Arte terrorismo

Por Caue Nunes

O objetivo é estudar as formas de iconofilia e de iconoclastia contemporâneas e investigar como essas simbologias se manifestam na ordem social. O dualismo iconofilia-iconoclastia movimenta uma série de conceitos antropológicos e semióticos que possibilitam uma vasta investigação no campo da antropologia da imagem. Nesse sentido, a tese inicial é que existe uma verdadeira guerra de imagens no mundo contemporâneo, agenciando afetos e ódios, condição que coloca a imagem em um lugar central das construções simbólicas. As imagens são ao mesmo tempo origem e destino do poder. A delimitação do objeto se construiu a partir da escolha de algumas obras de arte que tratam desse tema. “Em nenhum outro lugar, a não ser na arte contemporânea, há melhor laboratório, montado para tentar e testar a resistência de cada item que compõe o culto da imagem, da figura, da beleza, da mídia, do gênio.” (LATOUR, 2008, p.121)

As obras escolhidas são “Viagem ao Afeganistão”, livro fotográfico de Artur Omar e a exposição “Iconoclash”, coordenada por Bruno Latour. A primeira é o registro da destruição das estátuas de Buda feita pelo Talibã, no Afeganistão, em 2001. A segunda obra é “uma arqueologia do ódio e do fanatismo”, a partir da exposição de vários artistas que tem a iconoclastia como fonte de inspiração. Outros dualismos dialogam com o binômio iconofilia-iconoclastia, como imagem-palavra e verdade-falsidade, além de alguns conceitos como: meio, corpo, afetos, sonhos, potências do falso, fabulação, simbolismo. Por último, faz parte desse projeto a realização de um falso-documentário sobre um hipotético grupo terrorista iconoclasta que destrói imagens. “Por que as imagens provocam tanta paixão?” Foi a partir desta pergunta que Bruno Latour coordenou a exposição Iconoclash, “uma arqueologia do ódio e do fanatismo”. Essa é também a pergunta que deu origem a esse projeto.

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O que é iconoclastia? Uma primeira definição aponta para o sentimento de ódio à determinadas imagens e a ação de destruí-las. Os movimentos iconoclastas da história remetem uma origem religiosa, baseada em interpretações bíblicas originárias da tradição judaico-cristã (MACHADO, 2001). O autor identifica quatro movimentos iconoclastas, todos de origem religiosa, mas ressalta que o último movimento, que se iniciou no começo do Século XX possui características específicas, típicas da Modernidade.

Diferente dos três momentos anteriores, a iconoclastia contemporânea está instaurada muito mais no pensamento filosófico do que em atos concretos do cotidiano. Apesar de atos de destruição de imagens acontecerem com certa frequência, não há um movimento organizado como ocorria no passado. Os sentidos da iconoclastia podem ser compreendidos quando comparados à iconofilia, formando um dualismo, um par de opostos que se retroalimentam, constituindo uma relação dialética, quase como um moto perpétuo. Durante o Século XX as imagens passaram a povoar o imaginário das sociedades ocidentais em progressão geométrica, chegando ao ponto de ocupar todos os lugares da ordem social. Esse excesso de imagens provoca reações das mais diversas formas, incluindo o dualismo iconoclastiaiconofilia.

Esse projeto de pesquisa tem por objetivo investigar como se constrói o dualismo iconoclastia-iconofilia na sociedade contemporânea. A análise consiste em levantar as áreas em que esse dualismo aparece, além compreender como ele se manifesta. Outro objetivo é investigar como alguns pensadores refletem sobre isso, como Debord, Baudrillard, Fulchignoni, Latour e Arlindo Machado. Essa premissa inicial pressupõe a relação com outros dualismos que interpelam a discussão, a saber, os binômios imagem-escrita e verdade-falsidade. “A constatação geral é que todas as sociedades viveram no e pelo imaginário” (AUGÉ, 1998, p.15), fato que faz de toda guerra – inclusive a guerra de imagens – uma “guerra dos sonhos” na medida em que a disputa é coletivamente representada antes de se configurar na realidade propriamente dita. A questão gira em torno da construção imagética e da batalha pela hegemonia de sua circulação. De acordo com Augé, a antropologia é o campo de estudo mais adequado para realizar esse tipo de investigação, já que sempre se interessou pela construção simbólica da realidade, compreendendo como cada sociedade elabora suas representações, visuais ou não. “A tradição etnográfica ocidental interessou-se pelas imagens, pelas dos outros: por seus sonhos, suas alucinações, seus corpos possuídos” (Ibid. p. 12).

Considerar a imagem como objeto de estudo sempre foi uma das premissas da antropologia. Já Belting (2007) emprega a antropologia na sua acepção europeia, que não coincide com a etnologia, para estudar as imagens. Ele está interessado na relação entre imagem, corpo e meio, no sentido de identificar como as imagens “internas” e “externas” são reproduzidas na ordem social, interagindo com nossos corpos (corpo humano), mas também como elas circulam através de meios (tanto os mass media como formas de arte, de origem religiosa ou ritual). Belting está mais interessado em uma história das imagens do que na história dos meios, por isso a acepção antropológica. Resultados

 

Links e imagens para discussão sobre o contexto de Ruptura

Com 5 estrelas a menos, bandeira da logo de Temer foi usada na ditadura
http://oglobo.globo.com/brasil/com-5-estrelas-menos-bandeira-da-logo-de-temer-foiusada-na-ditadura-19318094
A Cultura é (novamente) degolada em tempos de ajuste fiscal – http://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/11/politica/1462998470_097192.html

 

Bibliografia

AUGÉ, Marc. A guerra dos sonhos. Campinas: Papirus, 1998

AUMONT, Jacques. Moderno? Porque o cinema se tornou a mais singular das
artes. Campinas: Papirus, 2008.

BAITELLO JR., Norval. A era da iconofagia. São Paulo: Hacker, 2005

_____________. O olho do furacão. A cultura da imagem e a crise da visibilidade. Centro interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia, 2001. Disponível em: http://www.cisc.org.br/portal/index.php/pt/biblioteca/viewcategory/7-baitello-juniornorval.html. Acesso em setembro de 2015.

BELTING, Hans. A imagem autêntica. Centro interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia, 2005. Disponível em:

http://www.cisc.org.br/portal/index.php/pt/biblioteca/viewdownload/11-beltinghans/37-a-imagem-autentica.html. Acesso em setembro de 2015.

____________. Antropologia da imagem. Lisboa: KKYM+EAUM, 2014.
BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D´Agua, 1981.
CLIFFORD, James Writing culture. Londres: University of California Press, 1986.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Lisboa: Edições Afrodite, 1972.

DEBRAY, R. Vida e morte da imagem: uma história do olhar no ocidente. Petrópolis: Ed. Vozes, 1993.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante da imagem. São Paulo: Editora 34, 2013.

FULCHIGNONI, Enrico. La civilisation de l’image. Paris: Payot, 1972
KLEIN, Alberto. Destruindo imagens: configurações midiáticas do iconoclasmo.
E-compós, Brasília, v.12, n.2, maio/ago, 2009
LÉVI-STRAUSS. Claude. Antropologia estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

LATOUR, Bruno. O que é iconoclash? Ou, há um mundo além das imagens? Horizonte Antropológicos, ano 14, n.29, jan/junho 2008.

MACHADO, Arlindo. O quarto iconoclasmo e outros ensaios hereges. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2001

NOVAIS, Sylvia Caiuby. Imagem e ciências sociais: trajetória de uma relação
difícil. In: Vários autores. Imagem conhecimento. Campinas: Papirus, 2009.

PARENTE, André. Imagem máquina. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.

VIRILIO, Paul. Guerra e cinema. São Paulo: Página Aberta, 1993.

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Sobre José Maurício Arruti

Historiador (UFF) e doutor em Antropologia (Museu Nacional- UFRJ), foi pesquisador do CEBRAP (2003-2006) e professor da PUC-Rio (2007-2011), enquanto também coordenava projetos de pesquisa, comunicação e advocacy da sociedade civil junto a quilombos (Koinonia 1999-2009). Atualmente é prof. do Departamento de Antropologia da UNICAMP, onde faz parte do Coletivo Quilombola e coordena o Centro de Pesquisa em Etnologia Indígena (CPEI). Meus textos: http://unicamp.academia.edu/JoséMaurícioArruti

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