Vida estudantil e mundo do trabalho – jovens de cursinhos comunitários da periferia

 

por Josuel Stenio da Paixão Ribeiro

Em busca de superar a condição desfavorável imposta a jovens que cresceram na “periferia da periferia” da cidade de Guarulhos(SP), um cursinho comunitário foi idealizado por dois professores de uma escola pública da região. A proposta ganhou corpo quando se agregou a sonhos de diversos jovens. No dia 14 de janeiro de 2002 foi lavrada a ata de fundação do Cursinho Comunitário Pimentas.

Desde o seu surgimento, o Cursinho já tornou possível a centenas de estudantes carentes o ingresso em algumas das melhores universidades do país, como a USP, UNICAMP, UNESP, UFSCar, UNIFESP, entre outras. Em seus treze anos de existência, o Cursinho Comunitário Pimentas já assistiu aproximadamente 600 jovens a ingressar em universidades, metade deles em universidades públicas. Ainda é relevante ressaltar que daqueles que ingressaram em universidades privadas – de alto renome como PUC, Mackenzie e FGV – quase em sua totalidade possuem bolsas integrais.

O Cursinho Comunitário Pimentas surgiu em decorrência da luta pela inclusão de jovens de baixa renda nas Universidades. Contudo, surgiram novas demandas que foram abarcadas ao longo da formação desse cursinho que logo se transformou em um “movimento social complexo”, mobilizando o protagonismo da “Marcha pela Consciência Negra”, que ocorre na região central da cidade de Guarulhos(SP) todos os anos, no dia 21 de Novembro. Na mesma direção, criou o Sarau Cultural que é realizado anualmente e conta com a participação de vários artistas da região. Em janeiro de 2008, ocorreu a “Primeira Conferência Municipal de Políticas Públicas para Juventude”, durante a qual o cursinho demonstrou sua participação massiva nas questões referentes à juventude na Cidade de Guarulhos(SP), elegeu três Conselheiros (dentre dez vagas possíveis) para compor o recém criado Conselho da Juventude, no Município de Guarulhos(SP). Por fim, o mesmo grupo teve um papel significativo ao mobilizar a opinião pública para a criação do campus da UNIFESP – Guarulhos(SP) .

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Pierre Bourdieu nasceu em agosto de 1930, em Denguin, interior da França, Faleceu em janeiro de 2002 aos setenta e um anos, em Paris, capital francesa. Filho de camponeses, trilhou os caminhos mais improváveis para atingir o sucesso acadêmico e graduar-se em Filosofia no ano de 1954 na Escola Normal Superior. Passou por todos os níveis da docência até alcançar o magistério superior no mais renomado instituto de ensino superior da França, o Collège de Frace. Escreveu trinta e sete livros e mais de quatrocentos artigos.

Sua teoria busca compreender as estruturas sociais e como elas sustentam a hierarquia de um ou mais grupos sociais em relação a outros. Procurando evidenciar e sustentar suas descobertas teóricas, de modo rigoroso, ele desenvolve diversos conceitos que serão apropriados por sociólogos e antropólogos de todo o mundo.

Conceitos como o de Capital Cultural, Capital Econômico e Capital Social que compõem o Capital Simbólico, além dos conceitos como de Campo, Espaço Social, Habitus e Violência Simbólica, entre outros, que, de alguma forma, podem aparecer de modo isolado, mesmo sendo interdependentes.

O capital simbólico pode ser compreendido como o conjunto de outras formas de capital, ou seja, a junção entre capital econômico, cultural e social. Assim, tudo aquilo que proporciona reconhecimento social, que proporciona vantagens nas relações sociais, de algum modo, contribui para a composição do capital simbólico.

Nesse sentido, o capital econômico engloba as propriedades (recursos financeiros) que o indivíduo possui, tais como, terras e cartas de crédito (recursos patrimoniais), que possam proporcionar rendas.

Já o capital cultural, engendra-se, ao longo do tempo, por meio do ensino-aprendizagem, de um modo sutil ou não, podendo ainda ser informal, transmitido pela família e pelo círculo social do indivíduo ou formalmente transmitido pelo sistema escolar que, ao longo do tempo, passa a ser um habitus[1].

Esse modelo de capital apresenta-se de três formas distintas e complementares, embora não exista uma obrigatoriedade de coexistência. A primeira, em estado objetivo, é caracterizada pelos bens culturais materiais como livros, máquinas, obras de arte e instrumentos diversos que, de algum modo, tenham potencialidade de proporcionar um conhecimento específico; o segundo está ligado ao estado incorporado, que corresponde ao modo de conduta e domínio das ações e regras sociais, concedendo-lhe uma vantagem sobre os demais ou uma condição de destaque como, por exemplo, o uso tido como adequado da linguagem ou do corpo; por fim, o estado institucionalizado, que nada mais é do que os títulos institucionais adquiridos ao longo da vida (Bourdieu, 1998).

Embora não seja uma regra, o capital cultural geralmente está associado ao capital econômico.

Ainda para compor o capital simbólico, temos o capital social que nada mais são além das conexões sociais estabelecidas como amizades, contatos de trabalho, familiares entre outros. Quanto mais renomado e mais valorizado esse capital pode ser, mais vantagens são possíveis dele auferir. Desse modo, devemos observar que as vantagens adquiridas com as correlações sociais também dependem da quantidade e da influência das conexões existentes que podem ser constituídas de modo (consciente, como um investimento) ou não (formando-se inconscientemente, sem pretensões).

A teoria e o método de Pierre Bourdieu demonstram-se de fundamental importância para a compreensão das sociedades complexas, tanto em um plano macroestrutural quanto em um microestrutural.

Desse modo, entendemos que é possível repensar a teoria/método de Bourdieu a partir da história dos alunos do “Cursinho Comunitário Pimentas” do bairro dos Pimentas. Localizado na periferia de Guarulhos, seus alunos também tinham suas esperanças frustradas pela imposição de suas condições sociais. No entanto, contrariando todas as perspectivas, conseguiram ascender às melhores universidades do Brasil.

Cabe investigar como foi a trajetória intelectual durante a graduação para aqueles que foram alunos do cursinho Pimentas, assim como, dimensionar o grau de dificuldade para a inserção ao mundo do trabalho depois de egressos da graduação.

Uma das preocupações desta pesquisa consiste em observar e identificar os motivos dos sucessos ou insucessos posteriores aos cursos de graduação dos alunos que cursaram seu pré-vestibular no cursinho comunitário Pimentas, podendo assim reconstruir o método de Bourdieu a partir de suas teorias.

Nota

[1] Desse modo “Habitus é então concebido como um sistema de esquemas individuais, socialmente constituído de disposições estruturadas (no social) e estruturantes (nas mentes), adquirido nas e pelas experiências práticas (em condições sociais específicas de existência), constantemente orientado para funções e ações do agir cotidiano”. (SETTON, 2002, p. 63)

Bibliografia

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___________; PASSERON, Jean-Claude. Os herdeiros: os estudantes e a cultura, Florianópolis, SC: ufsc, 2014.

BURAWOY, Michael. O marxismo encontra Bourdieu. Campinas /SP: Unicamp, 2013.

DUARTE, R. Pesquisa qualitativa: reflexões sobre o trabalho de campo. In: Cadernos de Pesquisa, São Paulo, nº 115, 2002, p.139-154.

 

MICELI, Sergio . Imagens negociadas-Retratos da elite brasileira (1920-1940). São Paulo: Cia. das Letras, 1996.

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SANTOS, Boaventura de Sousa. (1997) Uma concepção multicultural de Direitos Humanos. Lua Nova Revista de Cultura e Política. Governo e Direitos – CEDEC, n° 39.

SETTON, Maria da Graça Jacintho. A teoria do habitus em Pierre Bourdieu: uma leitura contemporânea. Revista Brasileira de Educação, nº 20, pp. 60-70, Maio/Jun/Jul/Ago, 2002.

SCHUMACHER, Aluísio Almeida. Reconstrução Pragmático-Formal da Racionalidade Comunicativa: Origem e Dificuldades. In. Clélia Aparecida Martins e José Geraldo Poker (Org).  O pensamento de Habermas em questão. Marília: Oficina Universítaria Unesp, 2008.

WACQUANT, Loïq J. D. Olegado Sociológico de Pierre Bourdieu: duas dimensões e uma nota pessoa. Revista de Sociologia e Política, nº 19, pp. 95-110, nov. 2002.

 

Para o debate sobre o Contexto de Ruptura

http://educacao.uol.com.br/noticias/agencia-estado/2016/05/23/governo-suspende-novas-vagas-do-pronatec-e-do-fies.htm

“Uma das vitrines da área social da gestão petista, programas de incentivo à educação e à profissionalização – como Pronatec, Prouni e Fies – não devem abrir novas vagas neste ano. São efeitos imediatos das medidas de contingenciamento previstas para o Ministério da Educação na gestão do presidente em exercício Michel Temer. A revisão é parte do que no novo governo se chama de “herança maldita” da administração da presidente afastada Dilma Rousseff.”

https://www.brasil247.com/pt/247/brasil/234162/Ap%C3%B3s-fala-de-Mercadante-Governo-recua-sobre-fim-de-Pronatec-e-Fies.htm

“Menos de 24 horas depois dos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo noticiarem que o Ministério da Educação poderia suspender novas vagas do Pronatec e do Fies, o ministro da Educação, Mendonça Filho, voltou atrás e soltou nota assegurando a manutenção dos programas.  O recuo aconteceu após reação do ex-ministro da pasta, Aloizio Mercadante, que questionou o corte.”

http://www.esquerdadiario.com.br/E-o-maior-corte-de-verbas-na-USP-UNESP-e-UNICAMP-em-7-anos-mas-os-estudantes-e-trabalhadores

“Histórico de cortes: a precarização não é de agora, é deliberada pelo governo do Estado de São Paulo há décadas! […] Trabalhadores e estudantes entram em luta nas estaduais paulistas sinalizando que não vão aceitar os cortes, e não vão pagar pela crise!”

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Sobre José Maurício Arruti

Historiador (UFF) e doutor em Antropologia (Museu Nacional- UFRJ), foi pesquisador do CEBRAP (2003-2006) e professor da PUC-Rio (2007-2011), enquanto também coordenava projetos de pesquisa, comunicação e advocacy da sociedade civil junto a quilombos (Koinonia 1999-2009). Atualmente é prof. do Departamento de Antropologia da UNICAMP, onde faz parte do Coletivo Quilombola e coordena o Centro de Pesquisa em Etnologia Indígena (CPEI). Meus textos: http://unicamp.academia.edu/JoséMaurícioArruti

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