Domila do Prado Pazzini – Estudo de famílias transnacionas no Brasil

por Domila Pazzini

Em 2013 minha mãe pegou o dinheiro das férias dela (como enfermeira do SAMU) e foi conhecer os Estados Unidos. Foi a primeira vez que ela saiu do país. No início, quando planejava o que fazer com o dinheiro, ela cogitou alugar uma casa na praia e levar seus dois irmãos e quatro filhos – nunca fizemos isso, seria a primeira vez que muitos de nós conheceríamos o mar (eu mesma conheci depois que entrei na universidade financiada por grupo de pesquisa). No entanto, isso seria férias para qualquer um, menos para ela que ia ficar de empregada de todos. Sugeri que ela fosse fazer uma viagem sozinha. Como ela tem um ex-namorado que mora em Orlando, resolveu tirar passaporte e visto e viajar sem saber nada de inglês. Esse interesse está diretamente associado a possibilidade que as pessoas mais pobres do país estão tendo de viajar[1].

Ela ficou encantada com a cidade e colocou na cabeça que ia morar lá, e ia levar todos os seus filhos porque “o Brasil não tem jeito”. Voltou para o Brasil, vendeu carro, casa e, no final do ano, estava em Orlando novamente. Se matriculou em uma escola de idiomas, que além de aprender o inglês teria o vínculo como estudante no país. Arrumou vários trabalhos informais, uma vez que a documentação não permitia exercer legalmente nenhuma atividade remunerada. Com o tempo ficou pesado pagar a escola de idiomas e ela saiu. Nesse tempo conheceu Vance, um americano que trabalhava como cozinheiro em um restaurante de comida mexicana, começaram a namorar e foram morar juntos. O tempo foi passando e foi chegando próximo ao vencimento do visto, então eles resolveram se casar. Em abril de 2014 casaram-se e seus amigos fizeram uma festa para eles. Foi o primeiro casamento da minha mãe. Aí começou o processo para solicitar a documentação. Quem tem dinheiro contrata um advogado que resolve em pouco tempo. Quem não tem, no caso de minha mãe, faz o processo sozinha, correndo o risco de enviar documentos errados e ter que refazer tudo. Uma hora é problema com o sponsor[2], ou a renda do sponsor, outra é que está faltando documento, e por aí vai. É isso que ela tem feito desde quando se casou até hoje, continuando a trabalhar informalmente. Em maio de 2016, seu marido morreu devido à uma complicação de um AVC. Agora ela está esperando sair uma resposta da sua última solicitação, e, provavelmente, o encaminhamento será diferente.

***

Retomei essa história porque foi a partir dos dramas da minha mãe, como imigrante nos EUA, que veio o interesse em estudar o tema. Para além da documentação e do trabalho informal, tem a questão cultural, por exemplo, o idioma que ela teve que aprender no dia-a-dia com certa dificuldade por “já estar velha”, além de como amor e ajuda aparece no casamento. Sendo que a ajuda é a possibilidade de oferecer o próprio documento que permite a pessoa permanecer no país legalmente.

A transnacionalização se apresenta como um dos efeitos da globalização e acaba interferindo em todos os Estados do mundo. A noção de família transnacional é baseada na fluidez entre os países, uma interação contínua de influência dos dois países em questão. Ela aparece como uma nova forma de compreender a noção de família.

A família transnacional aparece como uma reprodução cultural híbrida. Ela se constitui com o fluxo de intercâmbio e interdependência material e afetiva por seus membros. Para ser considerada família transnacional não tem a ruptura dos laços familiares, as pessoas se mantém em contato pelos meios de comunicação, sobretudo as mídias sociais. Estratégias são criadas para que o convívio, a proximidade, o vínculo se mantenha, apesar da distância física. O espaço dessa família também é transnacional e constituído da hibridez de elementos de, pelo menos, dois países. Nesse novo espaço social há uma reformulação de modelos de famílias, formas de maternidade e paternidade, novas formas de viver os afetos, papéis e construção de vínculos devido à distância, etc. Há uma busca pela manutenção dos vínculos familiares tanto econômico quanto afetivo e de gestão do cuidado na nova estrutura transnacional. Sendo que conversas pela internet, telefonemas, presentes e dinheiro aparecem como meios de expressar o afeto. (CERDA, 2014)

É a partir de questões como essas (documentos, trabalho, diferenças culturais, amor e ajuda) que penso no desenvolvimento deste projeto partindo de conceitos de família transnacional e casamentos transnacionais. No entanto, meu interesse é desenvolver essa pesquisa com imigrantes que vem para o Brasil. Por isso, quero pensar e desenvolver um pouco sobre os fluxos atual de imigrantes no Brasil, bem como as próprias leis de migração.

Como parte exploratória de pesquisa, estou tentando estabelecer contato com pessoas que estão mais próximas de mim. Por enquanto consegui conversar com Julio, que conheci na rádio, mas o intuito é ir para outros lugares e conversar com mais pessoas para conseguir delimitar um objeto de pesquisa:

Julio Aponto Te é de Guiné Bissau e está envolvido com projetos culturais que fazem intercâmbio de Guiné-Bissau e Brasil (como o Projeto Guine-Bissau Além Fronteiras). Ele tem um programa na Rádio UFSCar chamado Africanidades. Devido a esses projetos ele tem conversado com muitas pessoas que, de alguma forma, imigraram dos países africanos para o Brasil. Além daqueles que vem com a documentação normal de imigrante, Julio apontou mais quatro formas de ficar no Brasil: refugiado, convênios para estudantes e religiosos, e casamentos pré-arranjados.

Referência Bibliográfica

CERDA, J. Las familias transnacionales. In. Revista Espacios Transnacionales No.2 Enero-Junio 2014, Reletran.

Reportagens para discussão

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/08/150819_racismo_imigrantes_jp_rm

http://g1.globo.com/ac/acre/noticia/2015/05/imigrantes-dizem-sofrer-ameacas-e-extorsao-para-poder-chegar-ao-brasil.html

Notas ao texto

[1] http://www.turismo.gov.br/ultimas-noticias/244-sobe-intencao-de-viagens-da-classe-c.html ; http://www.diariodocomercio.com.br/noticia.php?tit=classe_c_viaja_cada_vez_mais_para_o_exterior&id=139021

[2] Sponsor é a pessoa responsável pelo imigrante. http://www.immihelp.com/affidavit-of-support/sponsor-responsibilities-obligations.html

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Sobre José Maurício Arruti

Historiador (UFF) e doutor em Antropologia (Museu Nacional- UFRJ), foi pesquisador do CEBRAP (2003-2006) e professor da PUC-Rio (2007-2011), enquanto também coordenava projetos de pesquisa, comunicação e advocacy da sociedade civil junto a quilombos (Koinonia 1999-2009). Atualmente é prof. do Departamento de Antropologia da UNICAMP, onde faz parte do Coletivo Quilombola e coordena o Centro de Pesquisa em Etnologia Indígena (CPEI). Meus textos: http://unicamp.academia.edu/JoséMaurícioArruti

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