Bruxaria, alteridade e o linchamento de Fabiane

por Iracema Dulley

 Em uma aula de um curso sobre bruxaria e feitiçaria no departamento de antropologia da Unicamp, propus aos alunos tomar o objeto do curso como ponto de partida para pensar uma dificuldade clássica do pensamento antropológico: qual estatuto dar à violência dos outros? Afinal, se a lógica da bruxaria pode ser fascinante como princípio de explicação do mundo alternativo à suposta racionalidade ocidental, a violência que acompanha as acusações a ela relacionadas é capaz de despertar sentimentos igualmente perturbadores.

Peter Geschiere, autor que motivou a discussão, colocava em questão o posicionamento do antropólogo na “política da bruxaria” nos países africanos, a qual inclui ataques violentos aos supostos bruxos e feiticeiros, ao mesmo tempo que reconhecia o lugar desajeitado ocupado pelo antropólogo em um contexto que em muitos aspectos lhe escapa e sobre o qual sua autoridade é, quando a violência irrompe, no máximo retórica. Surpreendi-me ao ouvir o posicionamento de meus interlocutores: a maioria defendia a posição de mero observador  – afinal, trata-se “da cultura dos outros”.

Até onde se pode levar o relativismo, e a totalização do outro que o acompanha, no discurso sobre a diferença? Quando algo deixa de ser simplesmente outro e passa a ser visto como atentado à condição humana ou de outros seres vivos? É sabido que para esta questão não há saída fácil, assim como não há teorização que dê conta das mediações infinitas entre as generalizações sobre a diferença e as ranhuras do real. Não obstante, voltei para casa incomodada com a constatação de que no universo particular em que a discussão se colocou, a maior parte de meus interlocutores era movida por uma certeza: a de que se trata de práticas ancoradas em um universo cultural outro, que em muito difere do nosso; em decorrência disso, tudo que podemos fazer é tentar compreendê-las e suspender o possível horror que possamos vir a sentir ao nos depararmos com as atrocidades cometidas contra supostos(as) bruxos(as) ou feiticeiros(as). Insistir no sentimento de indignação seria etnocentrismo.

Parece que nos esquecemos de colocar outra questão, tão fundamental quanto a que nos leva ao impasse relativista: quem são, afinal, os “outros”? E quem somos “nós”, que os nomeamos e assim nos reconhecemos, em um espelho invertido, ao interpelá-los a partir da localização de sua diferença? Em se tratando da violência relacionada à bruxaria na África, é fácil circunscrever a alteridade, pois uma miríade de nomes nos é oferecida como ponto de partida: “os africanos”, “os sul-africanos”, “os Tswana”. Nomes tão colados ao real em nosso discurso que resolvem magicamente o impasse: é de outros que se trata.

Uma infeliz coincidência, contudo, trouxe a questão para muito perto de nós. No início deste mês de maio, Fabiane Maria de Jesus, 33 anos, foi linchada pelos moradores do bairro de Morrinhos no Guarujá. O motivo do linchamento: Fabiane foi identificada por alguém na rua como correspondendo à descrição de uma mulher acusada de sequestrar crianças para praticar magia negra que circulou na internet. Imeditamente juntaram-se pessoas ao acusador e teve início o linchamento, que segundo as notícias durou cerca de duas horas. Algumas pessoas do bairro chamaram a polícia e Fabiane foi hospitalizada, mas não resistiu aos ferimentos e morreu. Quando já estava desacordada, percebeu-se que o livro que trazia nas mãos não era um manual de ritos satânicos, mas uma bíblia – o que foi tomado por muitos como índice de sua inocência.

Como explicar esse acontecimento no Guarujá, tão próximo de “nós”? Até que ponto se pode atribuir uma violência tão aleatória à diferença? Se já não é possível dizer que linchamentos e queimas de bruxas são algo que pertence a outro universo geográfico ou período da história, como dar conta do inexplicável? Essa história bizarra vem nos lembrar de que qualquer coisa pode acontecer em qualquer lugar. O insólito, no momento em que vivemos, transcende rapidamente as desgastadas fronteiras culturais e se atualiza de forma inesperada onde jamais poderíamos imaginar.

Para uma pessoa nascida e criada no Brasil, penso que os custos de atribuir o linchamento de Fabiane à alteridade das pessoas que o realizaram seriam muito altos. Afinal, não é verossímil afirmar que linchar acusados de bruxaria faz parte da “cultura brasileira”, nem mesmo “na periferia”. Contudo, é muito plausível, e mesmo provável, que alguém em outro lugar do mundo leia essa notícia na chave da violência contra acusados de bruxaria e feitiçaria que assola os países de terceiro mundo na atualidade. Não pretendo, com isso, defender um universalismo tosco, mas colocar em questão o papel desempenhado pelo a priori da nomeação em uma disciplina que parece, cada vez mais, abrir mão da dúvida no que diz respeito à transformação da diferença em alteridade.

 

Iracema Dulley é doutora em antropologia social pela USP (2013) e atualmente realiza pós-doutorado no Cebrap.

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Sobre José Maurício Arruti

Historiador (UFF) e doutor em Antropologia (Museu Nacional- UFRJ), foi pesquisador do CEBRAP (2003-2006) e professor da PUC-Rio (2007-2011), enquanto também coordenava projetos de pesquisa, comunicação e advocacy da sociedade civil junto a quilombos (Koinonia 1999-2009). Atualmente é prof. do Departamento de Antropologia da UNICAMP, onde faz parte do Coletivo Quilombola e coordena o Centro de Pesquisa em Etnologia Indígena (CPEI). Meus textos: http://unicamp.academia.edu/JoséMaurícioArruti

4 respostas em “Bruxaria, alteridade e o linchamento de Fabiane

  1. Realmente instigante estes dilemas. Há uns 15 anos, um babalorixá foi assassinado no interior da Bahia. O acusado do crime, um fazendeiro da região, alegou que o matou por medo de feitiço, após uma rixa que ambos tiveram. O juiz solicitou um laudo a um conhecido antropólogo soteropolitano atualmente falecido, que declarou que Candomblé é parte do sistema de crença brasileiro e sobretudo baiano, que se baseia na crença e temor ao feitiço, eficácia mágica e sacrificial, etc. e tal. Enfim, com base neste parecer, o laudo, o juiz aceitou o pleito do réu por “legítima defesa”.

    • Robson, você teria mais informações sobre esse ocorrido? Eu gostaria de dar uma olhada nesse processo.

  2. E eis que no Anthropology Works de hoje [27 de mai]

    “In Brazil: A murder prompted by rumors of witchcraft and organ theft
    LiveScience quoted cultural anthropologist Nancy Scheper-Hughes in an article about a woman accused of being a witch who was then beaten to death by a mob Guarujá, Brazil, near São Paulo. The attack was prompted by suspicions the woman was involved in a kidnapping related to organ theft, following a Facebook post by a local news outlet. Rumors of organ theft are not uncommon in Brazil. Scheper-Hughes, who has studied organ-theft rumors, noted that in many poor areas of the world, residents sometimes avoid treatment in public hospitals out of fear that their organs may be taken.”

    http://anthropologyworks.com/index.php/2014/05/25/anthro-in-the-news-52614/

    • A entrevista é muito boa. Mas não encontrei o lugar onde fala da relação entre a acusação de bruxaria e o tráfico de órgãos.

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