Gaza e os enfoques interculturais e pós-coloniais – apontamentos para aula

Se nada acontecer até lá, em 2018 os palestinos estarão esperando 70 anos pelo cumprimento de uma resolução da ONU e pela efetivação de seu Estado. Idade em que um servidor público estaria aposentado compulsoriamente no Brasil. Isso dá, em parte, a dimensão do período de espera, resistência e de sucessivas violações de direitos humanos, a que a “comunidade internacional” assiste quase que passivamente. Recomendo a leitura de dois textos do Boaventura Santos: Boicote a Israel (2004) e Réquiem por Israel (2009), porque desde então, a situação piorou.

Angela Davis, com propriedade, dia 25 de julho, aqui em Brasília afirmou que Israel é o único Estado colonial que continua a se expandir em pleno século XXI. Durante a semana, sem contarmos um para o outro, tanto eu, quanto Rita Segato, quanto Lívia Vitenti, demos nosso apoio ao movimento internacional de BDS- Boicote, Desinvestimento e Sanções, criado em 2005 por 171 ONGs palestinas descontente com a política de Israel. Um grupo que conta com o apoio, atualmente, dentre outrxs, de Angela Davis, Judith  Butler, Naomi Klein, Slavoj Zizek, Omar Barghouti, Roger Waters, etc.

Quem quiser saber mais sobre o movimento, pode acessar a Carta da fundação do BDS pelo sociedade civil palestina em 2005, os sites Boycotts, divestment and sanctions (BDS) e Campaña de boicot, desinversiones y sanciones (BDS) , o livro recentemente lançado na Espanha ou o artigo da Judith Butler ( que é judia!).

Claro que já tivemos observações, considerações e represálias no sentido de que estávamos a fortalecer o antissemitismo, que os dois lados tinham seus prós e contras, que não estávamos a favor da paz,  de radicalismo, etc.  Fora outros que ridicularizaram a posição na imprensa, como Rodrigo Constantino, da VEJA.

Aliás, esta revista apoiou massivamente o apartheid, e um dos seus sócios é uma empresa sul-africana que apoiava o regime. Recordo que quando lutávamos a favor de ações afirmativas, alguns de nós também foram tachados de racistas e defensores da violência inter-racial. Relembro também para os que dizem que a situação não é óbvia como a do apartheid, que este durou de 1948 até 1994, com apoio de EUA e também Israel. Passei os cinco anos da faculdade esperando o apartheid, “uma injustiça evidente” como disse uma amiga, acabar. E ele só acabou 4 anos depois de minha formatura. Estou formado há 25 anos e ainda não vi o cumprimento da resolução da ONU que determinou a criação do Estado Palestino.  E em 1948 não tinha Hamas, nem mesmo em 1967.

Durante a semana também houve ativistas LGBT a defender Israel porque “Tel Aviv é um point gay”, e os islâmicos perseguem gays, outras minorias, etc. Todos sabem o quanto eu tenho trabalhado com o feminismo islâmico e alguns conhecem, inclusive, o movimento da queer jihad, em especial com Scott Kugle e Ghazala Anwar. Infelizmente, as questões religiosas e de sexualidade não têm merecido muita atenção para enfoques interculturais e pós-coloniais, aqui no Brasil. Recordo, apenas, que Jasbir Puar tem um trabalho fantástico sobre a tortura em Abu Ghraib e um livro que deveria ser um clássico- Terrorist assemblages ( todo o material dela pode ser acessado on line no seu site específico) e Jason Ritchie escreveu um livro muito interessante (“Queer Checkpoint: sexuality, survival, and the paradoxes of sovereignity in Israel-Palestine. University of Illinois at Urbana-Champaign). Um bom início para descobrir a construção do homonacionalismo israelense e a invisibilizaçao das lutas queer na Palestina. Aliás, recentemente, saiu outro artigo, agora em espanhol, da Lucía Seguer, argentina, analisando o tema.

Por fim, e já me estendi em demasia, segue abaixo uma carta de Muna Odeh, professora da UNB, respondendo a uma colega judia sobre a Carta Lancet, que ela defendeu a assinatura, criticando a política do Estado de Israel. Tenho o maior orgulho de partilhar da amizade de uma pessoa tao fantástica quanto Muna, e a carta é uma verdadeira aula de direitos humanos.

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Cesar Baldi é professor da Universidade Luterana do Brasil até 2007. Servidor do Tribunal Regional Federal da 4ª Região desde outubro de 1989. Pesquisador do Núcleo de Estudos para Paz e Direitos Humanos-NEP- da Universidade de Brasília.
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Sobre José Maurício Arruti

Historiador (UFF) e doutor em Antropologia (Museu Nacional- UFRJ), foi pesquisador do CEBRAP (2003-2006) e professor da PUC-Rio (2007-2011), enquanto também coordenava projetos de pesquisa, comunicação e advocacy da sociedade civil junto a quilombos (Koinonia 1999-2009). Atualmente é prof. do Departamento de Antropologia da UNICAMP, onde faz parte do Coletivo Quilombola e coordena o Centro de Pesquisa em Etnologia Indígena (CPEI). Meus textos: http://unicamp.academia.edu/JoséMaurícioArruti

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