Prostituição de Luxo: Sexualidade, Trabalho e Sociabilidade na cidade de Belém-PA

por Tiago Luís Coelho Vaz Silva

 

 

Na atualidade, o advento da globalização e os avanços tecnológicos, sobretudo os relacionados à comunicação, acarretaram em profundas mudanças no modelo convencional em que a prostituição[1] costumava ocorrer. Originou-se uma crescente indústria do sexo que ultrapassa as fronteiras geográficas e na era digital oferece produtos e serviços pela rede mundial de computadores (internet), contribuindo profundamente para transformações e ressignificações nas noções de sexo e sexualidade, por exemplo.

A indústria do sexo movimenta milhões em dinheiro e cada vez mais atrai um número maior de pessoas dispostas a pagar bem por produtos e serviços, o que tem gerado um expressivo crescimento de profissionais envolvidos com o “trabalho sexual”[2](WEITZER, 2010). Dentro do cenário mais amplo da indústria do sexo, destaco aquilo que tem se chamado de “prostituição de luxo”: uma modalidade de prostituição praticada por pessoas de “fino trato”, que tem uma atenção especial com a beleza e boa aparência e, sobretudo, são seduzidas pelo luxo e glamour dos produtos que consomem, dos espaços que frequentam e dos ganhos econômicos e simbólicos que podem fazer inseridas neste meio (GUIMARÃES & BRUNS, 2008). Essas pessoas possuem entre 18 e 25 anos de idade, tem origem em classes média e alta, são escolarizadas (muitas frequentando, inclusive, cursos superiores) e costumam dizer para os familiares (quando ainda conseguem manter seu segredo) que atuam profissionalmente como modelos, manequins, no ramo de marketing e eventos, para justificar o estilo de vida que possuem (ABDALLAH& MENZ, 2013).

Este projeto tem a finalidade de desenvolver um estudo sobre a indústria do sexo em Belém, mais especificamente, uma das diferentes formas que a prostituição pode assumir: a prostituição de luxo.

Diante do exposto surgem algumas curiosidades epistemológicas que orientarão a investigação do estudo em pauta:

Sob quais eixos se constroem as feminilidades e as masculinidades, as noções de sexo e sexualidade entre as pessoas que vendem sexo na prostituição de luxo?Esta modalidade de prostituição surge como uma alternativa de autonomia ao modelo de subordinação imposto pela heteronormatividade à prostituição convencional (?),possibilitando uma experiência diferenciada com o sexo e com a sexualidadeao redefinir a prostituição como um encontro com o prazer, construído através de uma noção particular de autonomia e de liberdade.

Como se estabelece a negociação da intimidade nas relações afetivo-sexuais entre garotas/os de programa e seus companheiros/as? Afinal, a prostituição de luxo enquanto uma modalidade de trabalho sexual se insere no domínio da atividade econômica, mas que manifesta relações interpessoais intimistas através da prestação de serviços sexuais, o que pode gerar tensão na relação afetivo-sexual entre companheiros/as (até mesmo com clientes) diante a interseção entre as esferas do trabalho e da intimidade, e vice-versa.

Como lida com o estigma a pessoa que resolve se prostituir atraída pelo luxo e glamour da indústria do sexo? O fato de se prostituir por prazer acarreta em maior estigma para os envolvidos na prostituição de luxo, de quem a sociedade (principalmente, a família) poderia questionar com mais moralidade a escolha em se prostituir, já que não o fazem contra a sua vontade ou por circunstâncias do destino.

Deste modo, pretende-se apreender em que consiste esta modalidade de prostituição que tem se chamado de prostituição de luxo, compreendendo a trajetória individual e as práticas sociais daqueles que estão inseridos neste universo, a fim de problematizar o papel da sexualidade e do gênero nos processos de construção das subjetividades.

A perspectiva de abordagem sobre o fenômeno prostituição que apresentamos busca distanciar-se da apreensão da prostituição associada à pobreza, a infância traumática e a falta de oportunidade, que tendem a reproduzir a imagem das pessoas envolvidas no trabalho sexual com o estereotipo da prostituta sofrida(MARTIN, 2003)que só exerce esta atividade devido à coerção ou a miséria[3]. A perspectiva de que lançamos mão para compreender a prostituição de luxo em Belém se coaduna a estudos que tomam por base a teoria interacionista, ao enfatizarem os possíveis ganhos simbólicos de oferecer serviços sexuais em troca de pagamento, tais como: prazer sexual, festas, artigos de luxo, reconhecimento no mercado de desejos (FONSECA, 1996; GUIMARÃES & BRUNS, 2008; BARRETO, 2012; MENDONÇA, 2012).

As observações preliminares indicam a proeminência de três categorias analíticas para compreensãodo universo em que a prostituição de luxo se inscreve como possibilidade de encontro com o prazer: sexualidade, sociabilidade e consumo.

A possibilidade de exercer sua sexualidade com relativa segurança[4] e de forma mais livre ao relacionar-se com o número de parceiros que quiser, inclusive os selecionando, surge como uma alternativa de autonomia ao modelo de subordinação imposto pela heterossexualidade normativa à prostituição convencional (McCRACKEN, 2013). Isto permite que o eixo pelo qual garotas/os de programa desempenham sua sexualidade seja construído com base no prazer e não no estereótipo da necessidade, ao mesmo tempo em que se beneficiam de bens materiais e simbólicos em decorrência do que fazem.

A sociabilidade e o estilo de vida manifesto pelas pessoas inseridas na prostituição de luxo revelam nas/os garotas/os de programa uma atração particular por esta modalidade de prostituição, sendo envolvidas/os pelo luxo e glamour que a indústria do sexo pode oferecer através da suposta facilidade com que se tem acesso aos ambientes requintados, a sofisticação dos bens e artigos consumidos, e o dinheiro que se pode ganhar com este negócio.

As preocupações estéticas com o corpo, com o que vestir e usar (adereços relacionados ao mundo da moda), bem como o desejo em adquirir carros e imóveis constituem-se em mais um referencial no encontro com o prazer oportunizado pela prostituição de luxo. Este mercado da prostituição possibilita a garotas/os de programa uma maneira de ascender à sociedade de consumo, com todas as suas implicações ideológicas expressas em sonhos e ilusões.

Os contornos específicos que a prostituição de luxo assume na experiência de garotas/os de programa aumenta a probabilidade de gostarem do que fazem, o que é recorrente nos discursos das pessoas inseridas neste universo, redefinindo a noção de prostituição ao se constituir em possibilidade de alcançar o prazer através da tríade:  sexualidade, sociabilidade e consumo.

Pretende-se desenvolver um estudo com base na experiência etnográfica, através da observação participante, no intuito de fazer a imersão no domínio das relações face a face dos comportamentos e representações dos indivíduos inseridos na prostituição de luxo em Belém. Ao mesmo tempo, consideramos a necessidade de compreender as relações entre as estruturas mais gerais de como o mercado do sexo afeta a vidas das pessoas.

No que se refere ao público-alvo (interlocutores da pesquisa), não se pretende limitar a uma categoria de gênero e sexualidade, mas exploraras diferentes possibilidades que surgirem no contexto de pesquisa: mulheres, homens e transgêneros, heterossexuais, homossexuais, bissexuais e outras sexualidades que se apresentarem,sendo brancos/as, negros/as, mestiços/as, dentre outros; considerando as interseccionlidades entre gênero e raça, gênero e classe (BRAH, 2006).

Há cerca de dois anos, por intermédio de um amigo fui apresentado a uma garota de programa, acompanhante de luxo, com quem, em outros momentos, tive a oportunidade de conhecer previamente o fenômeno da prostituição de luxo em Belém. A partir de então, comecei a me interessas sobre o tema e passei a ter contatos eventuais com esta garota de programa (uma informante-chave), com finalidade estritamente acadêmica. Em outras oportunidades, fui apresentado por ela a mais três acompanhantes de luxo do seu circulo de relações[5], todas do sexo feminino, com quem conversei algumas vezes, mas que podem se estabelecer em informantes em potencial.

Outras possibilidades de aproximação e contato em busca de demais informantes serão feitos virtualmente através da internet com visitas a sites de agências ou blogs particulares de garotas/os de programas destinados à oferta de sexo, que se enquadrem no perfil estabelecido para o estudo[6]. Após estabelecer os contatos individuais com acompanhantes de luxo, buscarei identificar a existência de alguma rede de relações na qual possa expandir a quantidade de interlocutores, bem como participar e ter acesso de forma sistemática e permanente, ao longo do tempo de estudo, aos espaços onde ocorra a prostituição de luxo em Belém.

 

Para o debate

1) Para situar o debate sobre o Projeto de Lei n. 4211/2012, conhecido como projeto de Lei “Grabriela Leite”, que tem como objetivo regulamentar a atividade de profissionais do sexo. Explora, ainda, a relação entre o estigma da prostituição existente em nossa legislação.

– O Deputado Federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) Explica: – Lei Gabriela Leite (regulamentação da atividade das profissionais do sexo)

https://www.youtube.com/watch?v=yQcUFX3KI2Y

– Regulamentação das casas de prostituição: entenda o debate

http://revistaforum.com.br/digital/144/regulamentacao-das-casas-de-prostituicao-entenda-o-debate/

– Nem toda prostituta é Gabriela Leite: prostituição, feminismo e leis

http://blogueirasfeministas.com/2013/12/nem-toda-prostituta-e-gabriela-leite-prostituicao-feminismo-e-leis/

2) Para situar a reação conservadora de grupos religiososno debate sobre sexualidade e educação para as relações de gênero no contexto escolar.

– Discussão sobre ideologia de gênero nas escolas vira palco para espetáculo de preconceito na Câmara de Campinas (SP) (VÍDEOS)

http://www.brasilpost.com.br/2015/06/02/ideologia-de-genero-escolas_n_7492546.html

– Polêmica sobre questões de gênero pode deixar alunos do Recife sem livros

http://www.brasilpost.com.br/2016/03/27/polemica-genero-recife_n_9553134.html

Não é ‘ideologia de gênero’, é educação e deve ser discutido nas escolas, diz pesquisadorahttp://www.brasilpost.com.br/2016/03/25/preconceito-lgbt-escola_n_9546374.html

3) Para situar sobre a atual conjuntura de mudança de governo Dilma-Temer e a ameaça a direitos de minorias de gênero. Na segunda matéria, percebe-se a tentativa de mascarar a política de ausência de mulheres a frente dos Ministérios, que mesmo nos anos de ditadura militar teve mulheres ocupando cargos no primeiro escalão do governo.

– Há muito a Temer: o novo governo e os direitos LGBT

http://www.revistaforum.com.br/osentendidos/2016/05/12/ha-muito-temer-o-novo-governo-e-os-direitos-lgbt/

– Cultura vai para secretaria ligada à Presidência sem status de ministério e titular será mulher.

http://oglobo.globo.com/brasil/cultura-vai-para-secretaria-ligada-presidencia-sem-status-de-ministerio-titular-sera-mulher-19308355

 

Notas ao texto

[1]São muitas as definições que foram dando forma ao longo dos séculos a noção de prostituição, mas basicamente ela pode ser definida como a concessão de favores sexuais em troca de remuneração financeira. Em quase todas as definições sobre prostituição há a presença de dois elementos marcantes: sexo e dinheiro. No entanto, se faz necessário indicar outros dois elementos, bastante recorrentes nas definições, que ajudam a caracterizar a troca desses favores como prostituição: a frequência dos atos sexuais e; um número de pessoas com as quais se manifesta a troca de tais serviços.

[2]Designamos aqui de trabalho sexual todas as profissões que prestam serviços sexuais especializados.

[3] Ao contrário de estudos que focam sua análise na venda de sexo como necessidade econômica, a presente pesquisa pretende adentrar em um universo da prostituição onde a venda de sexo assume outras dimensões: em que pessoas alegam ter escolhido por vontade própria se prostituir e o fazem por prazer; e não por serem vítimas de situações que as tenham forçado a essa escolha, mas por terem sido atraídas pelo luxo e glamour da indústria do sexo, sem haver diretamente qualquer relação com a satisfação de necessidades materiais básicas a sobrevivência.

[4] Diferente da prostituição de rua, considerada uma das formas mais perigosas de trabalho sexual, as pessoas que vendem seu corpo na prostituição de luxo trabalham com relativa segurança (em clubes ou não), podendo selecionar os seus clientes e estabelecer as fronteiras na qual será desenvolvida a relação, o que pressupõe maior controle sobre o seu corpo e sobre a situação de modo geral (McCRACKEN, 2013; WEITZER, 2010).

[5]As pessoas envolvidas na prostituição de luxo não se constituem como grupo, o que dificulta o acesso aos interlocutores e a própria inserção em redes de relações quando elas se estabelecem. A possibilidade de rede de relações ocorrer quando garotas/os de programa são contratadas/os para prestarem serviços sexuais em dupla; ou contratadas/os para uma private social em um clube, casa noturna ou mesmo na residência de algum cliente. Porém, sem garantia alguma que estabelecerão qualquer tipo de interação social para além daquele momento e do serviço para qual foram contratadas/os, a não ser que já possuam relações sociais prévias – o que é mais comum para as/os que prestam serviços sexuais em dupla, pois utilizam isto como estratégia para conquistar clientes.

[6]Em pesquisa prévia na internet identificou-se dez sites relacionados ao tema para o contexto de Belém. Os termos usados para a busca foram: “prostituição de luxo”, “acompanhantes de luxo”, “acompanhantes Vips”. Observamos que houve a recorrênciada maioria entre os dez sites para os termos de busca empregados. Contudo, até o presente momento em que o estudo se encontra, não foram estabelecidos critérios para o que considerar como dentro do perfil do objeto, tampouco a triagem destes mesmos sites.

 

Referências

 ABDALLAH, Ariane & MENZ, Juliana. Garotas de programa de luxo. In: revistatpm.com.br. Publicado em 03 de junho de 2010. Disponível em http://revistatpm.uol.com.br/revista/99/reportagens/garotas-de-programa-de-luxo.html. Capturado em 30 de outubro de 2013.

BARRETO, Victor Hugo de Souza. Vamos fazer uma sacanagem gostosa? Uma etnografia do desejo e das práticas da prostituição masculina carioca. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense. Niterói, RJ, 2012.

BRAH, Avtar. Diferença, diversidade, diferenciação. Cadernos Pagu (26), pp. 329-376, 2006.

FONSECA, Cláudia. A dupla carreira da mulher prostituta. Estudos Feministas, Ano 4, n. 1, 1º semestre, 1996, p. 7-33.

GUIMARÃES, Roberto Mendes & BRUNS, Maria Alves de Toledo. Prostituição de Luxo: a vivência sexual das profissionais do sexo. In: Fazendo Gênero 8 – Corpo Violência e Poder. Florianópolis, SC, 2008.

MARTIN, D. Riscos na prostituição: um olhar antropológico. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP: Fapesp, 2003.

McCRACKEN, Jill. Street Sex Worker’sDiscourse:Realizing Material ChangeThroughAgentialChoice. New York: Routledge, 2013.

MENDONÇA, Silvia Beatriz. Prostituição, prazer e a construção do feminino. Trabalho Apresentado na 28º Reunião Brasileira de Antropologia. São Paulo: SP, 2012.

WEITZER, Ronald. Sex For Sale:Prostitution, Pornography, andthe Sex Industry. New York: Routledge. 2nd Edition, 2010.

ZELIZER, Viviana A. A negociação da intimidade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011. (Coleção Sociologia).

 

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Sobre José Maurício Arruti

Historiador (UFF) e doutor em Antropologia (Museu Nacional- UFRJ), foi pesquisador do CEBRAP (2003-2006) e professor da PUC-Rio (2007-2011), enquanto também coordenava projetos de pesquisa, comunicação e advocacy da sociedade civil junto a quilombos (Koinonia 1999-2009). Atualmente é prof. do Departamento de Antropologia da UNICAMP, onde faz parte do Coletivo Quilombola e coordena o Centro de Pesquisa em Etnologia Indígena (CPEI). Meus textos: http://unicamp.academia.edu/JoséMaurícioArruti

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