

(Entenda os efeitos do dólar a R$ 4 e as razões da alta da moeda – 22/09/2015)

http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/09/23/dolar-mais-alto-deixa-o-brasileiro-mais-pobre-veja-quem-ganha-e-quem-perde.htm

(Dólar mais alto deixa o brasileiro mais pobre; veja quem ganha e quem perde – 23/09/2015).

 

Referências Bibliográficas:

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BERNSTEIN, E. Temporarily yours: intimacy, authenticity and the commerce of sex. London: Universityof Chicago Press, 2007.

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Notas do texto

 

[1]Inicialmente serão acessados os principais sites brasileiros que reúnem os perfis das camgirls (cameraprive.com, camerahot.com e sweetcam.com). As mulheres que comporão o corpus da investigação serão selecionadas por região: preferencialmente serão as alocadas em São Paulo; se necessário serão abarcadas as de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

[2]Essa asserção baseia-se nas obras de Judith Butler (2002, 2004).

[3]É preciso deixar claro que as camgirls são sujeitos submetidos também às apreciações sociais que são feitas aos indivíduos situados nos mercados do sexo, e que elas vão dialogar com as normatividades de gênero e sexualidade a partir desse lugar. Essa especificidade será abordada no trabalho de modo a edificar o contexto no qual as ações e os discursos são produzidos.

[4]É preciso destacar que a comunicação não é um processo pleno de garantias de efetivação; ao contrário, é contingente e tentativo, exigindo um esforço dos parceiros na interação social.