Entre “geração”, “academia” e “movimento”: Uma etnografia sobre os processos de formação e atuação dos grupos de juventude LGBT nas universidades

por Stephanie Pereira de Lima

 

O Encontro Nacional Universitário da Diversidade Sexual (ENUDS), que foi meu objeto de pesquisa no mestrado, surge em 2003, no 49º CONUNE1, em Goiânia (GO). Nesse Congresso, ocorreu um caso considerado como homofobia, envolvendo alguns participantes do evento (ENUDS, 2013). Ao ser exigido um posicionamento formal da UNE, a organização foi paralelamente acusada de negligenciar as demandas e necessidades dos alunos GLBTs2. Este é considerado o mito de origem das movimentações para a construção do ENUDS.

Entre a primeira edição do Encontro até a IV edição, em 2006, segundo as fontes recolhidas3, o ENUDS contou com a organização e participação exclusiva de poucos grupos universitários (de universidades públicas), e, em sua maioria, de homens gays – dentre os quais alguns eram afiliados a partidos políticos de esquerda4. Já em 2007, além de contar com o maior número de participantes de todas as edições até aquele momento (aproximadamente 150 pessoas), há, pela primeira vez, a presença de nomes acadêmicos e pessoas que refletiam sobre o movimento GLBT e outros movimentos sociais.

A partir das últimas oito edições, houve um crescimento contínuo no número de grupos e de participantes (variando entre 450 a 700). Além disso, a busca por maior diálogo entre a academia e a militância se tornou o principal foco dos Encontros. Essas transformações ocorreram a fim de proporcionar a comunicação entre diferentes militantes e acadêmicos, e também promover reflexões sobre as práticas, projetos e atuações da “militância da diversidade sexual” nas universidades.

Tendo em vista este breve histórico da construção do ENUDS, vê-se que o entrelaçamento dos campos político e acadêmico é uma de suas características. Esta reflexão se instiga ao se resgatar a noção de campo de Bourdieu (2003), que se define como o conjunto de ações, arranjos e relações entre os atores sociais sob uma normatização, onde a mesma se cria e se transforma, dialeticamente, por seus atores e por outros campos. Esta dinâmica que o conceito de campo oferece para a análise é relevante para compreender tanto as relações estabelecidas dentro do ENUDS, bem como a relação do ENUDS com os demais atores políticos – como o movimento estudantil, o movimento LGBT, grupos de pesquisa, grupos de diversidade universitários.

Destarte, as contribuições de Ruth Cardoso (1987) oferecem uma continuidade no caminho teórico de eixo do trabalho cuja diretriz está em olhar o movimento social e o Estado como entes não unitários ou homogêneos. Por conseguinte, o projeto se apoia na compilação de estudos realizados por Carrara (2013) e Facchini et al. (2013) para aprofundar a compreensão sobre o campo científico no qual o ENUDS se situa. Ainda, em complementaridade, o projeto traz a abordagem de Aguião (2014) como referência para a desconstrução da imagem do Estado e de movimento social como entes unitários. Conforme Facchini (2009) nos mostra, o movimento social não pode ser pensado dissociado dos espaços e sujeitos que o constituem, e, sobretudo, do contexto histórico onde estão inseridos.

Com um cenário da crescente Participação Social (HEREDIA; LEITE LOPES, 2014), a partir de 2003, os movimentos que se apresentam à esfera pública constroem uma pauta de diálogo mais especializada com o Estado. A transformação na forma de organização e atuação do movimento homossexual, por exemplo, para o modelo institucionalizado e profissionalizado do movimento LGBT, reorganiza a compreensão de “políticas sexuais” e desses sujeitos como sujeitos de direitos (AGUIÃO, 2014). Ao mesmo tempo, também criou múltiplas formas de atuação e expressão das identidades sexuais e de gênero, como, por exemplo, as Paradas do Orgulho LGBT (CARRARA, 2013; FRANÇA, 2006).

Posteriormente, ao longo desse processo histórico, muitos movimentos, em sua maioria formado por jovens, vêm produzindo diferentes modelos de participação5, reivindicando lugar em outros espaços que não apenas aqueles legitimados pelo Estado e pelos movimentos mais tradicionais. Nesse sentido, a categoria juventude aparece como mais um marcador social dos sujeitos políticos desses espaços, e, como analisam Facchini e França (2011), a diferenciação política está colocada no âmbito da formação – o que estaria em processo – e da geração.

Olhar os espaços e a trajetória dos ENUDS suscitou questionamentos sobre o sujeito político que dá vida ao Encontro. Assim, para este projeto, a expansão do campo empírico para os coletivos e grupos que estão nas universidades, como KIU! (UFBA), Diversitas (UFF), Pontes (UFRRJ) e Frente LGBT (USP) permite uma ampliação analítica em conformidade ao objetivo geral de pesquisa, que pretende analisar os processos de formação e atuação dos grupos de juventude LGBT ali inseridos como sujeitos políticos.

Deste modo, pretende-se pensar certos pontos como: i) Analisar como são acionadas, nos debates entre “gerações”, as compreensões das estratégias políticas no fazer e fazer-se política; ii) Analisar táticas e estratégias de organização e performances do fazer político, envolvendo replicação de formatos deste mesmo “fazer” entre movimentos sociais, bem como as disputas internas dos próprios movimentos; iii) Seguir o trânsito de categorias entre o meio acadêmico e o movimento social na atuação dos militantes do ENUDS e alguns grupos e coletivos que permitem observar melhor a relação entre os atores políticos, sendo eles o movimento estudantil, o movimento LGBT, e grupos e núcleos de pesquisa de professores.

Assim, o projeto de pesquisa busca analisar quais formas de fazer ou fazer-se política e estratégias emergem de jovens sujeitos políticos, os quais se constituem em oposição geracional ao movimento LGBT, em diálogo com o movimento estudantil, grupos de pesquisa e grupos universitários no contexto da universidade. Não obstante a isto, a contribuição do trabalho para o campo se dá ao pretender gerar reflexões complementares aos estudos de “políticas sexuais”6 no Brasil, focalizando a relação entre movimento LGBT, juventude e espaços universitários.

Notas

1 O CONUNE é um encontro estudantil bienal, organizado pela UNE

2 Utilizo GLBT como referência aos acontecimentos anteriores ao ano de 2008, visto que a partir da Conferência Nacional GLBT, foi acordada a mudança de ordem das letras “G” e “L” na sigla, estabelecendo a referência LGBT (BRASIL, 2008).

3 Fontes: (ENUDS, 2005); (ENUDS, 2007); (ENUDS, 2008); (ENUDS, 2013).

4 Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU).

5 Dentro do debate acerca das novas formas de atuação política, vêm surgindo novos estudos sócio antropológicos envolvendo o tema. Como exemplo, observação e pesquisa sobre a Marcha das Vadias (GOMES; SORJ, 2014); feminismo vegano (CARMO, 2012) e grupos universitários (FALCÃO, 2014).

6 Utilizo esse conceito em consonância à uma gama de trabalhos desenvolvidos no âmbito do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, vide Vianna e Lacerda (2004), Carrara (2010), entre outros.

 

Bibliografia:

AGUIÃO, Silvia. Fazer-se no Estado: uma etnografia sobre o processo de constituição dos “LGBT” como sujeitos de direitos no Brasil contemporâneo. Tese de Doutorado em Ciências Sociais. Campinas, IFCH-Unicamp, 2014.

BOURDIEU, Pierre. O Poder simbólico. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil. 2003. CARDOSO, Ruth C. L. Movimentos Sociais Na América Latina. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v.3, (1). São Paulo. 1987.

CARMO, Íris. “Viva o feminismo vegano!”: gastropolíticas e convenções de gênero, sexualidade e espécie entre feministas jovens. Dissertação de mestrado. Salvador – UFBA, 2012.

CARRARA, Sérgio. Políticas e direitos sexuais no Brasil contemporâneo. Bagoas: Revista de Estudos Gays, Natal, n. 5, 2010.

           . Négocier les frontières, négocier aux frontières: l’anthropologie et le processus de “citoyennisation” de l’homosexualité au Brésil. Brésil(s). Sciences humaines et sociales, v. 4, pp.103-123, 2013.

FACCHINI, Regina; DANILIAUSKAS, Marcelo; PILON, Ana Cláudia. “Políticas sexuais e produção de conhecimento no Brasil: situando estudos sobre sexualidade e suas conexões”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 44, n. 1, pp. 161-193, 2013.

             .    Entre compassos e descompassos: um olhar para o “campo” e para a “arena” do movimento LGBT brasileiro. Bagoas: Revista de Estudos, 2009.

FALCÃO, T. H. O. Disputando sentidos em rede: convenções e práticas sobre política numa comunidade universitária no Facebook. (Em andamento). 2014.

FRANÇA, Isadora Lins. Cercas e pontes. O movimento GLBT e o mercado GLS na cidade de São Paulo. Dissertação de mestrado, Antropologia Social, USP, 2006.

HEREDIA, Beatriz; LOPES LEITE, José Sergio (org.). Movimentos sociais e esfera pública: o mundo da participação: burocracias, confrontos, aprendizados inesperados. Rio de Janeiro: CBAE, 2014.

VIANNA, Adriana; LACERDA, Paula. Direitos e políticas sexuais no Brasil: O panorama atual. Rio de Janeiro: CLAM/IMS/CEPESQ, 2004.

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Sobre José Maurício Arruti

Historiador (UFF) e doutor em Antropologia (Museu Nacional- UFRJ), foi pesquisador do CEBRAP (2003-2006) e professor da PUC-Rio (2007-2011), enquanto também coordenava projetos de pesquisa, comunicação e advocacy da sociedade civil junto a quilombos (Koinonia 1999-2009). Atualmente é prof. do Departamento de Antropologia da UNICAMP, onde faz parte do Coletivo Quilombola e coordena o Centro de Pesquisa em Etnologia Indígena (CPEI). Meus textos: http://unicamp.academia.edu/JoséMaurícioArruti

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