Gênero e sexualidade nas práticas de sexo pago por webcam

por Lorena R P Caminhas

A presente pesquisa objetiva estudar mulheres que oferecem o serviço de sexo pago via webcam[1], buscando compreender como determinadas gramáticas morais acerca de gênero e sexualidade estão presentes nessa atividade e de que modo esses sujeitos dialogam com essas normatividades – como seria possível articular as possibilidades de incorporar tais gramáticas e, ao mesmo tempo, se desvincular de suas determinações. Para tanto, serão investigados os processos de atuação (o agir que se ancora em determinados discursos normativos) e as justificações elencadas para conferir coerência à ação.

A questão que subjaz esse estudo dialoga diretamente com as discussões teóricas acerca de gênero e sexualidade: contemporaneamente, considera-se que gênero e sexualidade são construtos socioculturais, que se edificam e se mantêm através da reiteração de determinadas práticas ancoradas em enunciados normativos (BUTLER, 2002, 2007). A relação entre discurso e ação é dialética, na medida em que as ações corroboram os enunciados e os enunciados são a base para o agir. Essa configuração do gênero e da sexualidade é fruto de uma gramática moral que cria um interior e um exterior: dentro está o conjunto de normas que vão sancionar os corpos e os sujeitos que compõem o espectro de inteligibilidade e fora estão situados os abjetos, aqueles que vão constituir o oposto das possibilidades de ser/estar em gênero e sexualidade. O exterior é a possibilidade de criação da própria lei: para a consolidação de uma norma existe a edificação daquilo que é prescrito como seu oposto.

As exemplificações dessa discussão são feitas, em sua maioria, a partir da abordagem das vidas de homossexuais, transexuais e travestis[2], uma vez que eles subvertem a própria normatividade e estão posicionados no exterior constitutivo (são casos limites). Essa pesquisa possui como um objetivo adjacente questionar em que medida sujeitos que estão inseridos nas gramáticas de gênero e sexualidade (por exemplo, mulheres heterossexuais) também dialogam com as construções externas à moralidade, buscando constituir-se como sujeitos coerentes. Tal discussão amplia o espectro de abordagem da temática, revelando que o dentro e o foras das gramáticas de gênero e sexualidade também são instâncias acessadas na construção de indivíduos considerados a priori coerentes[3].

Outra importante questão que colabora na compreensão dos sujeitos em estudo e de sua problemática central são as políticas de sexualidade. Elas configuram um campo de disputas, instituindo modos específicos de desigualdades e de prescrições. A título de exemplificação das questões em jogo neste projeto, destaca-se as escalas de avaliação das práticas sexuais (RUBIN, 1985), as quais irão fundamentar um enquadramento punitivo e controles formais e informais. Tal escala estabiliza e naturaliza as práticas permitidas e valorizadas, compensando os sujeitos que se enquadram em suas diretrizes, e as imorais e estigmatizadas, providenciando penalidades para os indivíduos transgressores. A produção de um regime da sexualidade procura controlar as experiências eróticas, fazendo com que matrizes de poder as intersectem e as sedimentem. Em seu diálogo com gênero, a sexualidade é perpassada por padrões institucionais/culturais que direcionam ambas as esferas, criando uma gramática de atuação.

As moralidades de gênero e as políticas da sexualidade vão compor o espectro de atuação das camgirls, oferecendo a elas um conjunto de normatividades com as quais será preciso estabelecer um diálogo. A pergunta de pesquisa pretende se inserir exatamente nessa tensão, discutindo de que modo as mulheres no interior dessa atividade desempenham o gênero e mobilizam sua sexualidade em um ambiente pleno de moralidades, que possibilita, ao mesmo tempo, passividade e agência. Através de suas atuações elas estão aderindo e transformando as próprias normas.

No presente estudo ainda se destacam dois âmbitos constitutivos: os mercados do sexo e os mundos midiatizados. Os mercados são conceituados por Laura Augustín (2000, 2007) como campos onde se estabelecem a venda e compra de sexo, prática situada em contextos econômicos, sociais, culturais e históricos específicos e, por isso, caracterizados por ambiguidades e tensões. Eles englobam uma miríade de estabelecimentos/produtos – como bordeis, linhas telefônicas eróticas, casas de massagem, saunas, revistas e filmes de sexo, cinemas eróticos, sexo na internet – e de atividades – algumas promovem o contato físico e outras a estimulação sexual indireta; podem possuir maior ou menor flexibilidade de horários/locais de trabalho; podem oferecer maior ou menor espaço para negociação com os clientes. Os sujeitos envolvidos nessas indústrias devem estar em condições de barganhar as práticas sexuais com os clientes, encenar uma apresentação de si e seus atributos, e transitar entre diferentes papeis (o que pode borrar ou reforçar as fronteiras de gênero e de desejo sexual).

Os mercados do sexo possuem uma vertente midiática, que contribuiu para a expansão e diversificação do entretenimento adulto (BERNSTEIN, 2007), proporcionando a oferta de novos serviços (AUGUSTÍN, 2000), tais como: fotos e vídeos pornográficos que podem ser vistos em mídias analógicas como a televisão e digitais como na internet, serviços de tele sexo, sexo via internet (que abriga desde sexo pago/gratuito por webcam a chats eróticos), anúncios de acompanhantes ou de massagistas em jornais e sites da internet.Por meio dessa vertente essas indústrias vão passar a se integrar em um ambiente ético e moral conformado no contexto de midiatização.

A partir deste ponto entra em destaque a atuação dos mundos mediatizados, que colaboram na construção da problemática de pesquisa. Em primeira instância, é preciso definir o processo de midiatização: “reformulações sócio-tecnológicas de passagem dos processos mediáticos à condição de processualidades interacional de referência” (BRAGA, 2007, p.142).Destarte, duas questões se destacam: as transformações sociais em relação com tecnologias de comunicação (as mídias) e a transformação dos processos de interação simbólica (comunicação). A midiatização consiste na ascensão de processos interacionais que se valem de recursos tecnológicos/midiáticos, estabelecendo os media como espaços de interlocução singulares. Os dispositivos midiáticos passam a ser uma instância fundamental na organização das trocas, redirecionando-as e redesenhando-as, colaborando com a construção da realidade social.

A midiatização é um conceito que busca ampliar a compreensão da atuação dos media nos espaços sociais, tentando discutir as implicações desse fenômeno para a democracia e para a sociedade civil, para as relações sociais, dentro dos processos de reconhecimento, em relação às práticas políticas (institucionais e hodiernas). Desse modo, ele aponta para as dimensões morais e éticas desses dispositivos, tanto no que se refere às representações da alteridade, quanto no que diz respeito de estar em face do outro.

Essa retomada do processo de midiatização enfatiza a necessidade de compreender os media para além de seus aspectos tecnológicos, colocando em relevo as configurações dos “episódios comunicacionais”[4] (BRAGA, 2012) que vão estar imbricados em gramáticas morais que informam areflexão e a ação. Nesse sentido, o conceito normativo de “distância apropriada” (SILVERSTONE, 2002) passa a ser a baliza a partir da qual se analisa as relações estabelecidas entre sujeitos e processos comunicativos. Em geral, o que se destaca nessanoção é a atuação do par distância e proximidade, que revelam uma dupla função dos media: eles separam ao mesmo tempo que conectam. Assim, eles criam uma proximidade ou um distanciamento que pode ser espacial (diferença de localização geográfica) e moral (defasagem que se apresenta no modo de consideração do outro como sujeito digno de respeito e reconhecimento).

Essas questões são particularmente importantes para a presente pesquisa, uma vez que se trata de práticas eróticas acontecendo por meio de uma interação mediada por computador. Elas alertam para a necessidade de ter atenção para a composição moral dos espaços midiáticos nos quais determinados atores e ações estão inseridos, o que colabora para formatar os papéis/posições que eles irão assumir. Ao invés de tratar a internet como uma tecnologia que possui determinadas características técnicas que, por pressuposto, contribui para a interação entre sujeitos, coloca-se como questão em que medida esse lócus, enquanto espaço social, está imbricado e ajuda a formatar/fomentar determinadas diretrizes morais em um contexto de midiatização.

Links para discussão sobre a Ruptura:

Abaixo seguem alguns links que ajudam a fundamentar a importância de pensar processo de midiatização, e suas consequência éticas e morais para a representação (em sentido simbólico e político) dos sujeitos (principalmente os que estão posicionados em minorias) e para a situação de estar em face do outro por meio da mídia (como esses discursos e essas imagens passam a figurar no meio social a partir da apreensão de uma audiência). Essa discussão ajuda a contextualizar, sobretudo, a importância dos media em estabelecer e manter determinadas moralidades, construindo um espaço social que pode reforçar prejuízos e desrespeitos (ou como ampliar a discussão pública e promover o reconhecimento). Em um momento no qual assume um governo de cunho conservador, que possui respaldo de algumas das maiores empresas de mídia do Brasil, essas questões são ainda mais salientes e significativas.

  1. Marcela Temer como modelo de mulher possível na política institucional brasileira:

http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/bela-recatada-e-do-lar

(Marcela Temer: bela, recatada e do lar)

http://diariogaucho.clicrbs.com.br/rs/dia-a-dia/noticia/2016/05/alem-da-primeira-dama-mulheres-de-tres-ministros-chamam-a-atencao-pela-beleza-5800930.html

(Além da primeira-dama, mulheres de três ministros chamam a atenção pela beleza)

http://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/pela-primeira-vez-em-37-anos-ministerio-nao-tera-mulheres-c9b59phya7wbbfyf3jpqs5jk6

(Pela primeira vez em 37 anos, ministério não terá mulheres)

http://www.cartacapital.com.br/politica/bela-recatada-e-do-lar-materia-da-veja-e-tao-1792

(Bela, recatada e do lar: matéria da “Veja” é tão 1792)

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/04/160418_marydelpriore_entrevista_marcella_temer_np

(Crítica a “bela, recatada e do lar” é intolerante com o Brasil “invisível”, diz historiadora)

http://extra.globo.com/noticias/brasil/mulher-de-ministro-do-turismo-posa-em-frente-ao-congresso-sou-primeira-dama-mais-bonita-do-governo-19163977.html

(Mulher de ministro do turismo posa em frente ao congresso: “Sou a primeira-dama mais bonita do governo)

2. Mudanças de enquadramento nas notícias de economia no atual governo Temer:

Para ampliar um pouco mais o espectro de compreensão sobre a importância de discussão das moralidades e do papel dos meios de comunicação, seleciono abaixo as mudanças de enquadramento nas notícias de economia no atual governo Temer:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/05/dolar-alto-deixa-brasil-barato-para-estrangeiros-e-atrai-turistas.html

(Dólar alto deixa Brasil “barato” para estrangeiros e atrai turistas – 15/05/2016)

http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/09/entenda-os-efeitos-do-dolar-r-4-e-razoes-da-alta-da-moeda.html

(Entenda os efeitos do dólar a R$ 4 e as razões da alta da moeda – 22/09/2015)

http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/09/23/dolar-mais-alto-deixa-o-brasileiro-mais-pobre-veja-quem-ganha-e-quem-perde.htm

(Dólar mais alto deixa o brasileiro mais pobre; veja quem ganha e quem perde – 23/09/2015).

 

Referências Bibliográficas:

AUGUSTÍN, L. Trabajar em la indústria del sexo,2000. Acessado em: http://www.nodo50.org/mujeresred/laura_agustin-1.html.

_____________. Introduction to the cultural study of commercial sex. In: Sexualities, London, v. 10, nº 4, 2007, p. 403-407.

BERNSTEIN, E. Temporarily yours: intimacy, authenticity and the commerce of sex. London: Universityof Chicago Press, 2007.

BRAGA, J. Midiatização como processo interacional de referência. In: MÉDOLA, A; ARAÚJO, D; BRUNO, F. (orgs). Imagem, visibilidade e cultura midiática. Porto Alegre: Sulinas, 2007, p. 141-167.

__________. Interação como contexto da comunicação. In: Matrizes, ano 6, n° 1, 2012, p. 25-41.

BUTLER, J. Performative acts and gender constitution: an essay in phenomenology and feminist theory. In: TheatreJournal, v. 40, nº 4, 1988, p. 519-531.

__________. Cuerpos que importan: sobre los límites materiales y discursivos del “sexo”. Buenos Aires: Paidós, 2002.

__________. Undoinggender. New York-London: Routledge, 2004.

__________. El género en disputa: el feminismo y la subversión de la identidad. Barcelona: EdicionesPaidós Ibérica S.A., 2007.

RUBIN, G. Thinking sex: notes for a radical theory of the politics of sex. In: VANACE, C. (ed). Plesure and danger: exploring female sexuality.Boston: Routledg, 1985, p. 143-179.

SILVERSTONE, R. Regulation and the ethics of distance: distance and the ethics of regulation. In: MANSELL, R. et all. Networking knowledge for information societies: institutions and interventions. Netherlands: Delft University Press, 2002, pp. 279-285.

 

Notas do texto

 

[1]Inicialmente serão acessados os principais sites brasileiros que reúnem os perfis das camgirls (cameraprive.com, camerahot.com e sweetcam.com). As mulheres que comporão o corpus da investigação serão selecionadas por região: preferencialmente serão as alocadas em São Paulo; se necessário serão abarcadas as de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

[2]Essa asserção baseia-se nas obras de Judith Butler (2002, 2004).

[3]É preciso deixar claro que as camgirls são sujeitos submetidos também às apreciações sociais que são feitas aos indivíduos situados nos mercados do sexo, e que elas vão dialogar com as normatividades de gênero e sexualidade a partir desse lugar. Essa especificidade será abordada no trabalho de modo a edificar o contexto no qual as ações e os discursos são produzidos.

[4]É preciso destacar que a comunicação não é um processo pleno de garantias de efetivação; ao contrário, é contingente e tentativo, exigindo um esforço dos parceiros na interação social.

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Sobre José Maurício Arruti

Historiador (UFF) e doutor em Antropologia (Museu Nacional- UFRJ), foi pesquisador do CEBRAP (2003-2006) e professor da PUC-Rio (2007-2011), enquanto também coordenava projetos de pesquisa, comunicação e advocacy da sociedade civil junto a quilombos (Koinonia 1999-2009). Atualmente é prof. do Departamento de Antropologia da UNICAMP, onde faz parte do Coletivo Quilombola e coordena o Centro de Pesquisa em Etnologia Indígena (CPEI). Meus textos: http://unicamp.academia.edu/JoséMaurícioArruti

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