A descolonização das mentes e epistemologias: sobre o II Encontro Nacional dos Estudantes Indígenas (ENEI)

Por Juliana Jodas

“Somos uma população de 305 povos com mais de 274 línguas e com uma população que ultrapassa 1 milhão. Eu mal tenho ensino fundamental, aprendi apanhando, sendo perseguido, ameaçado e levando tiro. Eu como liderança e os caciques fazemos dia-a-dia um enfrentamento para que quando voltarem acharem seu território demarcado. Cada um de vocês (estudantes) para chegar aqui percorreu um longo caminho, tem uma história, desafios e são vitoriosos. E nós, depositamos em vocês esperança para que sejam instrumento e para garantirmos nosso desafio de viver como somos.” (Lindomar Terena- Conselho do Povo Terena)

 No dia 04 de Agosto ao caminhar pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) em Campo Grande – MS podia-se notar certa diferença na universidade, a começar pela circulação de pessoas e o ambiente preenchido por quadros e pinturas não convencionais para aquele espaço. Embora a universidade fosse diariamente ocupada por estudantes indígenas, naquele dia, em especial, ela apresentava nova “cara” com a chegada de aproximadamente 700 indígenas de todo país para participar do II Encontro Nacional dos Estudantes Indígenas (ENEI).

Um grande painel com exposições de imagens indígenas marcava a entrada do anfiteatro de abertura do evento, cuja proposta deste ano, seria a discussão dos desafios e avanços das políticas públicas para universitários e egressos indígenas. O evento é iniciado com uma apresentação cultural Terena do Mato Grosso do Sul e com a fala de uma das organizadoras do evento, a mestranda em antropologia Simone Eloy Terena, que ressalta a importância da construção deste espaço como meio de fomentar o debate sobre a entrada e a permanência de indígenas no ensino superior, e principalmente, sobre como os indígenas podem protagonizar sua própria história.

A presença indígena no ensino superior tem problematizado e evidenciado as incoerências e controvérsias do modelo homegeneizador na qual as universidades são construídas e direcionadas. A diversidade étnico-racial do Brasil, refletida nas variadas formas de inclusão de negros e indígenas nas universidades, sobretudo a partir da última década, por meio da luta dos Movimentos Negro e Indígena pelo acesso ao ensino superior, tem contribuído para a formação de um quadro cada vez mais heterogêneo da composição dos universitários e pós-graduandos.

O II ENEI reuniu estudantes de 41 universidades brasileiras e 2 universidades latino-americanas (Universidade Indígena da Colômbia e Universidade do Equador) pertencentes a 42 etnias diferentes, dados que traduzem o desafio em que as universidades e os próprios estudantes tem se deparado: uma riqueza de experiências e de trajetórias escolares distintas que se cruzam na universidade, e que passam a contestar as estruturas hierárquicas e os saberes ocidentais hegemônicos existentes.

O evento contou com apresentação de trabalhos acadêmicos em Grupos de Trabalho (GTs) e as mesas de debate que foram intercaladas com apresentações culturais das diferentes etnias ali presentes. Essas apresentações propiciaram um clima de confraternização entre os parentes[1], contrastando com a lógica dos demais eventos acadêmicos marcados pela rigidez dos horários e por formalidades dos participantes. Exceto a abertura, realizada na UCDB, o encontro ocorreu em um Eco Hotel na qual todos os indígenas presentes puderam ficar alojados. No período da noite ocorriam atrações culturais como mostra de arte indígena, desfile de trajes étnicos e apresentação do DJ Eric Marky Terena.

Estes universitários mostram novo folego para o Movimento Indígena, cujo papel e compromisso foram ressaltados no Encontro. As mesas, formadas por uma composição diversa entre estudantes, egressos, profissionais indígenas e lideranças, enfatizaram a importância desse elo como forma de angariar direitos e de contribuir para as diferentes frentes de luta dos povos indígenas no Brasil. As lideranças, ao ressaltarem suas lutas diárias pela demarcação de terras, saúde e educação diferenciada, reiteram a esperança depositada nos estudantes como instrumento para fortalecer a causa indígena e garantir o desafio da diferença, de viver como indígena.

Como destacado por Eliel Benites, Guarani-Kaiowá, mestre em Educação pela UCDB, “nosso papel é uma espécie de tradução”, isto é, a utilização de uma nova linguagem como forma de democratizar os saberes e trazer o conhecimento gratuito coletivamente para as comunidades indígenas. Cabe a eles contribuir para que novos conteúdos e saberes sejam incorporados à Universidade, para que esta dialogue mais diretamente com suas demandas e realidades.

Por isso, dentre as discussões sobre a permanência dos estudantes na universidade, além do apoio financeiro por meio de bolsas de estudo, um ponto destacado foi a necessidade de uma revisão dos seus projetos pedagógicos para que novos conteúdos sejam incorporados e a partir de novos princípios didático-metodológicos.

A universidade até então pensada para uma parcela específica da população (branca, ocidental, oriunda de escolas particulares) encontra dificuldades em lidar com as diferenças em sala de aula, o que acarreta em preconceitos, não só dos demais estudantes, mas dos próprios professores, principalmente por desconhecer a realidade indígena do Brasil. O “índio”, pensado no singular, continua associado a uma imagem romantizada, folclórica e a-histórica.

Mas não é apenas a universidade que não está preparada para receber “o outro”. Os mesmos desafios são colocados para os indígenas formados. Em relação ao mercado de trabalho foi discutido a importância em construir novas demandas e trabalhos por meio de articulação política entre os próprios indígenas como forma de conquistar diferentes espaços e alternativas, já que os recém-formados têm encontrado dificuldade de serem inseridos no mercado de trabalho.

Outra questão importante apresentada foi em relação às pesquisas acadêmicas. De um lado foi discutido o tema do respeito do pesquisador indígena com sua comunidade, no sentido valorizar os saberes tradicionais e ter cuidado, atenção e respeito ao que será escrito e divulgado. De outro lado, a necessidade de se produzirem novos olhares e métodos de pesquisa para que o trabalho acadêmico indígena possa dialogar com espaços não acadêmicos por meio de novas linguagens, como forma de conciliar conhecimentos científicos com os conhecimentos tradicionais.

E junto aos diálogos sobre o acesso e permanência dos indígenas ao ensino superior, por meio de programas de inclusão, foi discutido a necessidade de construção de uma universidade intercultural indígena no Brasil, que contou com a participação do professor Hernán Holger Payaguaje expondo a experiência da Universidade Indígena do Ecuador, criada em 1998. Para o antropólogo Gersem dos Santos Luciano, da etnia Baniwa, um dos participantes do debate, o percurso de formação das escolas indígenas no Brasil foi o de apropriação, em que a escolarização, antes dominada por missionários, foi apropriada e hoje 95% dos professores são indígenas, realidade contrária ao cenário que encontramos nas universidades: “eu pessoalmente acho que não será possível apropriar alguma universidade, é um outro cenário, é outra coisa e eu sou pessimista em relação a isso. Daí a necessidade de se pensar, portanto, em universidades próprias indígenas, como uma universidade da teoria e da prática”.

O Encontro foi marcado pela presença da imprensa local[2] que demonstrou curiosidade em relação ao tema que, além de noticiar o evento nos jornais da cidade, realizou entrevistas com os estudantes e organizadores questionando os principais objetivos dos indígenas com a universidade e a importância da realização do evento. O destaque na mídia nacional[3] e internacional[4] foi informado com orgulho na página do II ENEI embora uma única matéria tenha sido replicada em praticamente todos os sítios.

De uma maneira geral, o debate apontou que, além das dificuldades acadêmicas, comuns a todos os universitários, os indígenas enfrentam o preconceito de professores e alunos e um modelo educacional hegemônico (que confronta com a experiência das escolas diferenciadas interculturais), em que suas especificidades culturais não são levadas em conta. Por isso, os estudantes indígenas ao mesmo tempo em que buscam igualdade de oportunidades também reivindicam o reconhecimento de suas diferenças, por meio de suas identidades específicas.

Foto_IIENEI

Foto: Ramayana Arrais Albuquerque 

O acesso ao ensino superior tem se constituído em uma importante ferramenta de empoderamento e diálogo dos povos indígenas e a universidade se configura como um ambiente de disputa em relação a práticas, métodos e saberes. A presença indígena questiona os modelos historicamente estabelecidos na universidade, buscando “descolonizar” as mentes, práticas e epistemologias com a discussão da necessidade de novos olhares sobre a educação.


[1] Modo dos indígenas se referirem às demais etnias.

[2] Disponível em: http://g1.globo.com/videos/mato-grosso-do-sul/bom-dia-ms/t/edicoes/v/encontro-nacional-discute-a-educacao-e-mercado-de-trabalho-para-os-povos-indigenas/3542869/?fb_action_ids=872204256124636&fb_action_types=og.likes

[3]Disponível em: http://noticias.terra.com.br/brasil/politica/formacao-universitaria-e-nova-meta-do-movimento-indigena-brasileiro,93e087abd92b7410VgnCLD200000b1bf46d0RCRD.html e https://br.noticias.yahoo.com/forma%C3%A7%C3%A3o-universit%C3%A1ria-%C3%A9-nova-meta-movimento-ind%C3%ADgena-brasileiro-233130494.html

[4]Disponível em: http://www.eleconomistaamerica.com/sociedad-eAm/noticias/5998124/08/14/La-formacion-universitaria-es-la-nueva-meta-del-movimiento-indigena-brasileno.html#.Kku8Q355DIBc0DT

Juliana Jodas é mestre em sociologia pela UFSCar e doutoranda em Ciências Sociais pela UNICAMP, onde participa do CPEI.

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Publicado em Sem categoria por José Maurício Arruti. Marque Link Permanente.

Sobre José Maurício Arruti

Historiador (UFF) e doutor em Antropologia (Museu Nacional- UFRJ), foi pesquisador do CEBRAP (2003-2006) e professor da PUC-Rio (2007-2011), enquanto também coordenava projetos de pesquisa, comunicação e advocacy da sociedade civil junto a quilombos (Koinonia 1999-2009). Atualmente é prof. do Departamento de Antropologia da UNICAMP, onde faz parte do Coletivo Quilombola e coordena o Centro de Pesquisa em Etnologia Indígena (CPEI). Meus textos: http://unicamp.academia.edu/JoséMaurícioArruti

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